Séries, músicas, filmes, reality shows. A lista de produtos culturais capazes de abalar as fundações de uma sociedade como a nossa tem crescido diariamente, tanto pelo investimento colocado na divulgação, quanto pela aceitação do público (afinal, não tem marketing que ajude a alavancar um produto que o povo não quer ver).

Frente a este cenário, é comum ver três tipos de posturas entre os cristãos: há aqueles que até fazem uma boa leitura da situação, mas para tirar proveito pessoal dela; aqueles que preferem se abster e, por fim, quem não compreende e se fecha para a novidade apresentada, procurando “pelo em ovo”. 

O importante mesmo, porém, é compreender alguns ensinamentos da Bíblia a respeito de como devemos agir e transportar isso para a nossa compreensão dos fenômenos culturais que emergem em nossa geração.

Goste ou não, é o que tem para hoje

Funk “pancadão”, sertanejo, BBB, filmes de terror ou livros do estilo “Cinquenta Tons de Cinza”. Independente daquilo que pensamos individualmente (ou até como grupo, na igreja), produtos culturais como estes são fenômenos que podemos chamar “de massa”, arrebatando multidões das mais diferentes idades, formações culturais e faixas de renda. Ou seja, ‘é o que tem para hoje’, e devemos saber lidar com isso (já que bater o pé ou fingir que não existe não fará nada acabar).

Quando um fenômeno do tipo eclode na cultura pop, é muito comum observarmos reações até extremas na igreja, classificando tudo imediatamente como pecado simplesmente por ser algo fora do padrão. Mas isso não necessariamente é verdade, e precisamos ser inteligentes neste sentido.

Entenda. Agir com reserva não é uma atitude de todo má, pois devemos sempre nos esquivar das tentações e fugir do pecado. O problema é quando isso se torna um escape, uma muleta, uma forma de fecharmos o corpo de Cristo dentro de uma redoma falsa, esperando que nunca seja atacado ou não caia.

Spoiler: ovelhas cairão, pessoas sofrerão tentações, e será muito pior se não estiverem preparadas para isso, com boa teologia e informações.

Há muitos produtos culturais que não são inerentemente ruins. O problema é como eles são utilizados. Por exemplo: o estilo musical sertanejo pode servir para compor músicas de adoração a Deus, bem como para louvar atitudes e estilos de vida que nada têm a ver com o Evangelho. 

E isso acontece com filmes, livros, séries de TV… Portanto, para não fugir do clichê, não adianta “julgar o livro pela capa”. É importante entender bem do que se trata para não sermos ridicularizados em conversas a respeito. O que nos leva ao nosso próximo ponto.

Precisamos melhorar nossos argumentos

Brigar com paus e pedras contra fenômenos culturais bem estabelecidos é pouco produtivo e só reforça um estereótipo de que os crentes são ‘bitolados’, ultrapassados, caretas, motivando a antipatia do interlocutor, sendo que nosso objetivo é fazer com que nos ouçam.

Assim como em todas as áreas da vida, vence uma discussão não quem grita mais alto, e sim quem tem os melhores argumentos. A própria Bíblia diz isso:

“A língua dos sábios torna atraente o conhecimento, mas a boca dos tolos derrama insensatez”. (Provérbios 15:2)

Para honrar a missão do Evangelho, devemos estar duas vezes mais preparados do que aqueles que estão ‘no mundo’. Precisamos conhecer os produtos culturais, saber do que se trata, entender seus pontos fortes e fracos, ter domínio do que nos ensina a Bíblia e conseguir costurar todo esse conhecimento em uma argumentação que seja pacífica (afinal, ofender o seu interlocutor — ou seus gostos pessoais — não é uma atitude inteligente) e capaz de abrir caminho para que o Espírito Santo convença a pessoa.

Afinal, o próprio Jesus já nos ensinou em João 16:8: o Espírito é aquele que convence do pecado, da Justiça e do Juízo. 

A nós, cabe estarmos preparados para falar quando a oportunidade surgir. 

Dicas para avaliar um produto cultural

A melhor forma de se preparar para avaliar uma peça do tipo, além de estar afiado em relação à leitura bíblica, é submetendo-a a um “teste de estresse”. Em outras palavras, faça uma série de perguntas a respeito dela e veja quais respostas consegue obter. 

A seguir, listamos alguns questionamentos que podem ser feitos. 

Perguntas prévias (antes de assistir/ouvir/ler):

  • Qual é a sinopse, o resumo do material? 
  • Do que se trata o conteúdo?
  • O que outras pessoas que já viram/ouviram/leram acharam do material? 
  • O que as resenhas de especialistas dizem a respeito?
  • No caso de séries de televisão, filmes, livros e outras obras que possuem continuidade, qual é o conteúdo das obras pregressas?
  • Como estas informações colhidas nas perguntas anteriores se correlacionam com a Bíblia?

As respostas para as primeiras perguntas foram aceitáveis? Então talvez seja um bom sinal. Porém, sabemos que pode não ser definitivo. Portanto, é bom fazer a sequência de perguntas pós-envolvimento com a obra.

Perguntas subsequentes (após o consumo):

  • Como este produto cultural dialoga com a Bíblia? 
  • Ele edifica? De que maneiras?
  • Esta obra agrega valores positivos ou negativos de acordo com os ensinamentos do Evangelho?

Há muito o que se pensar (e perguntar), mas seguindo um caminho como este, certamente teremos mais substância para falar o que gostamos e o que não gostamos, o que agride o Evangelho e o que não agride em uma peça cultural. 

Avalie seu coração

Por fim, entenda. Conforme relato de Mateus 15, nos versículos 11, 17 e 18, Jesus disse:

“O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem. (…) ainda não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre, e é lançado fora? Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem”.

Muitos estão interessados em julgar somente pelo prazer de acusar alguém, mas o verdadeiro pecado é aquele que vem do coração. 

Então, ao procurar conversar com alguém para explicar o problema que enxerga em algum produto cultural, examine-se primeiro, encha-se de humildade e esteja pronto para, em espírito e em verdade, ajudar a levantar aquela pessoa, não a destruí-la.

“Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado”. (Gálatas 6:1)