Imagine o seguinte: é domingo, o culto foi uma bênção, a palavra ministrada tocou o seu coração e, certamente, nunca mais será apagada da sua memória. As horas passam, o dia muda, e as lembranças já não são mais as mesmas. Poucos dias depois, é como se não tivesse ouvido quase nada ou nem estado no culto.

Bem, a não ser que você seja um dos integrantes do seleto grupo de 1% da população global que possui memória fotográfica, provavelmente se identificou com o cenário que acabei de descrever. Mas não se apavore, o fenômeno é mais comum do que parece.

O filósofo alemão Hermann Ebbinghaus formatou, em 1885, uma teoria que explica bem o que acontece conosco ao aprender um conteúdo novo, e a batizou com o singelo nome de “Curva do Esquecimento”.

O que é a Curva do Esquecimento?

Por meio de suas pesquisas, Ebbinghaus foi capaz de identificar e representar em um gráfico a quantidade média de informações que o nosso cérebro retém à medida que o tempo passa.

Segundo ele, salvo em situações excepcionais, — e adaptando o exemplo para a nossa realidade — uma pessoa que assistiu a um culto pela manhã é capaz de se lembrar de 75% do conteúdo ao final do dia. O número cai para 50%, ou menos, após 24 horas, e atinge impressionantes 3% a 5% ao final de um mês. 

Traduzindo em outros números, é como se, após 30 dias, você fosse capaz de se lembrar de apenas cerca de 3 minutos do conteúdo ministrado em uma pregação de uma hora.

Como reduzir os efeitos da Curva?

Pode parecer simples, porém a melhor maneira de evitar o esquecimento é fazendo revisões constantes do conteúdo aprendido.

E o importante aqui não é dedicar muito tempo às revisões, mas fazê-las constantemente. Voltemos ao exemplo do culto: se você reler as anotações que fez da pregação no mesmo dia, o índice de retenção salta dos 75% para 100%. Na próxima revisão rápida, 24 horas depois, você recupera novamente quase todas as lembranças do que aprendeu, e por aí vai.

memorizar a bíblia

Quando se faz a revisão do conteúdo no mesmo dia em que ele foi estudado, a retenção sobe de 75% para 100%. Rever o assunto um dia mais tarde é necessário porque o nível de lembrança, a essa altura, já caiu para 50% ou menos. 

Do contrário, em condições normais, se, por exemplo, tivermos assistido a uma aula hoje pela manhã, no fim do dia lembraremos, em média, 75% do conteúdo nela ministrado. Cerca de 24 horas mais tarde, seremos capazes de recordar 50% do conteúdo; muitas vezes até menos, em torno de 35%, a depender da densidade das informações. Passados 30 dias, nós nos lembraremos de apenas 3% a 5% do que vimos. 

A importância de memorizar a palavra aprendida

É até engraçado pensar que alguns dos trechos mais relevantes para a nossa educação bíblica a respeito da importância da solidificação da palavra de Deus em nosso coração esteja no Salmo 119, o maior capítulo da Bíblia (e, portanto, com mais conteúdo para memorizarmos). 

É nele que o salmista diz: Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti. (Salmos 119:11). Ou seja, ter a mensagem do Evangelho sempre dentro de nós é a ferramenta mais poderosa que temos contra o pecado.

Jesus nos demonstra isso, quando tentado no deserto, responde às afirmações fora de contexto do inimigo com a aplicação correta da palavra (Lucas 4).

Voltando ao Salmo, é interessante perceber como o autor, mais de dois milênios atrás, já nos dava a dica de que, para guardar a lei no coração, é importante revisitar o que está escrito:

“Como eu amo a tua lei! Medito nela o dia inteiro. Os teus mandamentos me tornam mais sábio que os meus inimigos, porquanto estão sempre comigo. Tenho mais discernimento que todos os meus mestres, pois medito nos teus testemunhos”. (Salmos 119:97-99)

Decoreba x Memorização

Há, porém, uma grande diferença entre “só” decorar e memorizar o que aprendeu. O pastor Cornélio Augusto, da Igreja Batista da Lagoinha, é amplamente conhecido por sua memória pródiga. Ele alega ter memorizado cerca de 20 livros da Bíblia — alguns em outros idiomas —, como Provérbios, Hebreus, Filipenses e Eclesiastes. Ele explica, por meio de uma analogia, a diferença entre as duas coisas:

“A memorização é um compromisso maior de retenção do que você deseja. Decorar é colocar alguma coisa na memória como se fosse a memória RAM de um equipamento, de um computador. É aquela memória temporária para alguma necessidade específica, e aquilo ali depois some. Não. A memorização é você colocar no HD, no seu HD, HD da sua vida, lá no fundo da mente e do coração. E quando eu vou memorizar um texto é pra sempre, né? Eu quero aquilo pra sempre”, afirma.

O pastor Cornélio Augusto
O pastor Cornélio Augusto

Aos 61 anos, ele explica que, nascido em berço cristão, foi incentivado pela mãe a memorizar os textos bíblicos desde muito novo, e o fazia para proveito próprio. Com o tempo, foi sentindo no coração o desejo de evangelizar e entendeu de Deus que deveria usar este dom para o ministério. Aí está a raiz do “Bíblia Falada”:

“Eu costumo dizer que meu testemunho não dava ibope, então o que eu ia falar para as pessoas para que elas pudessem experimentar e ter um um encontro com Cristo? Eu não  via como encantar as pessoas e mostrar a transformação que Jesus Cristo pode fazer na vida de uma pessoa. E Deus colocou no meu coração: você não precisa ter tido uma vida horrorosa e uma transformação radical pra falar do meu amor. Semeia a palavra, fala a palavra e pronto”, conta o pastor.

Algumas técnicas de memorização:

Agora que entendemos a importância da memorização da palavra, conheça mais algumas dicas para isso:

  • Leia mais de uma vez: é importante ler e refletir naquilo que está sendo lido;
  • Ensine a um amigo: converse sobre o assunto, seja com alguém ou em grupo;
  • Faça e escute gravações: ouça podcasts, assista a vídeos, etc.
  • Faça resumos depois de entender o que estudou: anotar durante e depois do culto e nos momentos devocionais pode ajudar muito;
  • Assista a filmes e vídeos sobre o assunto: ver pregações de outros pastores também contribui para o processo de sedimentação do aprendizado;
  • Pratique sempre: seja luz! De que adianta todo o seu conhecimento ficar escondido dos outros?

Como tudo na vida, aprender a memorizar e guardar a palavra no coração exige tempo e esforço. Dedique-se agora para colher os frutos no futuro!