Meu filho, de três anos, ganhou ingressos para visitar um Parque Aquático famoso da cidade. Dia de diversão garantido? Talvez não. “Não gosto de água”, diz Diogo.

Não. Ele não é o Cascão. Diogo toma banho diariamente e até gosta de brincar no box do banheiro após a reluta inicial. Mas sofre com o jato do chuveiro sobre a cabeça. Atormenta-se com as gotas de água que escorrem no seu rosto. Sua sensibilidade à água e a outros estímulos táteis é tamanha que se torna difícil realizar atividades rotineiras. 

Decidimos, eu e o pai, levá-lo ao tal Parque. Não sem antes lhe descrever alguns detalhes do passeio molhado… É que ele lida melhor com situações previamente anunciadas. Eis que aceitou a novidade, despertado pela curiosidade pueril… Talvez também pela nossa esforçada empolgação. Juntos, planejamos os trajes de banho. Diogo escolheu uma blusa de manga longa e uma sunga com estampa de caranguejo. No dia fatídico, porém, ele disse: “Mamãe, não quero vestir a roupa de caranguejo. Quero ir com roupa normal.” E assim o fez. Roupas leves, sem as indesejáveis etiquetas que costumam incomodar. A contragosto, assentiu que eu lhe derramasse boa dose de protetor solar. Aquele melecado também o aflige, sobretudo no rosto. Mas quanto à máscara… Em plena pandemia… Não. “Ainda não estou preparado, mamãe”, desabafou Diogo, resoluto. “Então vamos respeitar”, completei. 

Chegamos. Enquanto fazia o reconhecimento local, Diogo ficou agarrado ao meu colo. Queria garantir que não pisaria, por descuido, em alguma das dezenas de poças d’água. Procuramos a área infantil. Era repleta de fontes, com jatos das mais variadas espessuras e diferentes alcances. Fracas ou fortes, salpicadas ou ininterruptas, as gotículas de água respingavam verdadeiro tormento no Diogo. “Quero sair daqui, mamãe”, suplicou. Então tomamos novo rumo.  

Havia um sedutor monstro marinho e uma bela Caravela. Diogo bem quis se achegar, mas… Mesmo que seguisse no meu colo, corria o risco de se molhar. Meninos mergulhavam empolgados ao redor. Era água transbordando por todo lado! Inundado de precauções, Diogo logo desistiu da visitação.

Tobogãs! Nossa, como pareciam divertidos! Mas não havia nenhum que lançasse Diogo em terreno seco. Uma piscina de bolinhas seria mais convidativa. Na falta desta, então… Não havia o que fazer.

A correnteza. “Nem pensar!”, pensamos. Mas havia uma alternativa. Ufa! Finalmente uma saída exitosa! Era a bóia fechada. Sentei-me nela, e Diogo aninhou-se sobre mim. Seu pai nos guiou no fluxo. Flutuamos, secos e livres de amarras. Leves como o ar. Foi uma única (e feliz) volta. Então o cansaço físico e emocional nos abateu. Era hora de regressarmos, seguros, para casa.

Diogo não tem nenhuma condição patológica aparente. O que se sabe é que ele é prematuro. Nasceu com 35 semanas e 4 dias. Foi privado de algumas experiências sensoriais que ainda experimentaria no meu útero. E foi precocemente forçado a vivenciá-las no ambiente da UTI neonatal. 

Recebeu, longe de mim, uma enchente de estímulos visuais, auditivos, táteis e até dolorosos! CPAP nasal para fazer pressão positiva nas vias aéreas, sonda nasoenteral fixada com esparadrapo para nutrir, eletrodos grudentos para monitorizar batimentos cardíacos, oxímetro de pulso apertando o pé, agulhas para coleta de exames e vacinas, mãos demasiadamente ágeis e frias, trocas de fraldas de ponta-cabeça (sim, por aqui se costuma levantar as perninhas e o bumbum do bebê para asseio e troca da fralda)… Nossa! Foi muita informação para um sistema neurológico ainda imaturo. Dentro de mim, algo intuía que toda essa experiência nos deixaria marcas. 

As marcas existem. E são estudadas cientificamente, não faz muito tempo. Estamos falando do que se denomina atualmente de Transtorno do Processamento Sensorial. Trata-se, de forma simplista, de uma dificuldade de interpretar e usar os estímulos sensoriais que recebemos o tempo inteiro e que afetam o nosso comportamento e até mesmo nosso desempenho motor. Não são apenas sinais advindos dos órgãos dos sentidos. Além da visão, da audição, do paladar, do tato e do olfato, também processamos informações do sistema vestibular (que é responsável pela detecção de movimentos corporais e contribui para o nosso equilíbrio) e proprioceptivo (que nos dá a capacidade de reconhecer a posição e a orientação do corpo). Pois bem. Há pessoas que apresentam um padrão de hiperresponsividade a tais estímulos, como também há de hiporresponsividade. Além disso, existem dificuldades motoras que são de base sensorial. Na infância, tais desordens podem impactar negativamente no seu desenvolvimento (motor, cognitivo e de linguagem). Podem prejudicar a aprendizagem e a socialização. 

Mas nem tudo está perdido. Há formas de intervir ativa e respeitosamente no sentido de ajudar a criança a lidar com esses processos. Há profissionais dedicados a isso. O que se faz importante, primeiramente, é RECONHECER que seu filho, seu neto, seu aluno, seu paciente ou mesmo você pode ter desordens sensoriais que atrapalham substancialmente as atividades cotidianas. Quando escovar os dentes, ouvir determinados sons, comer certos alimentos, submeter-se a procedimentos como corte de unhas e cabelos, usar alguns tipos de vestimenta, sentir vários toques em meio a uma aglomeração de pessoas (medo de contrair COVID à parte) trazem intenso sofrimento ou intrigante indiferença, atenção: Considere a possibilidade do Transtorno do Processamento Sensorial. 

Uma vez reconhecido o problema, vamos ao segundo passo, tão indispensável quanto o primeiro: VALORIZE-O. Não é frescura. Não é bobagem. Não desdenhe como sendo “coisa de criança”. Também não pense que essa condição é exclusiva de portadores de outros diagnósticos, como Transtorno do Espectro Autista. Tampouco suponha que vai passar, que vai melhorar com o tempo. O tempo é precioso. Não tem como voltar. 

Acolha a criança que sofre sensorialmente. Respeite-a. Valide o seu sentimento. Mas cuidado: Não passe para o extremo oposto. Colocá-la numa redoma e privá-la totalmente do que a incomoda também é nocivo. 

Busque ajuda. E tente, mediante a devida orientação, uma aproximação respeitosa com os gatilhos. 

Eu sempre acreditei na intuição materna. Mas também sempre busquei estudar, desde que me vi mãe. Antes, a Educação muito se baseava no senso comum.  Hoje, nós vivemos a Era da informação. Não é prudente fazer juízo de valor sobre o que se desconhece. 

Diogo é inteligente e divertido. Meu coração transborda de amor. Como o acho especial, como ele me ensina! Às vezes desejo que um dia possamos chupar um picolé até o fim… É que Diogo desiste quando o gelado começa a derreter, porque mela as mãos. Como sonho com o tempo em que tomaremos banho de chuva, rememorando os bons momentos da minha infância! Mas se nada disso for possível, mesmo com as intervenções positivas, tudo bem. Existe todo um mundo de pequenas boas coisas a explorar, respeitando as peculiaridades de cada um. Um mundo inclusivo e complacente. É o que desejo para o meu filho. É o que desejo para todas as crianças e adultos notadamente sensoriais. Aliás, é o que desejo para toda pessoa. 

Maria Clara Secundino Pereira.

Fortaleza-CE.