Todo ano, sempre no mês de outubro, essa pergunta ganha força no meio cristão, então, vamos começar tirando o elefante da sala: poder, pode. O crente no Senhor pode todas as coisas, e o Apóstolo Paulo é bastante direto ao dizer, em 1º Coríntios 10:23 que “Tudo [nos] é permitido”.

Mas não acaba aí, e este é o primeiro ponto que precisamos considerar antes de responder à pergunta propriamente dita: como todo bom cristão sabe, é importante ler e examinar o texto completo das Escrituras para termos uma visão mais precisa do que está sendo ensinado.

Os irmãos mais antigos já diziam: “texto fora de contexto é pretexto para a heresia”, e nós não podemos considerar apenas um pequeno pedaço da Bíblia para embasar uma decisão.

Paulo, no mesmo versículo do livro de Coríntios, por exemplo, continua escrevendo: “Tudo é permitido, mas nem tudo convém. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica”.

Chegamos, então, a um segundo ponto: talvez ainda não tenhamos alcançado uma resposta definitiva porque estamos nos fazendo a pergunta errada. Quem sabe o verdadeiro questionamento não deveria ser: Convém a um cristão comemorar o Halloween?

Vamos analisar um pouco do contexto para tentarmos responder a este questionamento.

O que é o Halloween?

O termo halloween deriva de “All Hallow’s Eve”, que, em inglês, significa algo como “Véspera do Dia de Todos os Santos”, data comemorada em 1º de novembro. Entretanto, para a surpresa de muitos, sua origem remonta ao Reino Unido (e não aos Estados Unidos), no século 16.

Halloween cristão
Snap-Apple Night, pintado por Daniel Maclise em 1833, mostra pessoas festejando e jogando jogos de adivinhação no Halloween na Irlanda

Historiadores apontam que o halloween como conhecemos hoje tem raízes no Samhain (palavra cujo significado é “fim do verão”). De forma resumida, trata-se de um antigo festival pagão em que o povo Celta celebrava o “Rei dos Mortos” e a abundância de alimentos pós-período de colheita, entre outras coisas.

Um homem que representando o Rei do Inverno, segura uma espada flamejante enquanto participa de uma cerimônia de comemoração do Samhain em Somerset, Inglaterra, 2017. (Matt Cardy/Getty Images)

Além disso, a tradição aponta também que os celebrantes acreditavam que as barreiras entre os mundos espiritual e físico eram reduzidas durante os três dias e noites do evento, permitindo a interação entre os vivos e seus ancestrais, almas do outro mundo.

Um detalhe importante do mito do Samhain (ou de uma das versões dele) é que, com esta abertura entre mundos, os Celtas se fantasiavam de animais e monstros para afastar seres mitológicos, como fadas, que poderiam se sentir tentados a raptá-los.

cristão halloween
Na Irlanda, acendiam velas dentro de nabos para afastar maus espíritos na festa de Samhain. O costume teria sido levado pelos imigrantes para os EUA e incorporado ao All Hallows Even. Quando os irlandeses chegaram à América, teriam percebido que as abóboras eram mais abundantes por lá e passaram a usá-las no lugar dos nabos.

Afinal, celebrar o halloween edifica ou não a vida do cristão?

Fugindo do espírito do legalismo, em que as regras tomam o lugar do próprio Deus, vamos recorrer a mais alguns trechos da Bíblia para tentar encontrar essa resposta. 

O livro de Filipenses declara, no capítulo 4, verso 8 (NVI): “Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas”.

Como vimos rapidamente, a origem do Halloween traz consigo vários elementos no mínimo controversos para a vida do cristão. Chegamos a citar algumas delas: a homenagem ao “Rei dos Mortos”, seres mitológicos que precisavam ser distraídos para não agir de forma maligna, entre outras.

Além disso, nossa cultura relaciona o Halloween (no Brasil “celebrado” sob o sugestivo nome de “Dia das Bruxas”), a seres assustadores, brincadeiras de “terror” e muitos outros tópicos que batem de frente com a visão que a própria sociedade tem do que é aceito pelos cristãos.

Ou seja, engajar nessas controvérsias participando de festas ou pensando que não há nada a ver pode, rapidamente, escalar para um escândalo. E isso fere o que o próprio Jesus nos diz em Mateus 18:7: “Ai do mundo, por causa das coisas que fazem tropeçar! É inevitável que tais coisas aconteçam, mas ai daquele por meio de quem elas acontecem!”. 

De fato, como dissemos lá no início do texto, o cristão pode todas as coisas, e cabe a nós discernir o certo do errado com o auxílio da sabedoria que vem do alto. Então, vale a pena participar de um momento como este?

O livro de Tiago nos ensina o que fazer em um momento como este (e em toda a nossa vida): “Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida”. (Tiago 1:5)

Por mais que tenhamos a liberdade de fazer “aquilo que nos der na telha”, é necessário termos sabedoria para compreender que isso não nos isenta das consequências dessas escolhas. 

Portanto, entendemos como ideal que voltemos nossos olhos e concentremos nossos esforços e energia em celebrações que engrandeçam o nome do Senhor, atraindo as pessoas para mais perto dele. Não o contrário, como no caso do Halloween.

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