A Bíblia é claríssima a respeito da visão de Deus e da(s) orientação(ões) que Ele nos deixa a respeito da mentira. Como podemos ver no livro de Colossenses:

“Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador”, (Colossenses 3:9 e 10).

Não há debate, portanto, a respeito de “se podemos mentir”, da existência da mentira inofensiva, ou até mesmo com o intuito de se fazer o bem. A mentira é inaceitável a todo o tempo para quem professa a fé em Cristo.

Entretanto, a mesma Bíblia nos alerta, em I João 5:19, que o mundo jaz no maligno e, portanto, vive sob as regras do mal. Ou seja, a mentira está em todos os lugares, inclusive onde não deveria, como a Igreja. 

Estimulados a demonstrar confiança até que se prove o contrário em quem diz professar a mesma fé que nós, acabamos enredados por narrativas e afirmações inverídicas que, ditas por mal ou não, prosperam rapidamente em meio ao povo de Deus. Isto acontece desde o início dos tempos e temos diversos exemplos de refutações promovidas pelos homens conhecidos como “pais da igreja” nos primeiros séculos a heresias comuns em suas respectivas épocas.

Não devemos, apesar disso, mudar nossa abordagem e desconfiar de todos por essência. A atitude inteligente de nossa parte é estar bem preparado para poder responder às heresias do nosso tempo com a Palavra de Deus. 

Neste texto, vamos apontar algumas das mentiras mais comuns que têm sido contadas aos cristãos dentro dos muros da igreja atualmente, e fornecer algumas respostas plausíveis a elas.

“Todos serão salvos por Deus”

Chamamos de “universalismo” a corrente que crê que (grosso modo), no fim das contas, todos os seres humanos serão salvos por Deus. Isso, obviamente, seria excelente, mas a verdade é que a Bíblia não nos diz isso.

É sim verdade que o sacrifício redentor de Jesus é suficiente para salvar toda a humanidade e que Deus quer que todos se salvem. 

“Exorto, pois, antes de tudo que se façam súplicas, orações, intercessões, e ações de graças por todos os homens, pelos reis, e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e sossegada, em toda a piedade e honestidade. Pois isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. (I Timóteo 2:1 a 4)

Entretanto, não quer dizer que isso realmente vá acontecer. Afinal, há pessoas imprudentes, negligentes e até aquelas que, deliberadamente, não desejam ser salvas.

Entre os vários textos que nos explicam isso, temos uma parábola deixada por Jesus que nos mostra de forma bastante compreensível o que acontecerá. 

Registrada no capítulo 25 do livro de Mateus, a Parábola das Dez Virgens conta a história de 5 noivas prudentes e 5 imprudentes, que estavam em estágio diferente de preparação para a chegada do noivo. Quando ele chega, o último grupo não estava presente, e as portas se fecham. Elas até tentam entrar, mas ouvem um “não as conheço” do noivo.

Isso, porém, como vimos no texto de Timóteo citado anteriormente, não é motivo para que nós desistamos de quem quer que seja. Até que o momento chegue, devemos estar vigilantes por nós e clamando a Deus para que todos sejam salvos. Afinal, não temos capacidade de apontar a Deus quem deveria ser excluído de sua misericórdia. 

“Ser próspero é ser rico” e “dar o dízimo fará seus problemas financeiros desaparecerem”

homem de terno com os dedos cruzados atrás das costas

Estas, talvez, sejam as mentiras mais comuns e danosas à igreja brasileira nos dias atuais. Por vivermos em um país onde, infelizmente, milhões vivem abaixo da linha da miséria (cerca de 27 milhões de pessoas estão nesta situação no Brasil, de acordo com levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV)), a promessa de milagres financeiros é muito agradável aos ouvidos de quem escuta. 

Além disso, ainda há uma grande desigualdade social em terras brasileiras (em 2020, 49,6% da riqueza produzida no país ficou na mão do 1% mais rico), o que faz com que todos queiram fazer parte dessa nata abastada, se apegando a qualquer mensagem que diga que é possível chegar lá. 

Querer melhorar de vida não é um pecado, pelo contrário. Entretanto, é importante entender o que a Bíblia realmente diz a respeito destas questões. 

Comecemos pela prosperidade. No contexto bíblico, esta palavra não é equivalente a riquezas. Seria algo parecido com “ausência de necessidade”. O Salmo 128 demonstra o que é a vida de um homem próspero: ele teme ao Senhor, vive de seu trabalho, possui uma família que frutifica e vive por muitos anos para ver os filhos de seus filhos. Ou seja, as bênçãos vão muito além do dinheiro.

Porém há aqueles que desfrutarão de riquezas monetárias. A estes a Bíblia não chama de “melhores” que ninguém. Na verdade, se há um chamado é para que sejam generosos. O dinheiro se torna mais uma responsabilidade para quem o possui, que é a de garantir que os outros estejam vivendo igualmente bem.

“Ordene aos que são ricos no presente mundo que não sejam arrogantes, nem ponham sua esperança na incerteza da riqueza, mas em Deus, que de tudo nos provê ricamente, para a nossa satisfação. Ordene-lhes que pratiquem o bem, sejam ricos em boas obras, generosos e prontos a repartir. Dessa forma, eles acumularão um tesouro para si mesmos, um firme fundamento para a era que há de vir, e assim alcançarão a verdadeira vida”, (I Timóteo 6:17 a 19).

“Todo cristão deve ser de (insira sua ideologia política aqui)”

matéria sobre mentiras que contam aos cristãos - close em um homem cochichando no ouvido do outro

Em uma coluna publicada no respeitado jornal The New York Times em 2018, o reverendo Timothy Keller, fundador e líder da Igreja Presbiteriana Redeemer e autor best-seller de vários livros, escreveu que os cristãos não se encaixam em um sistema bipartidário como o que existe por lá. No nosso contexto do Brasil, seria o mesmo que dizer que os cristãos não se encaixam na briga entre “direita” e “esquerda”.

A discussão sobre qual é o papel dos cristãos no cenário político é antiga e provavelmente nunca vai terminar, mas o fato é que tentar colocar toda a igreja dentro de uma caixinha de ideologia é como (para nos apropriarmos da analogia bíblica) tentar passar um camelo dentro do buraco de uma agulha. Simplesmente não dá.

E, veja bem, isso não quer dizer que os cristãos não devam ou não possam se envolver politicamente. Pelo contrário. Aqui, o convite é para que observemos a nossa fé de outro jeito, colocando-a no lugar em que deve estar: o topo.

Ao falar que o cristão deve ser de tal ou qual ideologia, simplesmente subjugamos o cristianismo a esta tal corrente de pensamento, quando devemos fazer exatamente o contrário. Nosso papel é analisar todas as propostas à luz da Palavra de Deus, entendendo que Cristo é o nosso baluarte e a nossa bandeira, com posições firmes em defesa de frentes que as nossas definições políticas atuais podem considerar opostas.

“Ao seguirem tanto a Bíblia quanto a igreja primitiva, os cristãos estarão comprometidos com a justiça racial e os pobres, mas também com a compreensão de que sexo deve existir apenas no contexto do casamento. Um desses posicionamentos parece ser mais progressista, enquanto o outro soa opressivamente conservador. Assim, os posicionamentos cristãos sobre essas questões não se encaixam nos alinhamentos políticos contemporâneos”, acrescenta Keller. 

A discussão é longa, mas já deu para notar que o cristianismo não é uma ideologia política, é muito mais que isso, então não devemos arriscar a perda de relacionamentos com nossos irmãos em nome de brigas por pontos de vista diferentes nesta seara.

Há ainda várias outras mentiras sendo contadas diariamente no seio da igreja e, por isso, irmãos, estejamos sempre vigilantes para não perecermos diante das artimanhas do inimigo.