A maioria dos cristãos têm o hábito de dividir músicas, de modo geral, em duas categorias: gospel (músicas cristãs, que falem de Deus ou para Deus e podem ser tocadas nas igrejas e eventos evangélicos) e secular (qualquer música que não fale de Deus ou das temáticas cristãs).

Esse é um assunto que divide opiniões e cremos que cabe a cada cristão uma reflexão pessoal sobre o tema, já que a Bíblia não tem um direcionamento específico sobre isso. Para agregar à nossa reflexão, falamos com Márcio Moreira, Analista de Marketing e Artístico Gospel da gravadora Som Livre, uma das maiores do país.

música secular gospel O produtor musical Marcio Moreira (divulgação)
O produtor musical Márcio Moreira (divulgação)

O cast da gravadora é formado por artistas cristãos e não cristão. Márcio, cristão convertido, bateu um papo conosco sobre como ele lida com a dualidade gospel x secular no mercado e na vida.

REVISTA CRISTÃ – Qual a sua visão sobre música secular e gospel? Quais as diferenças mais claras?

Márcio Moreira – Eu acredito, tecnicamente falando, que a música é dividida em gêneros. Esses gêneros são divididos pelo estilo da música, pelos temas abordados, mas sobretudo pelo público que consome essas canções. Temos o pop, o reggae, o funk, o sertanejo e temos, também, a música gospel.
Claro que eu entendo o lado espiritual da música gospel. Ela não é uma mera música para as pessoas ouvirem. Ela é uma música de conexão com Deus, com o próprio Evangelho, com o conhecimento da Palavra de Deus, por isso ela carrega esse diferencial das demais formas de cantar.

RC – Como cantor e integrante de uma gravadora, como você vê a postura que o cristão deve ter frente a essas distinções?

Márcio – O mais importante é o cristão seguir a orientação do seu líder. Sou convertido desde 2006 e já passei por diversas denominações. Passei, por exemplo, por uma congregação batista mais conservadora e, também, por uma batista mais renovada e hoje estou na Unidade em Cristo, no Rio de Janeiro. Em todas estas igrejas, eu sempre estive atento aos preceitos internos. É muito importante entender isso.

Desta forma, em minha opinião, o mais importante é o cristão entender como a liderança dele vê o consumo de música que não seja cristã. Algumas igrejas, por exemplo, não veem problemas a não ser em caso de músicas que precisam passar por filtro, como algumas que fazem apologia às drogas, sexualização, traição ou são pejorativas.

Então, o mais importante é o cristão compreender a direção de sua liderança, seguir os preceitos e dessa forma o cristão saberá filtrar o que ouvir ou não.

RC – Você acredita que o cristão pode ouvir ou cantar música que não seja evangélica?

Márcio – Reforço o que disse na resposta acima e gostaria de frisar que cada um de nós deve fazer uma autoavaliação. Estamos no mundo e vamos nos conectar com ele. Por exemplo, talvez tenha um irmão na igreja, firme na fé, que é garçom e tem que servir bebida alcoólica no seu trabalho. Não há nada de errado nisso. Essa é a profissão dele
Além disso, temos diversos artistas que são cristãos, mas não cantam música gospel. Temos a Simone, da dupla Simone e Simária, a dupla César Menotti e Fabiano, que têm até uma célula em casa e vivem uma vida com o Senhor. No entanto, eles escolheram cantar a realidade deles, da cultura regional.

Eu acredito que o cristão pode consumir e cantar músicas não cristãs, desde que elas não firam os princípios cristãos e o coração de Deus. Além disso, o cristão precisa estar alinhado com a visão da igreja em que ele congrega.
Jesus não espera que a gente crie desordem nem contenda e devemos respeitar os costumes da congregação em que estamos.

RC – Existe um tratamento diferenciado para os artistas cristãos no mercado fonográfico?

Márcio – Antigamente acredito que sim. Hoje, falando em nome do Som Livre, trabalhamos com todos os cantores da mesma forma. Uma das mudanças que fiz quando entrei para cuidar do estilo gospel foi justamente tirar este selo que existia e diferenciava o grupo. Isso afastava tanto as pessoas do mercado fonográfico, que não queriam trabalhar com o gospel, quanto as pessoas não cristãs que não queriam ouvir as músicas.

Meu trabalho foi desmistificar a cultura cristã e aproximar as pessoas do meu cast. O mesmo designer que desenvolve a capa do sertanejo, desenvolve a do gospel e a assessoria de imprensa é a mesma para todos os estilos. Eu mesmo cuido de outros estilos musicais. Não há uma separação no trabalho.

RC – Como está o mercado da música gospel hoje em linhas gerais?

Márcio – O gospel floresceu, especialmente no streaming. Trabalhamos campanhas específicas para isso. Acredito que a música cristã ainda não está no local merecido, visto que, na época do álbum físico, o gospel despontava entre os estilos mais consumidos. Os números de vendas eram altíssimos.

Temos crescido. Estamos dando passos largos nessa direção. Temos nomes da música gospel se destacando com números que artistas de outros estilos ainda não alcançaram.

Estamos em um processo de democratização da internet e isso também ajuda a aumentar o consumo. Nem todos possuem um pacote de dados bom no telefone para consumir música, mas isso está mudando. Enquanto isso, seguimos trabalhando na educação do público a ir para o streaming.