Quando o pastor Wayne Cordeiro se viu sentado na beira da rua, chorando compulsivamente antes de uma palestra em um evento de liderança na Califórnia, a ficha caiu: algo estava terrivelmente errado.

Sem vontade de fazer nada e após algum tempo de investigações, o fundador e pastor sênior da New Hope Christian Fellowship, igreja que chega a reunir mais de 20 mil pessoas por fim de semana em Honolulu, Havaí, descobriu: havia sucumbido aos efeitos da Síndrome de Burnout.

“Essa condição chegou sem aviso, como uma pessoa que não foi convidada. Decisões que um dia foram simples de tomar agora recusavam a solução, e percebi que eu me esquivava de tudo o que carecesse de meu envolvimento emocional. Minha fé, outrora vigorosa, tornara-se frágil; eu evitava tudo o que me exigisse ação”, escreve logo na introdução de seu livro “Andando com o Tanque Vazio? Encha o tanque e renove a paixão” (Editora Vida).

A história completa é contada pelo pastor Cordeiro no livro, que ainda reproduz relatos de vários outros líderes que, assim como ele e tantos outros ao redor do mundo, sofreram (e sofrem) com os efeitos nefastos de uma vida de stress prolongado causado, primordialmente, pela atividade ministerial.

O que é Síndrome de Burnout?

Oficializada em janeiro deste ano pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma síndrome crônica associada ao ambiente de trabalho, a Síndrome de Burnout passou a constar na Classificação Internacional de Doenças, a CID-11. Segundo a definição da Organização, o Burnout seria “resultante de um estresse crônico associado ao local de trabalho que não foi adequadamente administrado”.

A psicóloga Raquel Gotardelo explica que o burnout “tem sido definido como resultado da dedicação intensa a um determinado projeto, a frustração em alcançar os objetivos propostos, falta de realização pessoal no trabalho e um consequente estado de esgotamento emocional”. A OMS segue na mesma linha, e afirma que os três últimos tópicos citados por Raquel seriam os elementos centrais que compõem a definição da condição. A saber:

  • Exaustão emocional;
  • Cinismo, distância ou negativismo em relação ao trabalho; 
  • Redução ou falta da realização profissional.
Burnout - Raquel Gotardelo
A psicóloga Raquel Gotardelo

Dados da ISMA (International Stress Management Association) apontam que cerca de 30% dos profissionais brasileiros, número que seria equivalente a mais de 33 milhões de pessoas, sofrem de burnout. Este levantamento coloca o país no segundo lugar dos mais estressados do mundo, atrás apenas do Japão, onde mais de 70% da população economicamente ativa sofre com isso.

Os pastores e o burnout

Como a igreja não está isolada do restante do mundo, estes números impressionantes refletem dentro das igrejas: uma pesquisa realizada pelo Barna Group nos Estados Unidos mostra que apenas um terço dos pastores podem ser considerados “saudáveis” em termos de bem-estar. Já outro levantamento, publicado no “Leadership Journal” em 2013, aponta que cerca de 91% dos pastores disseram ter experimentado algum tipo de sintoma de burnout no ministério.

Muitos não consideram que o trabalho na igreja seja igual aos outros fora do ambiente eclesiástico (e, em várias formas, estão certos), mas o fato é que, sim, os pastores são trabalhadores. O próprio Jesus diz aos apóstolos, no livro de Lucas, no capítulo 10, que “a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos”, e que eles deveriam rogar ao Senhor para que ele enviasse mais obreiros para que a colheita fosse feita.

Em pesquisa de 2016 divulgada pelo Francis A Schaeffer Institute of Church Leadership Development, descobrimos que 90% dos pastores apontam trabalhar mais de 50 horas por semana, 54% se sentem sobrecarregados de trabalho e 35% lutam contra a depressão. Estes números são um indicativo preocupante da forma como os líderes têm conduzido seus ministérios, e nos ajudam a entender melhor o porquê 34% deles apontaram ao Berna Group que pensaram em abandonar o ministério em 2021.

burnout igreja - homem exausto debruçado em uma mesa

Raquel dá conselhos para que os pastores consigam evitar chegar a um ponto tão drástico quanto a paralisação por burnout: “Se conhecer, perceber os seus limites, respeitar o princípio do descanso e das pausas. Antes de pastores, são seres humanos e precisam cuidar de suas necessidades como um todo. Na minha experiência, profissionais do cuidado com o outro, seja da saúde ou líderes espirituais, tendem a priorizar o outro e olhar pouco para si, mas lembra do amar ao outro como a si mesmo? É preciso se cuidar para estar apto a cuidar do outro”, diz.

O descanso como remédio

A psicóloga evoca ainda um conceito criado pelo autor sul-coreano Byung-Chul Han em seu livro “Sociedade do Cansaço”, que diz que vivemos na “sociedade do desempenho”, onde a cobrança excessiva por produtividade, alta performance e resultados a todo o tempo tornou- se comum. 

“O contraponto feito pelo autor no livro mostra como estamos perdendo a capacidade de contemplação, e ele inclusive cita o conceito do Sabá como dia sagrado, o dia do “não fazer”. Ou seja, fazer pausas e ter um tempo para se cuidar, fazer atividades de lazer que proporcionam prazer, tirar férias, que são uma necessidade e uma forma de prevenção a um adoecimento mais agravado”, diz.

Ao escrever sobre sua jornada de recuperação do burnout, o pastor Wayne Cordeiro bate insistentemente na tecla da necessidade de reduzir o ritmo, encontrar hobbies e tirar momentos de descanso.

“A maioria dos membros da nossa igreja não faz ideia de quão exigente um ministério pode ser ou até mesmo de quão exigentes eles mesmos podem ser”, diz o pastor, que ainda completa citando exemplos de como a percepção de valor que vem do fato de estar sempre disponível a membros da igreja pode mudar radicalmente:

“Ficar constantemente de plantão pode acabar com você. Sempre há uma crise a um telefonema de distância e, quando eu era mais jovem, isso fazia-me sentir necessário e valioso. Agora, porém, isso me fazia sentir aprisionado”, escreve.

Vale reforçar, porém, que o pastor não diz que as ovelhas devem ser abandonadas. O importante é ter outras pessoas com quem dividir o peso e que estejam preparadas para assumir as responsabilidades quando necessário.

O tabu das doenças da mente na igreja

Mesmo que burnout não seja mais considerado exatamente como uma doença, ele é um poderoso gatilho para a manifestação da “doença do século”, como assim foi chamada a depressão. Na igreja, porém, ainda há aqueles que preferem se afastar dos tratamentos convencionais e acreditar somente na cura divina (principalmente quando o afetado pelo sintoma é o outro).

burnout igreja - mulher com a mão no rosto e ao fundo desenhos de coisas que a sobrecarregam

Raquel, que também é cristã e frequentadora de uma igreja em Cabo Frio (RJ), onde reside, tem uma visão a respeito do porquê as pessoas na igreja ainda têm a tendência a achar que o trabalho dos profissionais de saúde mental não é tão importante:

“Acredito que isso, de alguma forma, ainda esteja ligado a figura do terapeuta como alguém que vai apenas ouvir a pessoa ou a terapia como um lugar de desabafo, mas não é apenas sobre ouvir, há muito estudo e técnica por trás, é sobre ressignificar o sofrimento e transformá-lo em crescimento”, diz.

Segundo a psicóloga, sua visão da psicologia traz o conceito de que somos um todo enquanto pessoas: 

“Isso é equivalente ao que a Bíblia diz sobre sermos corpo, alma e espírito. Inclusive, essa tríade se aproxima da trindade divina. Deus é três em um, e nós somos assim também. O cuidado precisa ser feito em todos os aspectos do nosso ser”, afirma. Porém é muito comum que pessoas que lutam com transtornos mentais ouçam de irmãos bem intencionados, que só querem ajudar, frases como: “o Senhor é a nossa força/nosso renovo” e “a obra do Senhor não cansa, ela serve para nos revigorar!”, entre outras. Isso não ajuda em nada. É importante reconhecermos, como comunidade, o peso que isso gera na vida de nossos irmãos e aprender a encaminhá-los a profissionais habilitados sempre que necessário. 

Em resposta a essas afirmações, Raquel diz:

“Tiago 2:17 diz que ‘Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta’. Sei que o contexto da passagem não é esse e acredito que a oração é importante, mas a parte prática de procurar um profissional também é. Quando sua pressão sobe ou surge uma dor no estômago, você só ora ou vai procurar um médico? Com nossa saúde mental não é diferente”.

Como a fé pode ajudar quem já chegou ao burnout?

Procurar um profissional habilitado não quer dizer, porém, que você irá abandonar a fé ou deixar de crer que o Senhor é poderoso para trazer a cura. Pelo contrário. São atividades complementares, e é sabido que a fé tem um grande poder na elevação do espírito das pessoas. 

Raquel lista alguns dos benefícios da fé para a recuperação de quem já chegou ao estágio de burnout:

“Quando Byung-Chul Han diz sobre a necessidade de termos esse tempo de contemplação, fico pensando em nosso tempo de meditação na Palavra e busca de um encontro com o Eterno por si só, e não para desempenhar uma função ou alcançar um certo patamar, sabe? Acredito que a fé pode ajudar sim, pois dentro da totalidade do nosso ser também há uma esfera espiritual, e entrar em contato com ela, nutri-la, é fundamental para o nosso bem estar. Mas, do meu ponto de vista, muitos têm confundido esse tempo com Deus e de se aprofundar espiritualmente com um ativismo religioso que, em excesso, também pode adoecer como um outro trabalho qualquer”, explica.

“A onipotência é uma das armas que te levam ao burnout” 

Em entrevista ao “Podcast da Semana”, da Gama Revista, o psiquiatra Rodrigo Bressan, professor livre docente da Escola Paulista de Medicina e do King’s College London e presidente do Instituto Ame Sua Mente diz que é importante reconhecermos as nossas limitações:

“Perceber que você é limitado para dar conta de tudo é absolutamente fundamental. A onipotência é uma das armas que te levam ao burnout. O ‘deixa que eu dou conta de tudo’ em diferentes áreas da vida é uma estratégia que vulnerabiliza esse esgotamento”, diz.

Como evitar?

Para evitar a Síndrome de Burnout é necessário entendermos que somente Deus é onipotente, e iniciarmos uma jornada em busca de mais equilíbrio para nossas vidas.

Remetendo a uma analogia feita pelo pastor Cordeiro em seu livro, Raquel associa nossas vidas ao padrão de funcionamento de automóveis: É preciso reabastecer para poder continuar se movendo.

“Produzir e desempenhar uma função gasta energia, combustível, por isso é fundamental ter em nossa rotina atividades e hábitos que nos nutrem e enchem o nosso tanque. Talvez seja a prática de um esporte, cuidar de sua alimentação, estar com as pessoas que são importantes pra você, entre tantas outras possibilidades. Na nossa individualidade, temos combustíveis diferentes e precisamos nos conhecer para saber quais são eles e como alcançá-los”, conclui.