Em minhas práticas como músico cristão eu nunca me senti satisfeito em apenas tocar bem um instrumento, ou cantar bem e possibilitar que a igreja ouça e cante, aprove e elogie meu trabalho. Inconformado, sempre esperava e acreditava que este ministério poderia ir além! Esperava que todo o trabalho musical que fizéssemos pudesse ter um alcance muito maior! 

Quando entrei na universidade para estudar a educação musical, comecei a ter noção da dimensão da capacidade que a música tem de influenciar o ser humano. Não se trata apenas de ter um som mais agradável ou menos agradável, ou de quantas músicas devem ter no culto. 

Ao estudar um pouco do universo da pedagogia e psicologia musical, comecei a entender que Deus nos deu a música como uma preciosa ferramenta para nos relacionarmos com Ele, com nós mesmos em nossas emoções e sentimentos, e em todo processo de ensino e aprendizagem como seres humanos. Você pode pesquisar autores como Keith Swanwick, Dalcroze, Kodaly entre outros, assim como Piaget e Vygotsky, que falam sobre a educação e a música. 

Não é novidade para ninguém que a música é utilizada na alfabetização das crianças, no ensino das histórias nas escolas bíblicas, e começou a ser utilizada até para memorização de complexas equações matemáticas. Isto é, no ambiente externo e interno à igreja. 

Mas a questão aqui é que a música ainda não é tratada e explorada como deveria: potencial ferramenta na Educação Cristã.

Na Bíblia, nossa fonte de verdade e vida, encontramos os cânticos exercendo vários papéis na condução do povo de Israel e, posteriormente, na vida dos discípulos e da igreja primitiva. O primeiro cântico mencionado na Bíblia foi o de Moisés Êxodo 15). Este não tinha um objetivo puramente artístico ou eclesiástico. Tinha um objetivo pedagógico! Ensinar, enraizar o ensino e servir de memorial sobre quem Deus é e o que Ele fez. No Novo Testamento temos em Colossenses 3:16: 

“Habite ricamente em vós a Palavra de Cristo; ensinai e aconselhai uns aos outros com toda a sabedoria, e cantai salmos, hinos e cânticos espirituais, louvando a Deus com gratidão no coração”.

Na reforma, Martinho Lutero, compreendendo a força que a música tem debaixo da autoridade bíblica, utilizou os hinos para educar, ensinar, doutrinar e evangelizar. Estes hinos eram quase uma arma de guerra contra as heresias pregadas na época. Diz-se que seus inimigos temiam mais sua “música” do que ele próprio, devido ao conteúdo contido em suas obras. 

Tendo essas e muitas outras referências como motivo e inspiração, podemos pensar em como utilizar melhor a ferramenta que Deus nos deu para ensinar os preceitos de Deus não só nas escolas bíblicas, ou cultos de estudos bíblicos, mas nos momentos em que utilizamos da música. 

Um primeiro passo, é o investimento na boa formação ministerial dos líderes e músicos da igreja. Além de buscarmos ser cada vez mais criteriosos nos estudos técnicos dos instrumentos ou voz, deveríamos correr atrás da formação teológica. Isso poderia começar com a aproximação dos pastores e ministérios. O pastor com boa formação, pode auxiliar nos estudos bíblicos, indicando boas literaturas e discipulando biblicamente os ministros, além de criar um plano de ensino que una a pregação expositiva da palavra e músicas que ilustrem, resuma e enfatize o que for ensinado. A igreja toda se beneficiaria se planejássemos isso juntos. 

músico cristão - grupo estudando a bíblia

Com o caminho aberto para a reflexão, o grupo poderia criar um espaço de análise das canções a serem incluídas no repertório da igreja, assim como a divisão por tema, por estilo e dinâmica. Tendo em vista a objetividade da mensagem a ser cantada, essa organização facilitaria na hora da escolha das músicas a serem ministradas por culto, e a igreja num todo seria beneficiada e poderia levar para casa o que fora ensinado, podendo colocar em prática no seu dia a dia, inclusive cantando! 

Essa atitude diminuiria consideravelmente as chances de cantarmos músicas que erram na interpretação bíblica, por falta de conhecimento ou por motivações egoístas em sua composição. É triste ver o quanto o povo cristão sofre por não escolher bem as músicas que canta. Cantam sobre um deus que não é o Deus da Bíblia, e sobre um Jesus que não é o Salvador. Por isso, precisamos correr atrás do prejuízo já causado e promover a saúde espiritual das nossas comunidades cristãs ao cantarmos sobre o verdadeiro Evangelho. 

Àqueles e aquelas que têm o desejo de seguir carreira na música, incentivo com empolgação que busquem uma formação em educação musical. Estes, poderiam somar e muito em nossos trabalhos musicais e poderiam contribuir e muito em nossos ambientes. Ciente dos desafios da carreira, deixo meu apelo às igrejas e lideranças que os apoiem, auxiliem, invistam e acolham esses irmãos em sua vocação. 

Quando hoje, além de tocar meu instrumento na igreja em que sou membro, posso contribuir na educação de ministros de música e da igreja, confirmo o que me instigava: o ministério musical é muito além de uma simples performance em um culto de domingo! É uma vida dedicada ao Reino de Deus – uma vida que promove Seus princípios e valores com o bom ensino através de belos sons entoados!