Em abril deste ano, a imprensa cristã ao redor do mundo se viu obrigada a noticiar dados da igreja perseguida que vem tomando grandes proporções ao longo dos últimos tempos. O diagnóstico é da Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF).

O órgão independente e bipartidário do governo americano, foi criado pela Lei de Liberdade Religiosa Internacional (IRFA) de 1998. Desde então, a comissão monitora a garantia universal à liberdade de culto ou de crença, divulgando anualmente as violações dos direitos humanos.

A partir dos dados recolhidos, a USCIRF documenta as situações e busca formas de envolver os poderes políticos dos EUA para revertê-las. Os relatórios também prescrevem medidas de combate à perseguição, incluindo as Nações Unidas, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), a União Europeia e outros parlamentares espalhados pelo mundo.

O documento de 2021 trouxe à tona uma realidade preocupante. Ele apontou que, de forma geral, a repressão aos fiéis de muitas religiões aumentou durante a pandemia. Alguns dados iniciais da USCIRF destacam os seguintes fatos:

  • Um total de 50.000 cristãos foram mantidos em campos de detenção na Coreia do Norte;
  • Cerca de 3.000 meninas e mulheres yazidi desapareceram no Iraque;
  • Mais de 130.000 muçulmanos foram mantidos em campos de detenção em Myanmar (antiga Birmânia);
  • Até 3 milhões de muçulmanos da etnia uigur vivem em campos de detenção na China.

As nações especificadas acima (menos o Iraque) fazem parte da lista dos Países de Preocupação Particular (CPC, sigla em inglês), cuja perseguição acontece de forma grave. Inclui-se também: a Eritreia, Irã, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudita, Tadjiquistão e Turcomenistão.

perseguição religiosa

Entre os países que estão em Observação Especial do Departamento de Estado (SWL), a recomendação da comissão é que se adicione a Índia, Rússia, Síria e Vietnã na listagem. A Turquia atualmente também é vista como uma preocupação secundária.

A relação entre a pandemia e o aumento da perseguição

Essas informações denunciam a perseguição em proporções bíblicas a todas as religiões e, consequentemente, aos cristãos. Segundo um dos especialistas da USCIRF, em entrevista à CBN News americana (um veículo de comunicação cristão), os seguidores de Cristo estão sendo caçados em um ritmo nunca visto desde o primeiro século.

“Por um orçamento muito pequeno, todo ano o governo dos Estados Unidos lança esta bomba na comunidade de direitos humanos que reverbera em todos os cantos do globo”, disse Johnnie Moore. Ele é um dos nove comissários nomeados da USCIRF.

Com a pandemia global da Covid-19 declarada, vários setores da vida social foram impactados. Em janeiro de 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) relatou 83 milhões de casos e 1,8 milhões de mortes pela doença desde o início do surto.

Os desafios para conter a disseminação do coronavírus atingiram diretamente os indivíduos, as famílias, os sistemas médicos e educacionais, as manifestações culturais, os ambientes de trabalho, além dos cenários políticos.

No que se refere à religião não foi diferente. De acordo com o relatório, os encontros religiosos foram restritos em muitos territórios. A USCIRF observa que, em muitas situações, as medidas cumpriram as normas internacionais dos direitos humanos, mas em outras não.

O interesse legítimo de prevenir a Covid-19 se tornou pretexto para a repressão e discriminação. O estudo realizado pela comissão, apontou que grupos religiosos foram responsabilizados pela disseminação do vírus por causa da realização de reuniões e cultos ao longo de 2020. Fator que aumentou o fardo, causando perseguições, prisões e torturas.

“É hora de os cristãos fazerem o que o apóstolo Paulo os chamou a fazer, que é orar por aqueles que estão na prisão como se estivessem lá com eles”, declarou Moore, que também é cristão protestante.

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Então, como combater o “vírus da perseguição”?

Em seu relatório, a USCIRF descreveu uma das diretrizes do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos da ONU. Segundo o documento, a existência de uma religião oficial ou exercida pela maioria da população em um país não pode comprometer a liberdade religiosa dos indivíduos.

A lei internacional exige que os estados respeitem esse direito. Porém, ainda assim, algumas nações obrigam ou reprimem coercitivamente, de forma individual ou em comunidades, as manifestações religiosas.

Para que esse tipo de repressão chegue ao fim, a USCIRF fornece informações em suas pesquisas, publicações e outros trabalhos periodicamente. O órgão destaca leis e políticas problemáticas de países estrangeiros que permitem ou toleram violações dos direitos humanos de grupos religiosos minoritários.

Em dezembro de 2020, a comissão publicou o estudo “Violação de Direitos: Aplicando as Leis da Blasfêmia no Mundo”, que compilou dados do período de 2014 a 2018. A análise de 84 países que aplicam medidas contra a blasfêmia concluiu que, de muitas maneiras, elas prejudicam os direitos humanos, incluindo liberdade de religião ou crença e de expressão.

O estudo descobriu que 81% dos casos de aplicação dessa lei ocorreram em apenas 10 países: Paquistão, Irã, Rússia, Índia, Egito, Indonésia, Iêmen, Bangladesh, Arábia Saudita e Kuwait.

Em sete deles, os governos identificam e impõem o Islã como a religião oficial do estado. Nos outros três, os governos favorecem certas religiões, que são: o cristianismo na Rússia, o hinduísmo na Índia e seis religiões reconhecidas na Indonésia.

A principal preocupação da USCIRF

Para Moore, a China é uma das nações que mais precisam de observação especial e não é de hoje. “Em nosso primeiro relatório, levantamos preocupação há 22 anos sobre o que o Partido Comunista Chinês já estava fazendo à comunidade uigur”, explicou o especialista. Para ele, apesar do alerta no passado, o mundo não prestou atenção nessa realidade.

De acordo com a CBN, Nury Turkel, também representante da comissão, destacou que a opressão chinesa conta com características bárbaras. “Eles estão até promovendo e comercializando os órgãos uigures para países de maioria muçulmana”, observou Nury, um muçulmano uigur que experimentou a perseguição na China em sua própria pele.

A notícia reverberou o mundo enquanto milhões de muçulmanos e cristãos são aterrorizados em solo chinês. “Eles consideram duas religiões: islã e cristianismo, particularmente problemáticas para a sobrevivência e existência do partido comunista”, disse Turkel em uma entrevista coletiva.

Identificado como um país de preocupação particular (CPC), a China está entre os piores infratores. “Em 2020, as condições de liberdade religiosa na China se deterioraram. O governo intensificou sua política de ‘sinicização da religião’ [significa que todas devem refletir a cultura e tradições do país], particularmente visando religiões percebidas como tendo conexões estrangeiras, como o cristianismo, o islamismo e o budismo tibetano”, diz o relatório.

“As autoridades também continuaram seu uso sem precedentes de vigilância avançada, tecnologias para monitorar e rastrear minorias religiosas, e as medidas sobre o gerenciamento de grupos religiosos tornaram-se eficazes em fevereiro, restringindo ainda mais o espaço no qual os grupos religiosos podem operar”, continua o documento.

A respeito dos cristãos, apesar do acordo entre o Vaticano, que dá à China o poder de nomear os bispos, as autoridades continuaram a perseguir, deter e torturar líderes católicos que se recusam a aderir à associação apoiada pelo Estado.

Eles também perseguiram, torturaram e prenderam membros de igrejas domésticas protestantes. Uma pesquisa desenvolvida pela China Aid, uma organização cristã, diz que 100% das igrejas domésticas foram perseguidas pelo governo durante o período da pandemia.

Templos cristãos que apresentavam sinos, cruzes, torres e artefatos religiosos muito “vistosos” foram removidos. Ainda de acordo com o órgão, só em 2020 foram documentadas nove demolições de igrejas com a permissão do Estado.

Informações do portal Bitter Winter (dedicado a noticiar a perseguição religiosa especialmente na China) relatam que nos três primeiros meses de 2021, um total de 750 cristãos foram presos e torturados em algumas províncias chinesas, entre elas Jiangsu, Henan e Sichuan.

A partir desses diagnósticos e o da comissão, é possível ver que está cada vez mais difícil exercer a fé em tempos como os atuais, principalmente em países da África, Ásia e Oceania. A certeza que fica é que ainda existem milhões de pessoas orando e lutando para que o direito à liberdade religiosa não seja violado.

“Não vamos deixá-los dormir uma noite sem gritar com toda a força de nossos pulmões, de maneira bipartidária, republicana e democrata, para ter certeza de que podem fazer o que escolheram, mas não vão fazer nas sombras”, afirmou Moore.