Cerca de três milhões de brasileiros entram na universidade todos os anos, considerando cursos presenciais (pandemia à parte) e de ensino à distância (EAD). Entre eles, muitos cristãos que, enfim, realizam o sonho de alcançar a educação superior.

Segundo um estudo da Lifeway Research conduzido nos Estados Unidos, porém, cerca de dois terços dos jovens adultos entrevistados afirmaram ter abandonado a igreja por ao menos um ano entre seu período de juventude (mais especificamente entre 18 e 22 anos). Destes, 34% apontaram como razão a mudança para a faculdade.

No Brasil o cenário é parecido, e muitos jovens acabam abandonando a fé ao adentrar na universidade. Este texto vem para tentar reverter este quadro e ajudar aqueles calouros que estão entrando na universidade neste ano e desejam fazer diferente.

O maior desafio do calouro cristão

Há dezoito anos envolvido ativamente no ministério com universitários, o colunista da Revista Cristã e pastor da Igreja Batista da Lagoinha, Bruno Mendes, explica que o maior desafio para os calouros cristãos é “guardar os princípios da fé cristã”.

O pastor Bruno Mendes (Foto: divulgação)

Isso se dá, de acordo com Bruno, porque os jovens se deparam com um universo completamente novo ao entrar na universidade, com mais liberdade, no auge da juventude e em um ambiente muito marcado pelas festas e pela curtição.

“Ele [o cristão] esquece que continua tendo que seguir o rumo, seguindo os seus valores, seus princípios, aquilo que ele aprende na Palavra. Então eu acho que o maior desafio pra ele é esse, é quando ele absorve esse impacto da novidade que é a faculdade, e precisa se manter firme, fiel, seguir o ritmo que ele vinha seguindo”, afirma.

Bruno complementa explicando que, para transpor este desafio, o cristão deve seguir uma fórmula bastante conhecida: estabelecer uma rotina de busca constante a Deus e de vida em comunhão na igreja local. 

“Em todas as fases da vida existe um caminho só: a leitura da Palavra, uma vida devocional constante, uma vida de oração, não deixar de frequentar os cultos, não deixar de se envolver com a igreja local na célula e ter proximidade com o pastor”, explica.

Para não escorregar, é importante focar na missão

Com base em toda a sua experiência ministerial, Bruno explica que o principal escorregão que os cristãos universitários cometem é o de se esquecer da sua missão no ambiente acadêmico e para explicar que, ao entrar na universidade, o foco não pode se perder, cita o trecho de I Coríntios 10:31, que diz, “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”.

“O escorregão mais comum é esse, porque é muito fácil perder o foco e achar que o objetivo é ganhar dinheiro, ter sucesso, e o enfoque passa a ser outro se ele não mantém os olhos na missão real que ele tem; porque dentro da universidade isso não é mais ensinado, né? As principais universidades do mundo foram criadas exatamente por cristãos que queriam conhecer mais a Deus, a sua criação, queriam honrá-lo dessa forma, mas hoje isso se perdeu e se fala mais em sucesso, carreira, status, dinheiro, em tudo isso”, afirma o pastor, que completa:

“O cristão precisa sempre se recordar que ele está em missão, que ele está ali para servir o Rei, que ele faz parte do reino e nunca pode perder isso de vista,  porque a linha é muito tênue, é muito fácil passar pro outro lado, é muito fácil perder o foco e errar nesse sentido”, finaliza.  

A responsabilidade das igrejas 

Obviamente, como corpo, temos o dever de zelar uns pelos outros. Então, se os jovens estão caindo ao entrar na universidade, algo certamente está errado. Para Bruno, a falha começa na raiz, o ensino da teologia.

“Os nossos jovens não têm uma teologia boa o suficiente para encarar os dilemas da faculdade. E aí eu acho que entra, em grande parte, a responsabilidade das igrejas. Porque hoje, muitas delas têm dedicado seus cursos e os cultos de jovens apenas para serem divertidos, e o foco passou a ser esse em muitos lugares. Então esse jovem que encontra nas suas igrejas apenas entretenimento, música alta, luz apagada e pouco conteúdo bíblico, quando chega à universidade está despreparado. Ele chega na universidade e se torna presa fácil do pensamento que domina aquele ambiente, que é o relativismo, o humanismo”, diz. 

“Eu acredito que as igrejas precisam se posicionar, entender que o universitário cristão é um missionário na sua universidade. E ele precisa ser tratado e cuidado como tal. A igreja precisa investir nele, capacitá-lo, treinamento, acolhê-lo, tudo isso para que ele possa desempenhar um um um bom trabalho evangelístico e dar um bom testemunho”, completa.  

Bruno ainda diz não acreditar que alguma área do conhecimento (normalmente divididas nas universidades entre Ciências Humanas, Ciências Biológicas e Ciências Exatas) seja mais nociva para os jovens cristãos que outras. O importante é o estudante estar preparado para responder as perguntas que encontrará onde quer que Deus o tenha plantado.

Conselhos para jovens que se tornarão universitários em 2022

“O fundamental é ter vida com Deus. A universidade é, de fato, um ambiente hostil. Hoje em dia, um cristão na universidade é visto como um peixe fora d’água, e ele tem enfrentado dificuldades. Então o primeiro passo é ter vida de intimidade com Deus, vida devocional, leitura da palavra, estudo da palavra”, explica o pastor, que vai além:

“Às vezes a gente dá mais importância pro estudo acadêmico do que pro estudo bíblico. O universitário precisa entender que ele tem que conhecer a palavra, que entender de apologética, ele tem que entender de cosmovisão e encarar a universidade como um chamado missionário, como se ele estivesse indo para outro local em que ele teria que estudar a cultura, a realidade, os hábitos daquele povo, enfim, é a mesma coisa”.

close em um universitário cristão carregando a bíblia debaixo dos braços

Bruno reforça, ainda, o alerta para que os estudantes cristãos não se deixem enredar pela correria da universidade, abandonando a vida devocional diária:

“A frase que a gente mais escuta do universitário é: ‘eu não tenho tempo’. ‘Não tenho tempo de orar’, ‘não tenho tempo de ler a Bíblia’, ‘não tenho tempo de participar de uma célula’, mas isso não pode mudar! Porque entrou na faculdade, o jovem tem que manter a sua vida devocional diária, a leitura da Bíblia, separar um tempo todos os dias pra orar, pra se consagrar, pra ter uma vida com Deus e levar a sério, ler bons livros, conhecer bem o ambiente acadêmico, conhecer a visão de mundo que domina a universidade e estar sempre preparado para responder a todo aquele que pede a razão da esperança que ele tem”. 

Como pregar na universidade?

Por fim, o pastor ainda deixa dicas para quem pretende compartilhar o Evangelho com seus colegas na universidade.

“A primeira coisa é: confia em Deus. Não ache que a pregação no ambiente acadêmico é como a pregação em qualquer outro lugar. E nunca pense que isso é um mérito do pregador. O que Deus requer de nós na pregação é fidelidade à palavra e ousadia para anunciar. O que acontece, vamos dizer assim,  nos bastidores do evangelismo é obra do Espírito Santo. O nosso papel é levar a mensagem aos ouvidos das pessoas e o Espírito Santo vai levar a mensagem do ouvido até o coração. Então, o cristão é chamado a ser fiel, a anunciar a palavra, pregar a palavra com ousadia, com intrepidez, com verdade. Sem adaptações, sem modificações, mas pregando sempre e confiando que Deus vai fazer”, explica.

Outro ponto levantado por ele é que o jovem precisa ter humildade para reconhecer que nem sempre terá todas as respostas.

“A gente precisa anunciar, falar, contar pras pessoas sobre quem Deus é, sobre o que Jesus fez, sobre a realidade nossa diante de Deus, a necessidade de perdão, e anunciar isso com simplicidade, com humildade, sabendo que, muitas vezes, a gente não vai conseguir responder todas as coisas, não saberemos apresentar todas as respostas que são exigidas de nós, mas que ainda sim a gente pode confiar em Deus e evangelizar com com confiança e com amor ao próximo”, conclui.