Aos 59 anos, casado, pai de duas filhas e avô de uma neta, Ulisses Braga Spagiari construiu uma carreira de sucesso. Na verdade, duas. 

Os tijolos iniciais da primeira delas foram assentados logo aos 14 anos, quando ele começou a trabalhar na área de contabilidade. Esta construção cresceu até que ele se tornasse um executivo da área financeira com passagens por várias multinacionais de renome. 

A jornada durou 26 anos, e acabou quando ele resolveu aceitar de vez um chamado do Senhor que revolucionou a sua vida. Nascia ali, de forma oficial, o Tio Uli, evangelista de crianças em tempo integral.

Engana-se, porém, quem pensa que a mudança aconteceu “do nada”. Uli, como é chamado pelos íntimos, se orgulha ao mostrar diversas capas de revista (das prestigiosas Exame, Você S/A e outras) que repercutiram o trabalho social que exerceu (e estimulou os colegas de trabalho a exercer) com as crianças de São Paulo no final da década de 1990 e início dos anos 2000. 

Foi graças a essa repercussão, conta, que surgiu um convite do Pastor Márcio Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha (IBL), de Belo Horizonte, para que ele iniciasse um ministério voltado para o evangelismo de crianças. O que ele topou, claro.

Hoje pastor voluntário da IBL, Tio Uli explica que, mesmo com o título, o seu chamado, de verdade, é para cuidar das crianças que estão fora dos muros da igreja. 

Nesta entrevista , ele conta à Revista Cristã qual é o maior desafio do evangelista de crianças, fala do futuro deste ministério, explica como se manter atualizado e muito mais. Confira o papo:

Tio Uli e Zoe (arquivo pessoal)
Tio Uli e Zoe (arquivo pessoal)

RC: Como começou o trabalho com os bonecos?

Cheguei a uma loja e vi na vitrine um boneco fantoche, daqueles de meio corpo, e achei que aquilo falaria muito a linguagem das crianças e comprei um. Nas minhas histórias, nos conteúdos que eu levava para os pequenos, eu sentia a necessidade de outros personagens, e eu acho que foi aí que começou o Tio Uli e os bonecos.

RC: Porque ainda temos poucos pastores para trabalhar com crianças em tempo integral na igreja?

Primeiro, existe uma culpa, e agora eu vou trazer um pouquinho pra dentro da igreja, para os professores da escola dominical. Nós passamos uma geração tomando conta de crianças para não atrapalhar o papai e a mamãe no culto. Colocava numa salinha com meia dúzia de lápis de cor e uma folha de papel A4, para não atrapalhar o papai e a mamãe, ou pro pastor não olhar feio quando a criança emitia algum barulho ou um choro. Nessa geração a gente mudou de posicionamento. Agora a criança vai celebrar um culto na linguagem delas. Só que, aí, a gente precisa convencer essa geração antiga de que a gente não é mais babá. 

Existe um ministério internacional que se chama APEC, Associação Pró-Evangelização das Crianças. Eles têm uma estatística que diz que 80% das pessoas que se convertem estão dentro da janela 4-14, ou seja, de 4 a 14 anos de idade. Se não me engano, os outros estão divididos entre 14% que se voltam a Jesus entre os 15 a 40 anos, e os outros 6% acima disso. 

A pergunta é: se a maioria das pessoas se convertem dos 4 aos 14 anos, porque a igreja não foca nessa faixa etária? Porque ela está focando nos adultos, nos jovens?

Se eu evangelizar uma criança, eu salvo um futuro marido, uma futura esposa, que vai ter filhos, então eu acho que falta muito esse conhecimento. Falta uma visão estratégica. 

Existe também uma dificuldade que é: a gente não consegue pegar uma “galera” de 0 a 12 anos e pôr uma pessoa só para trabalhar com eles. Por quê? As faixas etárias se comportam de formas totalmente diferentes. Enquanto você precisa de uma só pessoa pros adolescentes, uma só pros jovens, apenas uma para a terceira idade, você precisa de seis para as crianças.

RC: Como lidar com as crianças na era digital? Focar no lúdico ainda funciona?

Pela minha experiência de 36 anos de trabalho com crianças de diferentes faixas etárias e classes sociais, eu nunca vi uma criança “tecnológica” não se render ao lúdico. Se você age com excelência com aquilo que faz e tem a unção específica sobre a sua vida, eu nunca vi uma criança que não se renda.

RC: Como se manter atualizado com a passagem de tempo e mudanças de gerações?

É importante estar atualizado, eu dedico tempo a saber o que está acontecendo, o que está sendo vendido nas lojas. Ao mesmo tempo, vejo pessoas trabalhando com crianças que mudam o tom de voz, que só falam no diminutivo, que tratam a criança como se ela fosse de outro planeta, ou como se ela tivesse uma debilidade. Claro que você vai facilitar o português de acordo com o nível de compreensão. Mas é importante pensar como a criança pensa. É importante saber um pouco de psicologia infantil, estudar um pouco sobre isso, tratá-la de maneira igual, falar uma linguagem que ela entenda, sem firulas, sem discriminação ou mudança só porque ela é uma criança. Acho que esse é o grande segredo.

RC: Qual é o maior desafio do evangelista de crianças?

Eu costumo dizer que criança não tem problema nenhum. Quem tem é pai e mãe. A criança aprende por repetição, e, mais do que ensinamento, ela repete comportamento. Ela observa o papai e a mamãe o tempo todo, então se tiver algum problema com eles, vai refletir no caráter, na personalidade, no emocional. A grande dificuldade é que a gente não consegue trabalhar com a criança desassociada dos pais. É um trabalho conjunto, porque muitas vezes você ensina algo e ela vai viver outra coisa totalmente diferente em casa. O ideal é criar um link para que os pais apoiem aquilo que a criança aprendeu na igreja.

Tio Uli e Joy (arquivo pessoal)
Tio Uli e Joy (arquivo pessoal)

RC: O que mais te preocupa na forma como a igreja trata as crianças hoje?

O que me preocupa é a igreja não ter uma clareza do ataque que tem vindo sobre as nossas crianças. Em 36 anos de ministério, eu já acompanhei muitas gerações de crianças e nunca vi um ataque tão violento quanto nessa geração. A música, jogos eletrônicos, televisão, literatura. Então, a preocupação é quando a igreja não está antenada para trazer uma mensagem de resiliência. Não é para pôr a criança numa bolha, mas ensinar como responder a isso. Ensinar quem ela é, a imagem de quem ela foi criada. 

RC: E qual seria a maior resposta a isso?

É a igreja entender que precisa de um pastor que pastoreie crianças. Trazendo capacitação, estando antenado, em tempo integral.

RC: Qual a maior alegria em relação ao que você vê na forma em que a igreja trata as crianças hoje?

A minha alegria é ver as crianças chegarem na igreja e perceberem ali como um lugar de refúgio. Onde elas podem compartilhar suas angústias, os problemas que estão tendo em casa, delas terem um lugar com crianças da faixa etária delas e também com uma pessoa capacitada para ensinar e para ouvir.

RC: Qual é o futuro do evangelismo de crianças?

Eu espero que, daqui pra frente, sendo bastante otimista, cada vez mais a igreja entenda que é das crianças o Reino dos Céus. A Bíblia diz em Mateus 19:13 que “traziam as crianças para (Jesus) orar”. Quem é que trazia? Provavelmente os pais. E a Bíblia diz que os discípulos os repreendiam. A própria liderança. Os que estavam próximos, os preferidos, os que viam os milagres de perto. Eles não entendiam. Então a gente compreende o porquê muitas vezes não avança esse trabalho de evangelização de crianças. Porque a liderança não entende essa visão. Mas isso é bíblico. Os próprios discípulos não entendiam isso. Então, quanto mais for criada essa consciência de que é das crianças o Reino dos Céus, ao ponto de, dependendo do que fizer com uma delas, você não vai entrar nele, quando essa ficha cair, da seriedade de como Deus e Jesus vêem as crianças, e eu sou otimista, eu acho que cada vez mais vamos ter melhores ministérios infantis, igreja com as crianças, e toda essa concepção de trabalho coletivo com pais e filhos.

RC: Qual é a estratégia para ter a mensagem aceita tanto dentro quanto fora da igreja?

As “minhas” crianças normalmente são aquelas que só tiveram más experiências com os “grandões”. A enfermeira disse que não ia doer, mas fez um curativo que doeu. O pai disse que ia sempre estar perto, mas abandonou. Então, qual é a minha estratégia? O humor. Eu faço aquela criança que está na cama do hospital, rir. Eu faço a mãe que está acompanhando, rir e ver a criança dela no berço rindo, para que elas esqueçam aquele quadro que elas estão vivendo e eu possa fazer o que fui fazer: evangelizar. Eu não sou humorista. O humor serve como ponte para o meu objetivo final. Eu uso estratégias como o lúdico, o humor e os bonecos para isso. 

RC: Por fim, deixe algumas dicas para quem está começando hoje no ministério de evangelismo de crianças.

1 – Tenha certeza que é o seu chamado. De que você está no centro do que Deus quer. Com isso você não perde tempo.

2 – Tudo o que você for fazer, faça com excelência. Entregue o seu melhor, não se limite. Faça o melhor com o que você tem e continue galgando passos.

Em determinado ponto da entrevista, Uli mostra uma edição da Revista Cristã que foi capa há 18 anos. Perguntamos o que mudou em todo esse tempo.

Mesmo tendo passado tanto tempo [da última entrevista], o chamado ainda é vivo. A consciência de que Deus me chamou para alcançar as crianças e, nestes 18 anos, a gente amadurece, cria certezas maiores do quanto Deus e Jesus as amam, e do quanto elas têm sido bombardeadas, principalmente nesta última geração. Também avaliando que as gerações mudam, que hoje as crianças passam mais tempo distantes do papai e da mamãe, porque eles estão trabalhando secularmente, e onde essa criança também fica exposta a tantas outras referências. Mas nesse tempo todo, quando olho para trás, posso ver a alegria de quantas crianças nesse tempo todo foram alcançadas e agradecer a Deus por ter sido um instrumento para isso.