“Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás. Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar, mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá”, (Salmo 139:8 a 10).

O ser humano, em toda a sua história, enfrentou diversas pandemias. Esta não é a primeira e nem será a última calamidade de grandes proporções que se abate sobre a humanidade. Basta lembrar, entre outras, da “peste” na Europa, das duas últimas grandes guerras e tantos outros desastres, naturais ou não. Essas pandemias sempre deixaram marcas profundas na humanidade, como por exemplo, o longo período de pandemia no qual ocorreu a Reforma Luterana, que impactou a igreja e a sociedade de modo geral.

Em 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o surto da doença causada pelo novo Coronavírus SARS-CoV-2, se tornou uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional – o mais alto nível de alerta da Organização, conforme previsto no Regulamento Sanitário Internacional. Desde então, pessoas de todo o mundo vivem uma crise de medo, sofrimentos e incertezas causadas pelo ataque do vírus responsável por causar a doença COVID-19. Muitos analistas já dizem ser a atual pandemia o maior desafio que a humanidade enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial e que muita coisa irá mudar no período pós-pandemia. 

Todos os setores da sociedade foram atingidos em todo o Planeta. A paralisação das atividades econômicas e o isolamento social impostos ao redor do mundo para tentar barrar a ação do vírus, causaram transtornos ainda incalculáveis na vida de todos.

 

Janeiro de 2020, pessoas de todo o mundo vivem uma crise de medo,

sofrimentos e incertezas causadas pelo ataque do vírus responsável por causar a doença COVID-19. 

 

No intenso convívio com a incerteza e a morte, fomos surpreendidos pela interrupção do contato com familiares e amigos, impedidos de fazer algo tão corriqueiro para os brasileiros:  dar e receber carinho por meio do toque, do abraço. Tivemos que abandonar nosso trabalho, estudos, passeios. Precisamos nos reinventar para fazermos coisas banais do dia a dia como comprar alimentos, nos exercitar e nos divertir. Nossas mãos, habituadas a abençoar e acarinhar ficaram isoladas, impotentes, impedidas até do toque final de despedida dos entes queridos. 

Ao mesmo tempo, sentimos o vazio dos templos fechados pela decretação do isolamento social. 

Aliás, um esvaziamento e fechamento de igrejas que já eram vistos antes da pandemia, evidenciando que precisávamos nos preparar para um novo tempo na história do cristianismo. As Igrejas precisavam passar de um estático ser cristão para um dinâmico tornar-se cristão.

 

O papel da igreja

Em meio à pandemia, o conceito de necessidade recebeu novo significado para milhares de pessoas. Até quem já conceituou ação social como ajuda a pessoas preguiçosas se viu em vulnerabilidade nunca prevista. Muitas outras não têm o que precisam e nem perspectiva de mudança para a situação que invadiu a vida da família. E necessidades não são apenas alimentos e roupas, mas assessoria solidária para estabilidade emocional, equilíbrio, segurança e sonhos.

A igreja exerce um papel fundamental na vida das pessoas, pois haverá necessidade de comida e material para a vida física mas, embora muito ampla, esta não é a necessidade mais difícil para ser suprida. A instabilidade emocional, a perda, o luto, a depressão e o medo que se impõem às pessoas que sempre tiveram o necessário para viver, leva à necessidade de amor, apoio, afeto e espiritualidade.

 

A instabilidade emocional, a perda, o luto, a depressão

e o medo que se impõem às pessoas que sempre tiveram

o necessário para viver, leva à necessidade de amor,

apoio, afeto e espiritualidade.

 

Pessoas da igreja e de fora dela necessitam de assistência espiritual e material e, nesse cenário, a igreja se apresenta como instrumento de Jesus, equilibrada, sem preconceito e que não minimiza nem ignora o sofrimento. Este trabalho não é só do pastor, nem de pessoas isoladas, é preciso comunhão, equipe e oração da igreja toda. Alguns na linha de frente, outros na retaguarda e todos em oração. E o Espírito Santo para guiar a todos fazendo com que a presença de Jesus na vida das pessoas se mostre, apesar do fechamento dos templos.

 

Templos fechados. E agora?

Fomos criados para a vida em comunidade, não para o confinamento ou o isolamento social, mas fomos obrigados a ficar em quarentena, recolhidos em nossas casas. Apesar da angústia causada pela falta de contato com nossos irmãos em Cristo, isso nos deu a oportunidade de revermos nossos conceitos em relação ao nosso relacionamento e nossa comunhão com Deus. Nos vimos impelidos a pensar sobre a importância dessa comunhão e como mantê-la para superar os desafios trazidos por esse novo cenário.

 

Mas o que é a verdadeira comunhão?

“Todos os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum”, (Atos 2:44).

Comunhão é uma palavra que os cristãos costumam usar com muita frequência. Mas você sabe o que comunhão significava nos tempos em que a Igreja de Jesus estava sendo estabelecida? A palavra “comunhão” descrita no Livro de Atos capítulo 2, vem do grego “koinonia”. É uma palavra muito complicada de se traduzir por causa da sua grande quantidade de significados. Ela pode significar “comunhão”, “socializar”, “comunidade” e “amizade”.

O Novo Testamento nos ensina sobre comunhão. Em geral, o conceito de comunhão está ligado a ter algo em comum com alguém. Como o koinonos é o ‘companheiro’ (Lucas 5.10; II Coríntios 8.23; Filipenses 17), exercer ‘comunhão’ está relacionado a partilhar bens (Atos 2.42, 44; Romanos 15.26; II Coríntios 8.4; 9.13), cooperar em serviço (Filipenses 1.5; Hebreus 13.16), e participar no mesmo ofício (Gálatas 2.9). No entanto, Peter Toon afirma que I João traz o uso teológico mais claro de toda a Escritura, no qual o sentido básico de ‘comunhão’ é de um partilhar real e prático da vida eterna com o Pai e com o Filho. Somos inseridos na vida de Deus e isso nos permite compartilhar de Suas bênçãos. É Deus quem produz essa comunhão com Cristo pelo Espírito, assim como a unidade da igreja é produzida pelo Espírito (Efésios 4.3). 

 

Comunhão é mais que mera socialização

A lógica de João procede dizendo que se nossa conduta está pautada pela luz, então temos comunhão com Deus (I João 1.6). Essa comunhão é muito mais significativa do que mera socialização. A comunhão com Deus expressa uma intimidade singular, a ponto de sermos chamados Corpo de Cristo e essa união é mais forte do que relacionamentos terrenos. O casamento, por exemplo, é belo e sublime, mas a morte nos desliga dessa união. A comunhão com Deus, todavia, não é rompida nem na morte. 

Por sermos seres físicos, há coisas que não podemos fazer à distância. Não podemos experimentar todas as coisas do culto quando estamos sozinhos: não expressamos nossa alegria em louvores a uma só voz e não partilhamos do pão da ceia, por exemplo.

Apesar de termos ficado impedidos de viver a experiência de comunhão com os irmãos, devemos estar cientes de que não podemos igualar comunhão a encontros e reuniões, pois assim perdemos o peso do que significa termos comunhão com Deus, algo que extrapola o encontro físico. No íntimo, sabemos que a comunhão com Deus não acabou porque o Coronavírus nos deixou em casa longe uns dos outros; 

 

Comunhão se estende além da localidade de culto

É aqui que podemos aprender com o início da Primeira Epístola de João. O apóstolo João tivera um contato físico com Jesus e estava testificando da realidade de seu ministério àqueles que não haviam visto ou tocado em Jesus (João 20:30 e 31). Na sua primeira epístola, João queria ensiná-los que, mesmo sem o contato físico com Jesus, os leitores também tinham comunhão com o Pai e com o Filho (I João 1:1 a 3). João quer mostrar aos seus leitores como podemos saber que temos comunhão com Deus. Já que o contexto de falso ensino estava assolando a fé cristã, João promove os chamados “testes” para que os fiéis fossem confirmados na fé: o teste doutrinário (I João 2:22 e 23; 4:2 e 3), o teste social (I João 2:7 a 11; 3:11 a 18) e o teste moral (1:5 a 10; 2:3 a 6). É significativo que esses testes expressem que nossa comunhão com Deus está calcada na verdade (aspecto doutrinário), no usufruto de atributos divinos (aspecto moral) e na realidade de estarmos unidos a Cristo (aspecto social). Sendo assim, I João é uma carta para nos ajudar a compreender a riqueza da nossa comunhão com Deus.

 

O sentido básico de ‘comunhão’ é de um partilhar real

e prático da vida eterna com o Pai e com o Filho.

É Deus quem produz essa comunhão com Cristo pelo

Espírito Santo, assim como a unidade da igreja é

produzida pelo Espírito Santo (Efésios 4.3). 

 

Como manter essa comunhão em tempo de pandemia?

A intimidade com Deus é um processo individual, íntimo e pessoal: “assim, cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus”, (Romanos 14:12), e você pode buscá-la mantendo uma vida de oração, lendo a Bíblia constantemente e fazendo seu momento devocional diário. Fazendo isso, você constrói um relacionamento verdadeiro com Deus, por meio da obediência aos Seus mandamentos de amá-Lo acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

mulher orando em frente ao computador

 

Manter contato com os líderes espirituais

Nos meses atípicos da pandemia, a ação pastoral caminhou e o exercício consciente da comunhão se fez sentir, na corresponsabilidade de todos enquanto participantes do ministério comum de líderes-pastores, sacerdotes e profetas, e as redes sociais se tornaram um meio eficaz por meio do qual as pessoas puderam interagir, buscando respostas, conforto e direção.

Deus moveu Sua igreja fazendo-a conectar-se com as pessoas de forma on-line, maneira mais segura neste momento desafiador de pandemia e muito eficiente nos dias atuais.

Ao invés de ficar com medo, escondida, a igreja de Cristo manteve a comunhão e colocou em prática o amor cristão tendo a tecnologia como aliada. Os pastores, as esposas dos pastores e tantos outros membros das congregações Brasil afora foram ao encontro das necessidades das pessoas, cumprindo a visão da igreja de forma proativa e atendendo aos membros de suas igrejas com amor, dedicação e carinho, apesar do isolamento social.

 

Ler a Bíblia 

A Palavra de Deus é indispensável para o cristão durante toda a vida. Porém, a leitura dela e o estudo bíblico têm importância especial neste tempo de pandemia, quando não temos a oportunidade de participar de atividades nos templos.

Por meio da Palavra de Deus, o Espírito Santo cria e fortalece a fé. Também consola, motiva e orienta para permanecermos firmes na vida consagrada a Jesus em meio às dificuldades da vida. O Evangelho nos certifica do amor e da presença de Jesus em nossa vida.

Ao ler a Palavra de Deus, você certamente aumentará a sua comunhão com Ele e terá orientações e subsídios para vencer todos os obstáculos e problemas do dia a dia.

homem lendo a bíblia

Orar 

Nenhum passo é mais crucial para ter comunhão com Deus que aquietar seu coração em Sua presença e orar. Mas como fazer isso?

  1. Afaste seu coração de questões externas. Fique em paz perante Deus e dedique sua atenção apenas em orar.

Ore em horários fixos. Não importa o quanto você esteja pressionado pelo tempo, quão ocupado em seu trabalho, nem o que lhe aconteça, ore todos os dias como de costume, independentemente do que esteja a seu redor. Fazendo isso, você terá grande prazer em seu espírito e não será perturbado por pessoas, acontecimentos e coisas que o cercam. Quando você contempla Deus,, o que acontece do lado de fora não consegue incomodá-lo. Os medos, angústias e ansiedade são lançados fora por meio da comunhão íntima que a oração traz.

mulher de mascara orando

 

Ser orientado pelo Espírito Santo

Ao aproximar-se de Deus, o louvor brota em seu coração, e isso é ainda melhor do que orar. Então, você estará em paz e será tocado pelo Espírito Santo, vivendo a verdadeira comunhão com Deus, compreendendo a vontade Dele e recebendo a orientação de Seu Espírito. 

 

Faça cultos domésticos semanalmente

Sem a possibilidade de contato físico regular com a congregação, a chama do altar da família reacende, os cultos domésticos são reavivados, a oração intercessora se intensifica, especialmente pelos enfermos. As visitas aos enfermos serão feitas pelos anjos do céu em resposta às orações de seus irmãos.

Com certeza, você tem em sua casa livros e revistas cristãos que ainda não foram lidos, mas que agora poderão ser abertos e apresentarão o amor de Deus aos seus familiares. Finalmente, isolados em suas casas, é o momento de cada cristão intensificar seus esforços para alcançar para Cristo aqueles que estão perto de si, mas longe de Deus. 

 

A igreja é mais do que os templos. 

Cada cristão pode conectar-se diretamente com Deus e ter comunhão com Ele sem a intermediação de pessoas ou a visita a locais sagrados. Pela graça de Deus, os cristãos poderão aproveitar as restrições para reunir-se, devido à pandemia, como uma oportunidade para se fortalecer pelo culto doméstico, aumentar a intercessão pelos perdidos, evangelizar seus familiares ainda não convertidos e preparar-se espiritualmente para outras provas que virão no futuro. 

Esse é o momento de fazer de cada lar e de cada membro dele uma igreja. É a ocasião para cada um buscar o fortalecimento espiritual individual e familiar. É a hora de ver o milagre de as dificuldades se transformarem em bênçãos. 

É ora de provar e comprovar que a comunhão com Deus depende única e exclusivamente de cada cristão, de sua busca incessante pela santidade e de sua disponibilidade para ter um relacionamento íntimo, pessoal e real com o Senhor e Salvador Jesus Cristo.

É momento também de mostrar ao mundo que, quando temos comunhão com Deus, somos capazes de vencer qualquer desafio e que, como cristãos, temos estabilidade emocional e espiritual para vencer qualquer pandemia.