O que a maioria das pessoas não sabe é que o ronco, ruído emitido pelo indivíduo, causado pela vibração dos tecidos moles da garganta enquanto dorme, é apenas um dos sinais e sintomas de quem sofre de um distúrbio do sono que traz consigo comorbidades, ou seja, uma série de doenças que pode ser fatal a curto, médio e longo prazo.

É a Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono – SAOS, caracterizada pelas paradas respiratórias, ou reduções de fluxo aéreo que o indivíduo sofre durante o período de sono, devido a obstruções totais ou parciais em alguma região da via aérea, causando apneia ou hipopneia (entende-se por apneia a interrupção completa do fluxo de ar através do nariz ou da boca por um período de pelo menos dez segundos e, por hipopneia, uma redução de 30% a 50% desse fluxo).

No adulto, as principais características do distúrbio são:
• 1) Suspensão da respiração por 10 segundos em cinco ou mais episódios por hora de sono.
• 2) Redução dos níveis de oxigênio no sangue.
Nas crianças, bastam 2 ou 3 segundos de parada respiratória para o sangue dar sinais de falta de oxigênio.

Fatores agravantes da Síndrome Apneia Obstrutiva do Sono

Qualquer fenômeno que provoque estreitamento ou oclusão da passagem de ar pelas vias aéreas superiores, pode causar apneia-hipopneia do sono:
• Amídalas e adenoides muito grandes;
• Obstrução crônica do nariz por causa de tumores, desvio de septo, pólipos nasais e hipertrofia dos cornetos;
• Dormir de barriga para cima;
• Queixo projetado um pouco para trás, que faz recuar a base da língua;
• Malformações da mandíbula ou da faringe;
• Hipertrofia da língua (como ocorre na síndrome de Down);
• Hipotonia dos músculos da faringe ou falta de coordenação dos músculos respiratórios;
• Álcool, tabaco, medicamentos à base de benzodiazepínicos e refluxo gastroesofágico;
• Obesidade, porque favorece a infiltração de gordura na faringe;
O sinergismo entre esses fatores potencializa a tendência para o estreitamento da faringe e para a apneia.

São sintomas da Apneia Obstrutiva do Sono

Ronco, sono agitado, cansaço extremo, falta de disposição e sonolência durante o dia, dor de cabeça, alteração da memória, da atenção, alteração na capacidade de concentração, desânimo, mau humor, depressão, ansiedade, náuseas e cefaleias ao acordar, diminuição da libido, disfunção erétil, vontade de urinar durante o sono e, especialmente, inúmeros micro despertares dos quais o portador do distúrbio pode lembrar-se ou não. Se chega a acordar por si mesmo, o faz por duas razões: o esforço que despende para respirar e a hipoxemia, que alerta seu cérebro sobre a falta de oxigênio.

Portadores de sintomas mais graves costumam acordar com sensação de sufocamento, refluxo esofágico, boca seca, espasmo da laringe e vontade de urinar.

Outros sinais de quem sofre de apneia são engasgos frequentes, pesadelos repetitivos nos quais o indivíduo se encontra em situação aflitiva como assalto, enforcamento, afogamento, entre outros.

Dentre as comorbidades mais conhecidas e frequentes estão:

• Ganho de peso, Obesidade;
• AVCs;
• Infartos;
• Síndrome metabólica;
• Diabetes;
• Problemas cardiovasculares como hipertensão arterial sistêmica, arritmias, infartos e insuficiência cardíaca congestiva.

Além disso, os portadores da síndrome são os mais propensos a sofrerem acidentes automobilísticos e, no trabalho, com máquinas (principalmente pelo aumento da hiper sonolência diurna). Também, são os mais vulneráveis ao divórcio…. o ronco é tido como a terceira causa de divórcios entre todas.

marido roncando devido à Síndrome da apneia obstrutiva do sono

O ronco é tido como a terceira causa de divórcios.

 

A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono é uma doença que tem alta incidência na população, tendo sido medida em diversos estudos pelo mundo, atingindo em torno de 30 a 40% dos candidatos avaliados, com maior incidência em homens obesos de meia-idade.

Mais de 10% da população acima de 65 anos apresentam Apneia Obstrutiva do Sono e em um estudo publicado em 1993, entre americanos de 30 a 60 anos, 9% das mulheres e 24% dos homens apresentavam índices de distúrbio iguais ou maiores do que 5. Cerca de 2% das mulheres e 4% dos homens queixavam-se também de sonolência durante o dia. Até as crianças podem apresentar apneia do sono em 1 a 4% dos casos.

A SAOS é subdiagnosticada (principalmente entre as mulheres), mesmo sendo conhecido o fato de que é uma doença crônica e progressiva, que pode levar a consequências neuro cognitivas e cardiovasculares graves. A mortalidade entre os portadores da síndrome é significativamente mais alta entre os que não recebem tratamento adequado ou entre aqueles que apenas roncam sem experimentar momentos de apneia.

Diagnóstico

O diagnóstico desta síndrome é feito por meio de um exame de polissonografia, em laboratório, onde o paciente deverá dormir uma noite completa, tendo o sono monitorado. O exame permite testar, durante o sono, os potenciais elétricos da atividade cerebral, dos batimentos cardíacos, os movimentos dos olhos, a atividade muscular, o esforço respiratório, a saturação de oxigênio no sangue, o movimento das pernas e outros parâmetros.

Os distúrbios que forem encontrados serão analisados pelo médico ou dentista do paciente.

homem durante polissonografia - Síndrome da apneia obstrutiva do sono

O diagnóstico desta síndrome é feito por meio de um exame de polissonografia, em laboratório, onde o paciente deverá dormir uma noite completa, tendo o sono monitorado.

 

Tratamento

O objetivo do tratamento é manter as vias aéreas permeáveis ao fluxo de ar durante a noite.

O tratamento é sempre multidisciplinar, o que significa que engloba várias especialidades médicas, o dentista (especialista em sono), fonoaudiólogo, entre outros profissionais que estejam devidamente habilitados na área do sono, e varia de acordo com a gravidade do caso. O primeiro recurso terapêutico é tentar reduzir os fatores agravantes da SAOS.

Para tanto, o paciente precisa:
• Combater as causas da obstrução nasal e do refluxo gastroesofágico;
• Perder peso;
• Dormir de lado;
• Evitar o uso de bebidas alcoólicas, calmantes, relaxantes musculares e cigarro algumas horas antes de dormir.

Se essas medidas não forem suficientes, pode-se recorrer, ainda, ao uso de próteses orais que evitam a queda da língua para trás e uso de máscara CPAP (do inglês “Continuous Positive Airway Pressure”), conectada a um compressor de ar que provoca pressão positiva para forçar sua passagem através das vias aéreas superiores, durante a noite. Os níveis de pressão da máscara devem ser ajustados individualmente depois de um estudo polissonográfico cuidadoso; pressões inadequadas podem aliviar os sintomas sem diminuir os riscos cardíacos.

Outra opção de tratamento da SAOS é o uso dos aparelhos Intra-Orais (AIO). Os AIO abrem as vias aéreas superiores por meio de uma manobra mecânica, sendo esta a tração anterior da mandíbula e, consequentemente, da língua. Os AIOs podem ser uma opção de tratamento para os indivíduos com uma SAOS moderada e grave que não aceitam o CPAP, e para aqueles que são incapazes de tolerar ou que falharam nas tentativas do seu uso.

Há situações, porém, em que cirurgias ou cauterizações se fazem necessárias para corrigir os elementos que geram a obstrução, como os que estão associados às alterações das amídalas e adenoides.

Recomendações

A adoção de medidas simples pode ajudá-lo a dormir melhor e a evitar as crises de apneia:
• Procure estabelecer e respeitar os horários de deitar e levantar;
• Evite ingerir substâncias que contenham cafeína;
• Não fume pelo menos nas 4 ou 5 horas que antecedem o momento de ir para a cama;
• Não exagere no uso de bebidas alcoólicas, nem faça refeições pesadas antes de deitar.

Crianças

A apneia obstrutiva do sono tem se tornado cada vez mais frequente na pediatria. O ronco e respiração bucal durante o sono caracteristicamente ocorrem na SAOS, porém, a maioria das crianças com estes sinais/sintomas não tem SAOS.

A prevalência estimada de SAOS na população pediátrica é de 1 a 4%, acometendo igualmente os sexos na faixa etária pediátrica. Pode apresentar-se a qualquer idade, no entanto, a incidência máxima é vista em crianças entre dois e seis anos de idade, devido ao rápido crescimento da amígdala e tecidos adenoides em comparação com a via aérea subjacente.

Fatores de risco

Em crianças sadias, a hipertrofia adenotonsilar e a obesidade continuam sendo os dois principais fatores de risco para SAOS.
História familiar, síndromes craniofaciais, condições associadas a uma via aérea menor, doença neuromuscular, síndrome hipotônica, síndrome de Down (condições onde o tônus ​​muscular é menor) e condições associado a resposta alterada a gases respiratórios (como a síndrome de Prader-Willi).

Sintomas

O sintoma mais comum é o ronco, no entanto, a maioria das crianças que roncam não tem SAOS. Dentre outros sintomas, apneias testemunhadas, respiração bucal, sono agitado, diaforese, sudorese excessiva e sono em posições incomuns (como com extensão cervical).

Crianças mais velhas podem apresentar enurese noturna (primária ou secundária) e aumento da necessidade de sono.

Ainda podem ser perceptíveis manifestações de um sono ruim: dores de cabeça matinais, sonolência diurna, desempenho escolar ruim, alterações comportamentais como irritabilidade e falta de atenção.

Diagnóstico

Na suspeita de SAOS, a avaliação diagnóstica inclui perguntas sobre ronco, para descobrir se isso ocorre de forma consistente pelo menos 3 vezes por semana, comportamento durante o sono – incluindo o número típico de horas de sono por noite, presença de sonolência diurna, interrupções do sono, avaliação das vias aéreas superiores pelo pediatra e encaminhamento para uma polissonografia.

A higiene do sono também deve ser avaliada, como ingestão de cafeína e eletrônicos no quarto.

O problema é que o acesso de crianças a polissonografia é relativamente limitado. Poucos centros realizam o estudo em crianças.

O histórico clínico, apesar de auxiliar, não é um bom preditor de SAOS: quando um estudo do sono não está disponível, alternativas para o diagnóstico de SAOS incluem o uso de questionários, oximetria contínua durante a noite e, finalmente, o teste de apneia do sono doméstico. Nenhuma dessas opções deve ser usada para excluir o diagnóstico de SAOS, mas seu uso, juntamente com uma história clínica, pode aumentar a identificação correta das crianças com SAOS.

Tratamento

O tratamento para SAOS é determinado caso a caso e dependerá da gravidade dos sintomas, presença de comorbidades e preferência do paciente ou da família. Medidas preventivas devem ser tomadas, tais como a evitação de poluentes, fumaça e outros irritantes do ar na casa para minimizar quaisquer fatores exacerbantes.

O principal fator de risco e etiológico modificável relacionado a SAOS é a obesidade: com a eliminação desse fator, em grande parte dos casos o processo se resolve.

Outra opção é a ventilação não invasiva na forma de CPAP ou BiPAP. A terapia contínua de pressão aérea positiva (CPAP) é uma terapia de primeira linha para algumas crianças e também pode ser usado se outras terapias não conseguiram melhorar os sintomas de SAOS. É altamente eficaz. O ajuste na máscara e configurações são necessários com mudanças e crescimento facial contínuo.

Com informações de:
Doutora Hellen Quintella
Especialista em Implante e Tratamento de Ronco e Apneia do Sono.

Doutor Drauzio Varella
Médico oncologista, cientista e escritor.