Vivemos tempos de vazio, falta de esperança, medo, morte e, principalmente, apatia e indiferença em relação a tudo que remete ao divino, infinito, soberano e imutável.
Nesse ambiente inóspito e sem esperança, a frase do filósofo Friedrich Nietzsche ecoa como um grito de uma geração: DEUS ESTÁ MORTO.

Ao afirmar que “Deus está morto”, Nietzsche não está declarando a morte física de Deus, afinal, por definição, Ele é eterno e imortal. Conta-se que alguém escreveu no túmulo de Nietzsche: Deus está morto, assinado, Nietzsche. Em seguida, outra pessoa escreveu: Nietzsche está morto, assinado, Deus. É óbvio que Nietzsche não matou Deus.
O que aconteceu foi que Nietzsche constatou que todos havíamos nos tornado Niilistas. Perdemos nossa capacidade de espanto, assombro e admiração por tudo aquilo que é divino, superior e sobrenatural.

Niilismo é a doença dos olhos que perderam completamente o encantamento pelo mundo; que tira do olhar toda e qualquer busca pelo sentido na vida; que retira da visão todo e qualquer espanto, assombro e do silêncio diante daquilo que não podemos explicar; que faz com que a gente se sinta pequeno num universo enorme e desconhecido.
O que Nietzsche quis afirmar é que a religião supostamente perdeu seu lugar em nossa cultura e que o Cristianismo, principalmente, está em um declínio irreversível.

Não quer dizer que os cultos não estão cheios, que a bíblia não está sendo pregada; que as pessoas não estão sendo caridosas; que o evangelismo não está sendo praticado. Não, não se trata disso.
Diante de tantos acontecimentos ruins, violência, morte, estupro, roubo, desigualdade social, fome etc., as pessoas se acostumaram com essa realidade de vida a tal ponto que nada mais as abala.

niilismo religioso 2

Os Niilistas religiosos têm buscado em Cristo um meio de obtenção de seus próprios desejos; e não por quem Ele é, pela sua divindade, perfeição, amor misterioso e fonte de inesgotável sabedoria.

Essa realidade também é chamada de “Niilismo”, que representa a perda do interesse de tudo e de todos; a falta de esperança e do espanto. Essa realidade faz com que um cristão ouça o que está escrito no livro de João, capítulo 3, versículo 16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”; e não sinta qualquer tipo de espanto ou admiração por esse amor sacrificial.

Perdeu-se o estado de perplexidade e espanto diante de Deus; dizem acreditar em Deus, mas vivem como se Ele não existisse; como se Ele se resumisse a rituais e práticas religiosas. Deus agora é apenas um meio de realização da própria vontade. Trata-se de uma sociedade Niilista.
Os Cristãos continuam frequentando cultos e falando de Deus, mas essa prática, de forma isolada, tem algum significado? Sem a fé e sem o propósito de glorificar o nome de Deus, são apenas hábitos religiosos que, por si só, não possuem qualquer significado.

Todo Cristão entende que a sua vida, suas escolhas e práticas diárias devem glorificar o nome de Deus. Mas o que significa “glorificar” no sentido etimológico da palavra e quais as suas implicações para o contexto atual da Igreja?
A palavra “glória” no hebraico significa “Kabod” e deriva-se de uma raiz que significa “peso”. Por exemplo, o valor de uma moeda na antiguidade era determinado pelo seu peso. Assim, ter peso significa ter valor ou dignidade.
No grego, a palavra equivalente a “glória” é “Doxa” e significa opinião; importância ou valor que, individualmente, atribuímos a algo ou a alguém.

No contexto da reforma protestante, os reformadores queriam trazer à luz uma verdade bíblica esquecida: a salvação vem apenas de Deus. E se a salvação vem apenas de Deus, e somente Ele tem o controle de todas as coisas, toda glória deve ser direcionada apenas a Ele, e mais ninguém.
Essa afirmação deveria ser suficiente para que todo Cristão desse a Deus a Sua devida importância, ou seja, dar-Lhe o peso merecido por quem Ele é.

A verdade apresentada por Deus por meio das escrituras deveria causar assombro, perplexidade, admiração, amor e um estado de profunda contemplação.

Franklin Ferreira, no livro “Pilares da fé: A atualidade da mensagem da Reforma, cita John Piper: Na bíblia, o termo “Glória de Deus” se refere ao “esplendor visível ou à beleza moral da perfeição multiforme de Deus”. É uma tentativa de expressar com palavras o que não pode ser contido em palavras – Como Deus é em Sua magnificência e excelência reveladas.

As escrituras mostram que a Glória de Deus sempre foi o alvo da Trindade, seja na criação do Homem, no dilúvio, na aliança com Abraão, nos 40 anos de peregrinação do povo de Israel pelo deserto; quando reis são levantados e caem para a Glória de Deus; Judá é destruída para a Glória de Deus; O povo de Deus passou setenta anos no exílio para a Glória de Deus; O filho assumiu forma humana para a Glória de Deus; O filho foi crucificado e morto pelos nossos pecados para a Glória de Deus; O Espírito Santo foi derramado sobre a igreja para a Glória de Deus; E, finalmente, o Filho voltará dos céus como Rei dos reis, Senhor dos senhores, para a Glória de Deus.

A vida não se resume aos nossos próprios interesses, projetos, vontades, orgulho; ou mesmo nossos sonhos, por mais belos que eles possam ser. A vida deve ter sentido a partir de um Deus que escolheu vir à terra como homem há 2021 anos, que sabia que seria torturado e morto numa cruz de madeira para salvar pessoas que não mereciam ser salvas.
O evangelho tem causado perplexidade e espanto, de modo a levá-lo a um estado de contemplação?

Essa é uma análise importante para que você não seja como o homem descrito por Fernando Pessoa em seu poema denominado “Tabacaria”:
(…) Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
(…)
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O paletó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando tirei e me vi no espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o paletó que não tinha tirado.

Tim Keller, comentando Jonathan Edwards, no livro “A Glória da Graça de Deus” afirma que: “Para espalhar a glória e a alegria que ele já tinha (em si mesmo). Ele criou outros seres, para transmitir o seu amor e sua glória para eles, e para que estes o transmitissem de volta para Ele, de modo que eles (e nós) pudessem entrar nesse grande processo, no círculo do amor e de glória e de alegria que ele já possuía”.
Não espere o tempo passar, permita-se estar em estado de contemplação diante de Deus, Seus atributos e Sua maravilhosa graça.