O escritor britânico C. S. Lewis, em um de seus livros mais aclamados, chamado “Os Quatro Amores”, faz uma descrição valiosa de como uma amizade começa:

“A expressão típica de um começo de Amizade seria algo como: ‘O quê? Você também? Pensei que eu fosse o único’”, escreve o autor.

Lewis, inclusive, considera a Amizade um dos tipos de amor, e a descreve em seu livro. Entre eles, estão:

  • Afeição, que seria a forma mais básica de amar;
  • Eros, o amor apaixonado, muito aclamado pela nossa sociedade atual;
  • Caridade, que seria o mais abrangente e menos egoísta de todos;
  • Amizade, que seria “o menos natural de todos os amores”.

Essa “ausência de naturalidade” tem a ver com o fato de que não há nada de “orgânico” ou “instintivo” na amizade. “Ela [a amizade] tem menos a ver com nossos nervos; não há nada de gutural no que lhe diz respeito, nada que acelere o pulso, faça você ficar vermelho ou empalidecer. Acontece essencialmente entre indivíduos”, explica.

Por causa disso, o nascimento de uma amizade verdadeira não é tão simples quanto gostaríamos. Um amigo, no sentido real da palavra, é como uma pérola: raro e valioso. Não à toa, a Bíblia diz que “(…) existe amigo mais apegado que um irmão”, (Provérbios 18:24).

Essa dificuldade de estabelecer amizades ainda é potencializada em uma sociedade que valoriza muito o amor erótico, deixando pouco espaço para que os outros floresçam. A cultura de nosso tempo nos ajuda a perceber isso: Vemos muitas derivações do amor de “Romeu e Julieta”, mas poucas da amizade de “Frodo e Sam”, de O Senhor dos Anéis — livro escrito, aliás, por um grande amigo de Lewis, J. R. R. Tolkien.

Percebemos isso também quando um feriado como o “Valentine’s Day”, muito celebrado no exterior, chega ao Brasil somente como “Dia dos Namorados”, ignorando a carga de celebração de outros amores (como a amizade), que também fazem parte deste dia. 

A Amizade e a Bíblia

O Evangelho, por outro lado, é repleto de histórias de amizade, sendo uma das mais destacadas a que envolve Davi e Jônatas.

Filho do rei Saul, Jônatas, foi um amigo conforme a descrição de Provérbios, e se tornou um verdadeiro irmão para Davi, ajudando-o em momentos de necessidade — inclusive ajudando-o a escapar com vida das investidas de Saul.

Desta história, podemos tirar muitas lições sobre como deve ser uma amizade verdadeira. Vejamos com base no texto de I Samuel 18, versículos de 1 a 4.

  • Uma amizade verdadeira nasce na alma e gera amor. (v.1)

Dentro de si, Jônatas sabia que uma ligação havia acontecido. E, como a Bíblia nos ensina nos dias de hoje, amou a Davi como a si mesmo, o que podemos confirmar em suas ações na sequência da história.

  • Amizade é aliança (v.3).

Jônatas se uniu a Davi e o ajudou em todos os momentos que pôde. Um verdadeiro amigo não necessariamente fará tudo o que queremos, mas certamente ajudará com aquilo que precisamos.

  • A amizade é doadora. (v.4)

Sem pestanejar, Jônatas se despojou de sua capa, vestes, espada, arco e cinto em prol de Davi. De coração aberto, estava disposto a doar e contribuir para o bem de seu amigo.

  • Além disso: a amizade reconhece e retribui

Por mais que Davi não tenha tido a oportunidade de retribuir todo o bem que Jônatas lhe fez, ele demonstra reconhecer grandemente todas as contribuições do amigo, cuja morte é retratada no livro de II Samuel:

“Como estou triste por você, Jônatas, meu irmão! Como eu lhe queria bem! Sua amizade me era mais preciosa que o amor das mulheres!” (II Samuel 1:26).

Outras marcas de amizades saudáveis

Ainda para quem quer buscar a construção de amizades sadias, o pastor Luis Felipe Lima, da igreja A Ponte, de Belo Horizonte, compartilhou, em um sermão no início do ano, cinco outros tópicos que também fazem parte de um relacionamento do gênero:

  • Constância: “O amigo ama em todos os momentos, é um irmão na adversidade”, (Provérbios 17:17)
  • Cuidado: “Como o louco que atira brasas e flechas mortais, assim é o homem que engana o seu próximo e diz: ‘Eu estava só brincando!’”, (Provérbios 26:18,19)
  • Franqueza: “Assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro”, (Provérbios 27:17)
  • Conselho: “O óleo e o perfume alegram o coração; assim o faz a doçura do amigo pelo conselho cordial”, (Provérbios 27:9)
  • Compartilhar: “Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer”, (João 15:15)

Antes de querer bons amigos, devemos SER bons amigos

Por fim, mas não menos importante, é necessário percebermos que muitas pessoas anseiam por ter bons amigos, mas não se preocupam em ser bons amigos.

Querem ser cuidadas, acompanhadas, notadas, receber ligações, mas não fazem nada neste sentido para aqueles que estão ao seu redor. 

Portanto, fica aqui a sugestão para que você comece essa corrente hoje mesmo, mostrando para algum amigo como ele(a) é importante e contribuindo para melhorar a vida daqueles que amamos.