Dados do Censo de 2010, o último disponível, mostram que a quantidade de evangélicos no Brasil chegou a 22,2% do total de brasileiros (42,3 milhões de pessoas), um salto considerável em relação ao levantamento anterior, em que aqueles que alegavam professar a fé evangélica eram 15,4% da população nacional (26,2 milhões de pessoas). 

Segundo levantamento da Receita Federal divulgado pelo jornal O Globo, entre 2010 e 2017, foram registradas 25 organizações religiosas (de todos os credos) por dia no Brasil. O número equivale a mais de uma por hora. 

Mas será que este crescimento numérico também tem significado um aumento no impacto que elas causam nas comunidades ao redor dos templos? Infelizmente, nem sempre. É cada vez mais comum vermos igrejas ricas preocupadas com o envio de missionários para outras nações — o que é importante — mas com pouco ou nenhum engajamento com a vizinhança, às vezes composta por comunidades tão ou mais carentes que alguns países.

O que tem travado o engajamento da igreja com a comunidade local?

Para o pastor Tiago Guedes, da igreja A Ponte, de Belo Horizonte, que atua desde os 15 anos com iniciativas de mobilização social em comunidades locais, o grande desafio reside na “mentalidade fechada” da igreja, que muitas vezes “não está aberta ao diálogo com ninguém”.

Pastor Tiago Guedes (arquivo pessoal)

“Eu falo por mim, tenho 21 anos de cristão. Eu fui ensinado sobre Salmos 1, “não ande na roda dos escarnecedores”, a não estar com o não crente. E isso afeta, também, o engajamento da igreja local com o seu bairro. Então ela não dialoga com a escola pública, com os comércios, com as ações da Prefeitura na região, ela não dialoga com ninguém. Ela acha que isso é ser amigo do mundo. Isso não é ser amigo do mundo. Na verdade, [isso faz com que] ela não tenha o respeito [da comunidade exterior], o diálogo com as esferas de fora”, afirma o pastor.

A importância da estratégia para estabelecer pontes e estreitar relacionamentos

“Diálogo”,é uma palavra bastante presente no vocabulário do pastor, que afirma que a dificuldade de interação com a comunidade ao redor é um problema que independe de classe econômica. “Há igrejas nas favelas que não dialogam com as comunidades, e há igrejas de classe média alta que também são fechadas, não têm nenhuma estratégia, nenhuma ação que busca servir, dialogar com sua região, com pessoas de outros credos que ficam ali ao redor”, explica Tiago. 

Hoje integrando o corpo pastoral de uma igreja plantada no Castelo, bairro nobre da capital mineira que abriga moradores de classe média alta, Tiago diz que as ações práticas ajudam a construir as bases e abrir pontes para que se iniciem as conversas. “A gente quer que a pregação do Evangelho seja nessa relação de conhecidos, não de estranhos”. Isso, segundo Tiago, gera melhores resultados no final.

Mas, para começar a agir, é preciso pesquisar. Conhecer a região para saber a melhor forma de contribuir. “Eu fiz uma pesquisa do bairro, na internet mesmo. [Busquei a] faixa etária, fui à Regional pedir mais informações, pesquisei quantas escolas, se tem um CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), onde estão os públicos mais vulneráveis… fiz um mapeamento da região para podermos ter uma ideia”.

Quais iniciativas podem ser implementadas para aproximar mais a igreja de suas comunidades locais?

Tendo em seu currículo a liderança de ações de impacto como o “Cores do Morro”, projeto que pintou mais de 500 casas da comunidade Pedreira Prado Lopes, a mais antiga favela da capital mineira, e a fundação do Ministério Inconformados, que depois virou ONG, Tiago considera que a forma de iniciar a transformação deste cenário é por meio da educação. “O ensino é a melhor maneira de trazer pra igreja o entendimento de ser sal, de ser luz, dialogando com outras esferas da sociedade”, afirma. 

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“Cores do Morro”, projeto que pintou mais de 500 casas da comunidade Pedreira Prado Lopes

Para além disso, é importante entender as ações práticas que podem ser feitas em sua região, entender a dinâmica da sociedade ao redor e como fazê-los enxergar a igreja como um aliado do bairro. 

Entre as iniciativas pensadas para o Castelo estão a abertura do prédio d’A Ponte para ações como campanhas de doação de sangue, a criação de um espaço de coworking, o engajamento com empresários locais, entre outros.

Os três pilares para o início da transformação no relacionamento local

O pastor elenca três pontos “muito importantes” para o engajamento da igreja com a comunidade local:

1 – Paixão por vidas: 

“Precisamos ter compaixão pelas pessoas em volta, entender que elas precisam de Jesus. Não podemos cobrar atitudes cristãs do não-cristão”;

2 – Inconformismo: 

“Temos que ser inconformados com a questão de ver pessoas não conhecendo Jesus”;

3 – Serviço: 

“Jesus veio para servir, então eu também vou. Seja de maneira social, seja criando ações que possam servir às pessoas de maneira diversa, ou seja pregando o evangelho”.

Por fim, o pastor deixa uma dica para quem quer melhorar o relacionamento de sua igreja local com a comunidade ao redor: “A gente nunca pode perder o propósito principal: glorificar a Deus fazendo discípulos semelhantes a Jesus. Então tudo isso tem um propósito: fazer com que pessoas conheçam a Jesus e possam servi-lo a partir dali”, conclui.