O Enem 2020 talvez tenha sido uma das edições mais complicadas da história, tanto para os organizadores quanto para os participantes. Devido à pandemia de Covid-19, as provas que acontecem em novembro de cada ano e em dois dias consecutivos, precisaram ter o processo adiado para janeiro de 2021, ocorrendo em dois domingos diferentes.

Além do mais, o Ministério da Educação lançou o Enem Digital, que contou com mais de 100 mil alunos inscritos. Sendo assim, mobilizar uma grande quantidade de pessoas em uma prova online não foi tarefa fácil. Essas medidas, em conjunto com as restrições de combate ao vírus, tornaram o Enem ainda mais desafiador para muitos estudantes que sonham com uma vaga no ensino superior por meio do exame.

Uma dessas sonhadoras é a amazonense Gabriela Traven, uma jovem de 17 anos que gabaritou a prova escrita desta edição. No dia 29 de março, quando foram divulgados os resultados, a garota teve a resposta tão esperada por todo o esforço e dedicação ao longo dos últimos anos.

“Não parecia real. Minha mãe me acordou dizendo que eu tinha tirado mil, mas eu não acreditei. Precisei ver com meus próprios olhos”, afirmou a jovem em entrevista ao portal EM TEMPO. Segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), Gabriela faz parte do grupo seleto de 28 candidatos que alcançaram os mil pontos nesta etapa.

O diferencial da moça chamou a atenção da mídia, principalmente a cristã, também por outro aspecto. Dissertando sobre o tema “a falta de empatia nas relações sociais no Brasil”, Gabriela citou versículos da Bíblia para compor o seu texto.

Segundo a amazonense, o ótimo resultado da prova se deve às horas de entrega aos estudos técnicos. Da mesma forma, Gabriela destaca a importância do conhecimento cultural, o qual foi imprescindível para encorpar a sua escrita.
“Eu sempre gostei de ler, então foi algo que me ajudou muito na redação. Além disso, também contribui muito ter referências culturais. Por exemplo, nessa redação eu citei a Bíblia, e em outras já citei filmes, desenhos, diversos assuntos relacionados à nossa cultura”, explicou ela.
Dos mais de 2,7 milhões de alunos que realizaram essa prova, o número de pessoas que garantiram a pontuação máxima na dissertação foi bem menor do que a do ano anterior. Na edição de 2019, 53 estudantes obtiveram nota mil, enquanto este ano foram apenas 28.
Outra informação do Inep revela que a média nesta redação foi de 588,74 pontos, no ano passado, no entanto, foi de 592,90. Chama a atenção também que 87.567 candidatos, em torno de 3,22%, zeraram essa etapa em 2020.
Segundo profissionais da área da educação, o fato de as escolas terem precisado oferecer ensino à distância foi crucial para a diminuição do aproveitamento dos estudantes no exame. Isso torna o feito de Gabriela ainda mais gratificante para ela e para seus parentes.
A moça concluiu o Ensino Médio em dezembro de 2020 tendo que se adaptar às aulas remotas, assim como todos os demais jovens. Estudando em rede particular de ensino, no Colégio Lato Sensu, Gabriela falou sobre as dificuldades do estudo online. A principal delas foi manter o foco durante as horas de estudo integral.
“Tem assuntos que você vê por duas horas, e é suficiente. Tem matérias que você precisa passar dias estudando. Sempre prezei muito pela qualidade e não pela quantidade. Em alguns dias tinha aula integral e também aos sábados. Fora da sala de aula, eu estudava quando sobrava tempo”, declarou ela ao G1.
O seu incentivo para não desistir da conquista veio a partir da sua família. “Me inspiro muito na minha avó. Ficou viúva muito cedo, criou e cuidou de dois filhos sozinha. Muitos acharam que ela não iria conseguir, mas ela provou que estavam errados. Colocou os filhos em uma escola boa. Sempre teve que trabalhar muito, mas nunca deixou de ser presente”, disse.
Outro importante obstáculo superado foi o isolamento, estar distante dos colegas e do ambiente de sala. “Esse ano foi bem diferente. Sempre passei muito tempo na escola, na aula ou na biblioteca, praticamente o dia todo. Ficar e estudar em casa foi sair da zona de conforto, desafiador. Senti falta de interação humana, além de ter que ficar o dia todo no computador, estudando. É bem diferente do estudo presencial”, comentou.
Ela está entre os estudantes que não desistiram do Enem 2020. Dos 5.893.369 inscritos, mais da metade (55,3%) não compareceu no primeiro dia de prova. Este é o maior índice de abstenção em todas as aplicações do exame. Somente no Amazonas, onde Gabriela vive, quase 70% dos registrados, cerca de 111 mil pessoas, estavam ausentes.
Apesar dos inúmeros motivos para não ter sucesso nesta fase de sua vida, assim como outros milhões de estudantes, o objetivo inicial de Gabriela está concluído. Filha de um administrador e uma médica, a jovem quer seguir os mesmos passos da mãe.
Toda a sua preparação valeu a pena e agora ela espera garantir uma vaga para cursar medicina. Não desistir faz parte do seu DNA, como aprendeu com a família e, principalmente, com a avó: “Ela é minha melhor amiga, me ensinou a nunca desistir. E foi nela que sempre me inspirei”, finaliza.