No mundo há aproximadamente 870 milhões de pessoas que sofrem de subnutrição, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Estima-se que um bilhão de pessoas carecem de acesso a um abastecimento de água suficiente e que a cada 15 segundos, uma criança morre de doenças relacionadas à falta de água potável, de saneamento e de condições de higiene no mundo, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF. Em contraste com esse cenário, a indústria do entretenimento no mundo movimenta bilhões por ano, sendo considerado um fenômeno mundial, superando o faturamento das empresas automobilísticas com o segundo maior rendimento do planeta – perdendo apenas para a indústria bélica.

 

Estilo de vida consumista

Obviamente o problema da fome e da falta de acesso à água potável não está exatamente na falta de recursos, mas na super exploração desses recursos por uma minoria em busca de satisfação para o seu estilo de vida consumista. A realidade é que consumimos muito além do que necessitamos, enquanto milhões de pessoas ao redor do mundo (ou mesmo do nosso lado) passam necessidade de coisas básicas como alimento e água. Aliás, já faz anos que a humanidade tem explorado além da capacidade de renovação desses recursos, como se tivéssemos mais planetas disponíveis, comprometendo assim o uso desses recursos pelas gerações futuras. Como observou John Stott: “Estamos vivendo além dos recursos de que dispomos, consumindo rapidamente, esgotando, poluindo e destruindo os recursos naturais do qual depende a nossa própria sobrevivência”.

 

O problema da fome e da falta de acesso à água

potável não está exatamente na falta de recursos,

mas na super exploração desses recursos por uma minoria,

em busca de satisfação para o seu estilo de vida consumista.

 

Em uma época onde a desigualdade social cresce ano após ano, prevalecendo a ganância e o individualismo, qual a relevância da fé em um mundo como esse? Como diz o título do livro de Charles Sheldon, “Em seus passos o que faria Jesus?”. Enquanto esteve na terra, Jesus usou de generosidade para com os sofredores daquele tempo e falava sobre um Deus generoso. No sermão da montanha, o caráter de Deus é a matriz da mensagem. Jesus fala de um Deus bom, que generosamente faz o sol nascer sobre maus e bons, que prometeu cuidar de nós da mesma forma que veste os lírios e a vegetação do campo, de um Pai que dará boas dádivas àqueles que lhe pedirem.

Da mesma forma que Deus é generoso, como cristãos, também somos chamados a amar não só da boca pra fora, mas em atitudes, como diz o apóstolo João (I João 3.18). Em 2 Coríntios 8:1 a 15, o apóstolo Paulo fala sobre a importância da generosidade da igreja para que fosse promovida a igualdade de recursos entre os irmãos.

Geralmente, quando se fala sobre sustentabilidade, o que vem à mente da maioria das pessoas ainda é alguma coisa relacionada à ecologia ou natureza. Mas o conceito de sustentabilidade vai muito além dos assuntos ambientais. Sustentabilidade se trata de ser generoso. E ser generoso é pensar na necessidade do próximo, no bem estar coletivo, não apenas em nós mesmos. É ter a consciência de que se continuarmos com o nosso padrão de consumo desnecessário, estaremos contribuindo para um sistema insustentável, injusto, desigual e iremos comprometer o direito da geração futura, dos nossos filhos e netos, de usufruir desses recursos como nós.

Em outras palavras, ser generoso é abrir mão. É abrir mão de ter em excesso para suprir a necessidade do outro que não tem. É se colocar no lugar do outro. Como disse Jesus: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós”, (Mateus 7:12 a).

Gunther Cristiano é Biólogo,  membro da Igreja Missionária Oriental de São Paulo ( IMOSP) em SP e do Coletivo Igrejas Ecocidadãs SP.