Crescer na Igreja é ser bastante estimulado do ponto de vista relacional, principalmente quando o assunto é mais voltado para os relacionamentos conjugais. Ensina-se muito sobre a importância de namoros (e casamentos, claro) em santidade, sobre como construir uma família após o matrimônio, sobre como ser um bom marido ou uma boa esposa, bons pais, mães, enfim. 

Por outro lado, fala-se muito pouco a respeito de como se preparar para uma vida de solteirice e celibato, quase como se não houvesse pessoas sentadas em nossos bancos que optaram por seguir estes caminhos (ou acabaram sendo levadas a isso) na vida adulta.

Este é um exemplo pessoal, mas que certamente encontra ressonância em várias pessoas que estão lendo este texto, muitas das quais efetivamente solteiras e lutando para encontrar seu lugar em uma igreja repleta de células (pequenos grupos, GCs ou nomes similares), acampamentos, ministérios e até cultos voltados para namorados, noivos ou casados.

Agora, se não há preocupação em preparar as pessoas para uma possível solteirice na vida adulta, imagina para receber aqueles que já chegam ao corpo de Cristo neste estágio?

Não é bom que o homem esteja só

Em uma discussão como essa, há quem pense imediatamente no versículo de Gênesis 2:18, em que lemos o seguinte relato:

“Então o Senhor Deus declarou: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele al­guém que o auxilie e lhe corresponda”.

É compreensível que, lendo apenas este trecho, alguém chegue à conclusão de que todos, portanto, devem ter sua “alma gêmea” esperando ser descoberta em algum canto por aí. Só que a maravilha da palavra de Deus é que ela é completa em si mesma e, com isso, devemos continuar a progredir em conhecê-la de forma geral, sempre prestando atenção aos contextos.

No contexto vivido por Adão (e dos planos que Deus tinha para ele), é compreensível que sua solteirice fosse um problema. Afinal, ele seria o início da linhagem do povo de Deus. 

Entretanto, nem todos somos como Adão, e Deus tem planos diferentes para cada um de nós (e vidas também). Portanto, não podemos tratar tudo como uma fórmula fechada e, como dito anteriormente, precisamos avaliar a Bíblia como um todo.

O que a Bíblia diz sobre os solteiros?

Um dos exemplos mais proeminentes de solteiro na Bíblia é ninguém menos que o Apóstolo Paulo. Ele, inclusive, é um defensor da ideia de que, idealmente, o correto seria que todas as pessoas adotassem o celibato, para que pudessem se dedicar de maneira mais “integral” à obra do Senhor.

Entretanto, basta ler o restante do capítulo de 1 Coríntios 7 para perceber que ele reconhece que este não é o caminho de todos.

“Porque quereria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom, um de uma maneira e outro de outra” (v.7).

Outro solteiro “famoso” da Bíblia é ninguém menos que Jesus, um tema polêmico, mas que encontra respaldo nos Evangelhos, nos quais não há nenhum relato de relacionamento amoroso do filho de Deus em sua passagem de 33 anos pela Terra.

Em palavra direcionada a um grupo de fariseus, Jesus diz a respeito das pessoas que vivem sem se casar ou se relacionar:

“Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o”. (Mateus 19:12)

Ao ler o texto completo, vemos que o Senhor faz uma defesa veemente do casamento, mas inclui essa ressalva para acomodar em seu Reino todos aqueles que, por algum motivo, não podem vivenciar essa realidade.

Também não é bom que o homem brigue com os fatos

Agregando ainda mais substância aos argumentos trazidos pela Bíblia, devemos aprender a ler os fatos, compreender o mundo que nos cerca, sendo capazes de responder a ele com os ensinamentos do Evangelho.

E os fatos são: há muitos solteiros no mundo, em cenário que vai crescer nos próximos anos.

Segundo o instituto de pesquisa britânico Euromonitor International, o perfil de domicílio que mais crescerá ao redor do mundo até 2030 será o de lares habitados por solteiros. Este cenário, inclusive, já era dominante na América do Norte e na Europa Ocidental no ano de 2014.

No Brasil, o número de solteiros já era superior ao de casados em 2011, conforme aponta levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): 48,1% de solteiros contra 39,9% de casados. Questionados, porém, se viviam em algum tipo de relacionamento conjugal, 57,1% dos entrevistados responderam que sim, contra 42,9% que disseram não manter nenhum relacionamento do tipo.

Ou seja: há muita gente vivendo sem estar em um relacionamento no Brasil e no mundo. Obviamente, isso repercute na igreja.

A questão das mães solteiras

Uma das formas como essa repercussão se manifesta nas comunidades em todo o Brasil é no contingente de mães solteiras que fazem parte das congregações. 

mulher carregando filha nas costas - solteiros igreja

Vivemos em um país que, segundo dados do Instituto Data Popular, tem mais de 20 milhões de mulheres criando filhos sem a ajuda de um parceiro, e muitas delas são nossas irmãs em Cristo.

O grande desafio, e que corresponde a todos nós, é fazer com que se sintam bem-vindas e acolhidas no seio da Igreja. 

Os solteiros são parte importante do corpo de Cristo

Por fim, irmãos, não estamos aqui dizendo que ser solteiro é o caminho ideal para todos. Devemos apenas compreender que é uma situação aceitável, uma realidade, que nada tem de pecaminoso e devemos ser capazes de acolher quem vive assim (por opção ou não), integrando-os na vida da comunidade de fé.