O Teste do Pezinho é o nome popular do exame de sangue simples e rápido, que deve ser feito em todos os recém-nascidos, na primeira semana de vida, de preferência, ainda na maternidade, no dia da alta. Desde 1992, o Teste do Pezinho é obrigatório em todo o território nacional e, atualmente, está previsto no Programa Nacional de Triagem Neonatal, adotado pelo Ministério da Saúde em 2011.

Para que serve o Teste do Pezinho?

O Teste do Pezinho detecta, de forma precoce, alterações no sangue do bebê que podem indicar doenças graves de nascença, sejam elas genéticas ou metabólicas, algumas fatais, antes mesmo do aparecimento dos sintomas. O exame é o primeiro passo para o diagnóstico correto nos primeiros dias de vida e possibilita o início de um tratamento imediato, que faz toda a diferença no futuro da criança.

De acordo com a doutora Milen Mercaldo, pediatra do Hospital Anchieta, “O diagnóstico precoce facilita o tratamento e pode trazer mais qualidade de vida para as famílias”. Muitas das crianças não apresentam sintomas dessas doenças ao nascimento e podem aparecer mesmo sem casos na família.

Vale ressaltar que o Teste do Pezinho não é aquele carimbo dos pezinhos dos bebês que as maternidades costumam fazer e entregar aos pais. Muitas pessoas ainda confundem, mas esse carimbo serve apenas como identificação e lembrança, nada tem a ver com o Teste do Pezinho!

carimbo no pezinho
Algumas pessoas ainda confundem o carimbo dos pezinhos com o Teste do Pezinho

Quando fazer?

Entre o 3º e o 5º dia de vida do bebê, esse é o período recomendado para fazer o Teste do Pezinho, de acordo com o Programa Nacional de Triagem Neonatal.

E por que não é feito logo ao nascimento?

Antes das 48 horas de vida, o bebê ainda não ingeriu proteína suficiente para serem detectadas algumas doenças de forma segura na triagem. A partir do 3º dia, quando o funcionamento do organismo do recém-nascido se estabelece e já ocorreu a ingestão adequada do leite materno ou da fórmula infantil, é possível analisar com mais precisão.

E como ele é feito?

O exame é bem simples, pouco invasivo, rápido e praticamente indolor: basta uma furadinha rápida no calcanhar do bebê, em uma parte com poucas terminações nervosas, para coletar algumas gotinhas de sangue em papel filtro especial, que vai para análise em laboratório. É simples, não há contraindicações ou efeitos colaterais.

Por que o furo é no pezinho?

Simples: o calcanhar do bebê é um local com muitos vasinhos de sangue e por isso, é melhor para coletar as gotinhas de forma rápida e praticamente sem dor para o pequeno. Pode acontecer da coleta ser feita a partir de outro local, apesar de não ser recomendado e comum.

Onde é feita a coleta?

Preferencialmente, nas maternidades públicas ou privadas, no momento da alta hospitalar, para evitar que mãe e bebê tenham que sair para a coleta em outros locais, ficando mais expostos e vulneráveis à possíveis contaminações, a exemplo do coronavírus. Se não for possível dessa forma, a coleta deve ser feita nas unidades básicas de saúde ou domiciliares, respeitando o prazo ideal, depois das 48h até o quinto dia do nascimento.

Quais são as doenças detectadas pelo Teste do Pezinho?

Existem várias opções de Teste do Pezinho, uns são mais completos que outros porque incluem uma lista maior de doenças, proporcionando um diagnóstico precoce mais amplo. Mas são feitos a partir das mesmas gotinhas de sangue, a mesma coleta.

Cada laboratório dá um nome diferente. Para facilitar, o mais importante é saber que existe o exame básico, realizado obrigatoriamente pelo SUS, e o ampliado (e suas versões), oferecido em laboratórios e maternidades particulares.

Atualmente, o Teste do Pezinho realizado pelo SUS rastreia apenas as doenças: hipotireoidismo congênito, fenilcetonúria, anemia falciforme, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita e deficiência de biotinidase.

Não esqueça do resultado!

É preciso ficar atento ao prazo dado para o resultado do exame, o ideal é que não ultrapasse 30 dias, já que é um exame de diagnóstico precoce. As famílias devem pegar o resultado o quanto antes e levá-lo para avaliação do pediatra que acompanha o bebê.

O Teste do Pezinho no Brasil

No Brasil, existem três tipos diferentes de testes do pezinho, sendo eles um básico e dois ampliados. O mais simples é obrigatório e oferecido pelo SUS de forma gratuita a todo recém-nascido, porém rastreia apenas seis doenças patológicas.

Há também a possibilidade de realizar o teste estendido, capaz de identificar de 40 a 50 patologias, porém ele está disponível apenas em clínicas, maternidades e hospitais particulares.

Na rede particular, o teste é disponível na versão ampliada e faz o rastreamento precoce de mais de 50 tipos de doenças, inclusive as raras. Com o exame realizado nas primeiras 48 horas de vida, o recém-nascido tem a chance de reverter várias doenças congênitas que podem prejudicar o seu desenvolvimento físico e intelectual.

Caso o resultado do exame seja positivo para alguma das doenças, é preciso tirar a prova com um novo teste comprobatório. Mesmo assim, não é certeza que a criança irá desenvolver a complicação em questão. Nesses casos, é preciso repetir o teste e manter o acompanhamento de um pediatra, que deve ficar atento a qualquer manifestação clínica.

Precariedade nos resultados

No Brasil, o Teste do Pezinho, que faz parte do Programa Nacional de Triagem Neonatal, é considerado um dos mais precários do mundo e ineficiente pela pequena quantidade de doença que detecta

O exame é realizado em quase 29 mil pontos no país, entre maternidades e postos de saúde. Durante as consultas de pré-natal e puerpério imediato, os profissionais de saúde devem informar à gestante e aos acompanhantes a importância do Teste do Pezinho.

A conquista da ampliação

Há anos, profissionais de saúde e mães em todo o Brasil lutam para conseguir que o Teste do Pezinho ampliado seja disponibilizado para todos os recém-nascidos, mas foi por meio da voz da jornalista Larissa Carvalho, que esse sonho se tornou realidade.

A história de vida dela com o filho Théo gerou bastante repercussão nas redes sociais, após ela compartilhar a experiência vivida por eles. Théo foi diagnosticado com uma doença rara “Acidúria Glutárica”, porém seu destino poderia ter sido diferente se ela, a mãe, tivesse acesso ou sido informada sobre o teste ampliado, disponível apenas na rede de saúde particular.

Em 29 de abril último, o Plenário do Senado aprovou, e por unanimidade, o Projeto de Lei (PL) 5.043/2020, de autoria do deputado Dagoberto Nogueira (PDT-MS), que amplia, de seis para 53, o número de doenças rastreadas pelo Teste do Pezinho na rede pública.

Ao saber da aprovação pelo Senado, Larissa comemorou a vitória do primeiro passo rumo à realização de seu objetivo: “estou muito feliz e confiante que agora o Teste do Pezinho do SUS será ampliado. Ainda que demore alguns anos até a rede de saúde SUS se adequar, a minha sensação é de missão quase cumprida. Apesar de ter sido uma trajetória de muita dedicação, e de cansaço para todos nós que fomos envolvidos, valeu muito a pena cada segundo empenhado. É um projeto que vai salvar muitos bebês. Tenho fé de que a gente vai seguir até o fim e vai obter sucesso”, disse a jornalista.

A iniciativa da Câmara dos Deputados teve tramitação concluída pelo Congresso Nacional, mas para que o projeto entrasse em vigor, o próximo passo seria a sanção do Presidente da República Jair Bolsonaro.
Após dias de expectativa, finalmente a vitória chegou: em evento no Palácio do Planalto com a presença da primeira dama, Michele Bolsonaro e do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, o presidente Jair Bolsonaro sancionou, no último dia 26 de maio, o Projeto de Lei n° 5043/2020, que amplia o número de doenças detectáveis no Teste do Pezinho feito pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

A primeira dama, Michele Bolsonaro, o presidente da República, Jair Bolsonaro, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga e a jornalista Larissa Carvalho participaram da cerimônia de sanção do Projeto de Lei<br /> Foto: Fabio Pozzebom / Agência Brasil
A primeira dama, Michele Bolsonaro, o presidente da República, Jair Bolsonaro, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga e a jornalista Larissa Carvalho participaram da cerimônia de sanção do Projeto de Lei
Foto: Fabio Pozzebom / Agência Brasil

O governo vai ampliar o rastreio de seis patologias, realizado atualmente, para 53 patologias e, de acordo com a nova lei, as doenças rastreadas pelo Teste do Pezinho por meio do PNTN (Programa Nacional de Triagem Neonatal) deverão passar por revisões “periodicamente, com base em evidências”.

A maior prevalência de doenças no país também deverá ser considerada. Com base nessa premissa, o Poder Executivo poderá ampliar o rol de doenças a serem incluídas no teste.

Implementação

O processo de ampliação do teste será feito de forma escalonada. O prazo para inclusão do rastreamento das novas doenças será fixado pelo Ministério da Saúde. As mudanças propostas pelo texto entrarão em vigor 365 dias após sua publicação, ou seja, a partir de maio do ano que vem.

Na primeira etapa de implementação, o Teste do Pezinho continuará detectando as seis doenças que são feitas no teste atual, ampliando para o teste de outras relacionadas ao excesso de fenilalanina e de patologias relacionadas à hemoglobina (hemoglobinopatias), além de incluir os diagnósticos para toxoplasmose congênita.
Em uma segunda etapa, serão acrescentadas as testagens para galactosemias; aminoacidopatias; distúrbios do ciclo da uréia; e distúrbios da beta oxidação dos ácidos graxos (deficiência para transformar certos tipos de gorduras em energia).

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Para a terceira etapa, ficam as doenças lisossômicas (que afetam o funcionamento celular);
Na etapa 4, serão incluídas as imunodeficiências primárias (problemas genéticos no sistema imunológico);
Na etapa 5 será testada a atrofia muscular espinhal (degeneração e perda de neurônios da medula da espinha e do tronco cerebral, resultando em fraqueza muscular progressiva e atrofia).

A jornalista Larissa Carvalho com seus filhos Theo e João – Foto: Bárbara Dutra

O projeto também prevê que, durante os atendimentos de pré-natal e de trabalho de parto, os profissionais de saúde devem informar à gestante e aos acompanhantes sobre a importância do Teste do Pezinho e sobre eventuais diferenças existentes entre as modalidades oferecidas no SUS e na rede privada de saúde.

Com a ampliação do Teste do Pezinho no SUS, as famílias poderão ter precocemente um diagnóstico de doenças mais completo, e assim, iniciar o tratamento que poderá minimizar as sequelas, garantindo mais qualidade de vida para as crianças, bem como evitar que as vidas sejam interrompidas.

“Se eu tivesse essas informações preciosas, o Théo estaria andando por aí. A mensagem que deixo para os futuros pais, é que façam o Teste do Pezinho na rede particular, enquanto a gente não tiver um teste eficiente pelo SUS”, aconselhou a jornalista Larissa Carvalho.

Fontes: www.pezinhonofuturo.com.br
agenciabrasil.ebc.com.br