A figura do foguete, um veículo feito para se movimentar para cima, de forma acelerada, é praticamente onipresente no universo das startups, simbolizando o desejo de crescimento que norteia 10 em cada 10 empreendedores. “Foguete não tem ré, diz o chavão repetido à exaustão neste meio”.

E se há alguém que pode encarnar com maestria esta figura é Tatiana Santarelli. Aos 43 anos, casada e mãe de dois adolescentes (“Tive a oportunidade de gerar um no coração e outro na barriga, então me sinto muito privilegiada por essa oportunidade”, diz), Tati, como normalmente é chamada pelas pessoas, tem capitaneado o grande crescimento da TeamHub, startup de tecnologia para gestão de cultura organizacional da qual é sócia, cofundadora e CEO.

Atualmente contando com 12 colaboradores, a TeamHub recebeu recentemente um investimento do fundo “Semente Preta”, do Nubank, destinado a impulsionar empresas que sejam fundadas e/ou lideradas por pessoas negras. Também está passando pelo programa de aceleração de empresas da BlackRocks em parceria com o banco BTG Pactual.

Multifacetada, Tati também é colunista da Revista Cristã, e aceitou “mudar de lado”, para a posição de entrevistada, com o objetivo de contar um pouco da sua história para o público. 

Na conversa, ela comenta a respeito dos desafios de empreender no setor de tecnologia sendo uma mulher negra, fala sobre como a cosmovisão cristã a ajuda no empreendedorismo e mais. Confira a conversa completa!

RC: De onde nasceu a ideia de empreender? 

A ideia de empreender nasceu como algo para sobrevivência. Por dois motivos, na realidade. Um é que eu me sentia muito presa só trabalhando numa empresa, queria ter mais oportunidades; e o segundo foi para ganhar mais, contribuir para o desenvolvimento da minha família, proporcionar bem-estar, algumas conquistas como, por exemplo, um carro, poder viajar… vi no empreendedorismo essa oportunidade. 

RC:  Conte um pouco sobre o surgimento da TeamHub, por favor.

A TeamHub é uma HR Tech de gestão de cultura organizacional. É uma empresa que surgiu com a ideia de descomplicar o tema cultura, tangibilizando aquilo que é subjetivo, para que as pessoas entendam o seu papel dentro das organizações e como contribuem para a cultura delas. Ela nasceu de um projeto que eu fiz na Petrobrás em 2014, no qual eu fui convidada para avaliar o clima [organizacional] e dizer o porquê as pessoas estavam tendo comportamentos que não eram adequados. Os indicadores de clima estavam muito baixos, negativos. Eu fiz um trabalho de imersão durante 7 dias e saí de lá com aquela sensação de “puxa vida, gastei muito tempo fazendo um diagnóstico. Se eu tivesse uma ferramenta, ficaria mais fácil”. Em 2018, a gente já tinha  um MVP (Sigla em inglês para Produto Mínimo Viável) rodando nos meus clientes. Então foi bem interessante essa parte. 

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RC: Você acha que o fato de ser cristã te ajuda nessa jornada de empreendedorismo?

Eu digo que não é que ajuda na questão do empreendedorismo, mas que me dá norte. Eu lido com o empreender como missão. É como gerar impacto através da empresa. Muito dentro dessa linha de empresa humanizada, capitalismo consciente, bem alinhado com o que o cristianismo traz para a gente, de servir, de amar, acolher, de gerar transformação na sociedade. Então, ser cristã me ajuda a manter esse propósito e a encarar o empreender como missão. E aí é dar o meu melhor para cumpri-la. 

RC: Estamos no mês da consciência negra, então esta pergunta não poderia faltar: Como é ser uma mulher negra empreendendo no Brasil hoje, ainda mais no universo da tecnologia? 

Essa é uma pergunta delicada. Hoje nós temos 13 mil startups no brasil, 4,7% dessas startups são fundadas exclusivamente por mulheres e apenas 2% lideradas por mulheres negras. E eu estou aí nesse grupo. Então eu posso te dizer que não é fácil. Como esse universo da tecnologia é, na sua maioria, masculino, branco, com vivências bem diferentes de uma mulher ou homem negro, não é tão simples. 

O que mais ‘pega’ é a questão do lugar que a gente ocupa. É como se esse lugar de destaque, de uma liderança de startup, como no meu caso, uma CEO, ele não fosse para mim, entende? Sempre trazendo aquela ideia de que esse lugar não é para a gente. Até porque nós temos poucas referências, né. Dois por cento? São poucas. Então não é tão simples e é um lugar de muita dor, mesmo. Solidão. Não é fácil.

RC: Seus dois filhos são adolescentes. Eles gostam de se engajar com a empresa, contribuir de alguma forma?

Eles são adolescentes, se envolvem com as questões da empresa, mas um pouco mais por mim, no sentido de se envolver com como eu estou me sentindo, como estou lidando com as dificuldades, com os problemas, eu compartilho muito com eles sobre isso. Eles não têm atuação nenhuma dentro da TeamHub, mas, por exemplo, o Emanuel, que vai fazer 18 anos, está fazendo um curso de programação de jogos no Senai. Nunca imaginava ele ir para a área da tecnologia, porque ele é muito mais de humanas… imaginava ele aí um professor, um escritor, algo do tipo, mas ele está indo para a área da tecnologia. Isso me deixa extremamente feliz. Acredito que de alguma forma eu pude contribuir. O Kauã é menino, de 15 anos, a relação que ele tem com a tecnologia é com os jogos. Mas eles acompanham muito as minhas questões. Eu compartilho bastante e já consigo ajudá-los a entender um pouco desse universo, desse mundo, e como lidar com todas essas pressões e dificuldades.

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Tati, seu marido Douglas e seus dois filhos, Kauã e Emanuel

RC: Como é a conversa da mãe líder de empresa com os filhos dentro de casa? É diferente? 

Olha, vou te dizer que ultimamente tem sido bem parecido (risos). Como eles estão ficando mais velhos, eu tenho focado muito na questão de eles buscarem caminhos, possibilidades, conhecer vários caminhos para escolherem no futuro qual eles querem trilhar, muito aquela pegada de não desistir, de “tá difícil, vai até o fim”, da responsabilidade, do desenvolvimento, de encontrar o talento, de desenvolver esse talento. Eu foco muito nisso com eles.

RC: Você acha que os cristãos ocupam os espaços que poderiam no mercado de startups? Como podemos preencher melhor essas oportunidades e o mundo com ideias transformadoras?

Nós podemos ocupar qualquer lugar que a gente quiser. Mas, um ponto importante que eu vejo, principalmente quando a gente vai falar de ambientes de tecnologia, é que geralmente são ambientes mais disruptivos (inovadores, que desafiam antigos padrões), e eu penso que não são para qualquer cristão. 

Por quê? Porque é importante ter uma mente disruptiva. Acho que princípios e valores são inegociáveis, mas é importante. Um movimento que eu tenho percebido no Brasil, de modo geral, são as polaridades. Eu vejo muitos cristãos assim, com mentes bem fechadas. E aí fica muito difícil você inovar, criar algo disruptivo, se você está muito fechado ali naquilo que você acredita — não no sentido de princípios e valores, mas na sua forma de ler o mundo. 

Uma coisa que eu tenho aprendido bastante é que, onde há a diversidade, há uma variedade de percepções e isso ajuda a gente a buscar melhores caminhos, que gerem um impacto maior na sociedade. Porque a gente se surpreende através da perspectiva do outro. Está tão fora da nossa realidade que a gente fala: “cara, eu não imaginava que poderia ser percebido dessa forma”. 

Então eu vejo que o cristão, ou qualquer outro público que professa alguma fé, cabe em qualquer lugar que queira; e é importante não abrir mão de princípios e valores, mas tendo uma mentalidade aberta para estar nesse ambiente de pluralidade, de diversidade, e aí eu penso que não é pra qualquer um.

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RC: Quais conselhos e dicas você dá para uma pessoa que está lendo essa entrevista e tem uma ideia para empreender? 

Acho que é pensar que problema essa ideia vai resolver. Qual o impacto disso? Quem são essas pessoas que serão impactadas e como elas serão impactadas? Vai dar medo, mas vá com medo mesmo. Vale a pena encarar a empresa como uma ferramenta de apoio à vivência do nosso propósito, da nossa missão. Eu gosto muito de pensar sobre isso, e também que há, às vezes, uma escassez, uma dificuldade financeira, mas existem caminhos para a gente buscar, por exemplo, investimentos, estar antenados. 

É o caso da TeamHub. Eu estou sempre antenada no sentido de “está tendo um programa de aceleração?” “Posso inscrever a TeamHub?”. É correr atrás, estar em movimento para fazer acontecer. Eu tenho muito isso comigo, sabe? Não ficar parada, estar sempre em movimento, fazendo o que precisa ser feito. Cansa, cansa bastante, mas vale super a pena. 

RC: Há algo legal que você acha que vale a pena contar e não foi abordado nas perguntas anteriores? Fique à vontade!

Um ponto importante é que esse universo da tecnologia não é fácil, ele é muito homogêneo, as pessoas são muito parecidas, com vivências muito parecidas, mas vale a pena, sabe? Se é o lugar que a gente quer ocupar, a gente pode. Se eu pudesse deixar um conselho, e não sei nem se posso chamar assim, eu diria para as pessoas: ocupe o lugar que você entende que é seu. Faça acontecer. E acredite: ele é para você. 

Nesse ano eu vivi um processo bem delicado de me questionar em relação ao meu lugar, esse lugar de liderança, e graças a Deus, com muita terapia, com os processos que eu passei, eu me fortaleci entendendo que esse lugar é meu, é conquistado, mas vale a pena. A gente sofre, mas faz todo o sentido a gente se manter firme.