Embora muitos possam achar difícil acreditar, milhões e milhões de pessoas neste mundo creem na teoria de que Deus está morto e a defendem com unhas e dentes. Em 1882, em um de seus livros, o influente filósofo alemão Nietzsche não fez uma pergunta, mas afirmou categoricamente: “Deus está morto!”. Deus está morto? Eu, Jaime Kemp, acreditava que Deus não tinha mais significado para o ser humano e, portanto, não existia. Hoje há milhares de pessoas, de certo nível cultural, que receiam perder parte de sua racionalidade se ousarem crer. O materialismo passeia livremente no mundo moderno.

A Palavra de Deus não apresenta uma definição clara sobre esse conceito, porém fornece várias ilustrações a respeito de sua substância e caráter. No dicionário Houaiss lemos que “materialismo é a doutrina filosófica que acredita que a matéria é capaz de explicar todos os fenômenos naturais, sociais e mentais; comportamento de uma pessoa (ou sociedade) extremamente devotada aos bens, valores e prazeres materiais”.

Em seu artigo “Consequências do materialismo”, o professor e fundador do Departamento de Ciências da Computação da USP, Valdemar W. Setzer, pergunta: “Se os materialistas só acreditam na matéria, no que se vê, no que se pode medir, como explicar sentimentos, vontades, pensamentos? Quando alguém faz uma tomografia do cérebro, ela mostra também o que pensamos? De onde vêm os pensamentos?”

O materialismo apresenta várias facetas, entretanto quero abordar neste artigo uma delas que, segundo meu modo de entender, tem prejudicado e atormentado a família, que é a menina dos olhos de Deus.

O materialista é a pessoa que corre obcecadamente atrás das coisas deste mundo, insistindo em ignorar e negligenciando a necessidade de satisfazer a alma, o espírito. Ela se preocupa com o que pode ou não pode comprar e fica frustrado quando não consegue o que quer. A casa, o carro, as férias, os investimentos etc., são objetivos supremos para os materialistas, visto que são os bens materiais que alimentam sua ilusória realização.

Muito se engana aquele que pensa ser esta uma atitude dos não crentes. Infelizmente, o materialismo está presente e ativo na Igreja, que é a Noiva de Cristo. Nos dias de hoje, ela não cogita mais em viver como viviam os cristãos da Igreja primitiva. Alguns priorizam e amam mais o dinheiro do que as coisas do Reino. Ficam deslumbrados com o que ele pode comprar. Sonham com conforto e prazer. Confesso que não gosto de ser tão rígido a respeito de meus irmãos cristãos. Tenho consciência de que é um julgamento duro, porém ele é totalmente verdadeiro. Abandonamos o nosso primeiro amor e estamos tendo um caso com uma artimanha satânica.

O que Tiago escreveu para os cristãos do século I também se aplica a nós: “Gente infiel! Será que vocês não sabem que ser amigo do mundo é ser inimigo de Deus? Quem quiser ser amigo do mundo se torna inimigo de Deus”, (Tiago 4:4). Sem dúvida são palavras ásperas, mas sob medida para nos fazer parar e pensar.

Antes de tudo, quero ser bem honesto e sincero. Assim como você, eu também luto para resistir à tentação do materialismo. Talvez você esteja pensando: “ah, mas eu não tenho esse tipo de problema”. Entretanto, se você é semelhante à maioria dos homens ou das mulheres, acho que sente, lá no fundo da sua alma, a tendência de querer sempre um pouco mais.

Nós precisamos constantemente lembrar as palavras de Jesus: “Prestem atenção: Tenham cuidado com todo tipo de avareza porque a verdadeira vida de uma pessoa não depende das coisas que ela tem, mesmo que sejam muitas”, (Lucas 12:15); “Um escravo não pode servir a dois donos ao mesmo tempo, pois vai rejeitar um e preferir outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Você não pode servir a Deus e também ao dinheiro”, (Mateus 6:24).

Todo cristão trava uma luta, podemos dizer diária, no seu espírito. Ele percebe que alguma coisa está errada. Ele é como Marta, a quem Jesus exortou com muito amor: “Marta, Marta, você está preocupada e inquieta com muitas coisas”, (Lucas 10.41). O materialista se afasta das coisas do Senhor para preocupar-se com suas próprias coisas.

Observe o quadro que Jesus expôs do materialista em Lucas 12.16-21: “Então lhes contou esta parábola: ‘A terra de certo homem rico produziu muito. Ele pensou consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde armazenar minha colheita’. Então disse: ‘Já sei o que vou fazer. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros maiores, e ali guardarei toda a minha safra e todos os meus bens. E direi a mim mesmo: Você tem grande quantidade de bens, armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e alegre-se’. Contudo, Deus lhe disse: ‘Insensato! Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida. Então, quem ficará com o que você preparou?’ Assim acontece com quem guarda para si riquezas, mas não é rico para com Deus”. Esta é a narrativa sobre um homem preocupado com os seus investimentos e seu bem-estar. A dimensão da sua vida espiritual era subjugada pela obsessão do desejo de enriquecer sempre mais e mais.

O grande fator prejudicial do materialismo não está na quantidade de bens obtidos, mas na atitude. Percebemos, nas palavras do apóstolo Paulo em I Timóteo 6:17, sua preocupação quanto à nossa atitude em relação aos bens materiais: “Aos que têm riquezas neste mundo mande que não sejam orgulhosos, nem ponham a sua esperança nessas riquezas, porque elas não dão segurança nenhuma. Que eles ponham a sua esperança em Deus, que nos dá todas as coisas em grande quantidade, para o nosso prazer!”, (TLH).

Se a nossa esperança e segurança se resumem às riquezas, ficaremos constantemente ansiosos e preocupados com aquilo que já conseguimos acumular e com aquilo que ainda pretendemos adquirir. Se lutamos para proteger nossos bens a qualquer custo, isto demonstra que nos tornamos escravos do materialismo.

 

“Aos que têm riquezas neste mundo mande que não sejam orgulhosos, nem ponham a sua esperança nessas riquezas, porque elas não dão segurança nenhuma…”,
(I Timóteo 6.17).

 

Em sua primeira carta a Timóteo, o apóstolo Paulo o advertiu: “Porque o amor ao dinheiro é fonte de todos os tipos de males. E alguns por quererem tanto o dinheiro, se desviaram da fé e encheram a sua vida de sofrimento”, (6:10). O materialista é apegado ao dinheiro. Sem ele fica frustrado, sente-se inseguro e é capaz até de comprometer sua integridade para obtê-lo. Alguém disse certa vez: “Dinheiro é como água salgada do mar; quanto mais você bebe, mais sede tem”.

Quando as posses nos seduzem, nunca estamos satisfeitos; sempre queremos mais. Por isso o Senhor se preocupa com a condição do nosso coração: “Não ajuntem riqueza neste mundo, onde as traças e a ferrugem destroem. Ao contrário, ajuntem riquezas no céu, onde as traças e a ferrugem não podem destruí-las, e os ladrões não podem arrombar e roubá-las. Pois onde estiver estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”, (Mateus 6:21).

Onde estão os seus tesouros? Estão depositados no banco do céu? Se o seu coração estiver focado lá, seus investimentos também estarão. Se, porém, seu coração está preocupado com o que é temporário, você não está ajuntando riquezas no reino de Deus.

Embora estejamos vivendo numa sociedade assumidamente consumista, sendo cotidianamente bombardeados pelo marketing dos meios de comunicação e fascinados pelas incessantes novidades tecnológicas, será que temos que ceder às fortes tentações e nos entregarmos a uma cultura materialista? Não! Podemos escolher outro caminho, apesar de ser uma estrada que muitos não se sentem atraídos em trilhar. Apelo novamente ao apóstolo Paulo para abalizar esse pensamento: “De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos”, (I Timóteo 6:6 a 8).

menina negando compartilhar materialismo

A realidade é que poucas pessoas se sentem satisfeitas e contentes somente com o que é essencial para viver. Na verdade, a enorme maioria quer roupas de grife, mais do que o trivial para comer, dois carros, uma bela casa etc. É claro que esta lista é muito mais extensa. Ler I Timóteo 6.8 – “tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos” – é desferir uma facada no coração de um materialista. Mas preciso confessar que, embora não me considere materialista, estou longe de cumprir estas palavras do apóstolo.

Para ampliar essa perspectiva, vamos ler também o que ele disse em Romanos 8:32, ao ressaltar a generosidade da graça de Deus: “Ele não deixou de entregar nem o seu próprio Filho, mas o ofereceu por todos nós! Se ele nos deu o seu Filho, será que não nos dará também de graça todas as coisas?”, (TLH). O argumento de Paulo é: se Deus nos entregou o que há de mais precioso no universo, Seu único Filho, quantas bênçãos a mais Ele não nos dará?

À medida que andamos intimamente com Deus, descobrindo cada vez mais a dimensão das riquezas da Sua graça, conhecemos também o quanto Ele é generoso, pois não nos dá apenas benefícios materiais, mas muito mais abundantemente da sua graça, misericórdia, bondade, perdão. Deus nunca nos nega a dádiva de todos os Seus atributos.