Tão complexo quanto importante, o debate a respeito do que é a verdadeira definição de feminilidade bíblica tem crescido e ganhado cada vez mais espaço, principalmente com o apoio de perfis influentes nas redes sociais. 

Se antes havia um certo “consenso” sobre o assunto, ou, ao menos, parecia haver com uma profusão de pregações e eventos com temas muito similares, mesmo em contextos diferentes, vozes como a da escritora Francine Veríssimo Walsh, de 29 anos, surgem para mostrar que ainda há o que conversar a respeito, principalmente com um olhar voltado para a realidade das mulheres brasileiras. 

No caso de Francine, que é “psicopedagoga por formação e escritora por vocação”, como ela mesma diz, a contribuição para o debate acontece em diferentes frentes: em seu Instagram, onde atraiu quase 35 mil seguidores; no blog do ministério do qual é líder, o Graça em Flor, compartilhado com outras 9 voluntárias; e, mais recentemente, no livro “Ela à Imagem Dele”. 

livro ela a imagem dele

Ao falar da obra lançada em março, ela conta que evitava tratar do tema por considerar que havia uma “saturação” de ensino sobre o que significa ser mulher.
“Mas, por ter visto, nos últimos anos, um levantar de um discurso preocupante sobre o que significa a feminilidade bíblica, eu pensei que estava na hora da gente escrever sobre isso de uma perspectiva vinda de uma brasileira para outras brasileiras. Infelizmente, acho que 98% daquilo que a gente consome como mulheres cristãs reformadas no Brasil vem de livros norte-americanos ou europeus, e eu acho que a gente precisava trazer um pouco da realidade brasileira para essa discussão. A Bíblia é a mesma, claro, pras americanas e para as brasileiras, mas o contexto no qual ela será aplicada, ou seja, a forma como a gente vai ter essa sabedoria de aplicar a Bíblia é diferente”, diz a autora, que ainda afirma que a mudança de percepção também se completou com a chegada da filha, Vesper, hoje com dois anos.

“Assim que eu soube que eu estava grávida de uma menina, eu senti esse peso, essa necessidade de não mais só entender o que significa ser mulher, mas entender porque eu sou como eu sou, o que significa exatamente ser uma mulher e o que significa ser uma mulher que segue a Cristo, para que eu pudesse ensinar a ela também. A esperança é que, nesse livro, eu possa ensinar novamente a minha filha e também às próximas gerações”, completa.

Nesta entrevista, Francine se aprofunda um pouco mais sobre o tema feminilidade bíblica, fala do seu livro e muito mais. Confira!

RC: Como definir feminilidade do ponto de vista cristão/bíblico?

FVW: Eu sempre digo que a forma resumida de definir feminilidade é aquilo que eu tentei colocar no título do meu livro: “Ela à imagem Dele”. A mulher é aquela que foi criada à imagem de Deus junto com o homem. Ela não foi criada à imagem do homem, ela não é menos que o homem, ela tem apenas um papel diferente do homem. E a gente vê que o próprio Deus, ali em Gênesis, escolheu mostrar, Ele escolheu escrever as palavras de maneira que dissesse “ela à imagem dele”, né? Do que dissesse: “a mulher e o homem, o homem e a mulher os criou”. É isso que a mulher é.

feminilidade bíblica - mulher apontando e olhando para cima

A feminilidade bíblica pra mim… a gente tem muitas especificidades, né? A gente sabe que tem as especificidades em relação ao papel da mulher, e eu trago muito disso no meu livro. Mas quem é a mulher em essência? Acho que a melhor forma de definir é que ela é feita à imagem de Deus assim como o homem. Então, eu digo no meu livro que nós tivemos um começo glorioso, criadas a imagem de Deus; nós tivemos um meio trágico, que foi quando nós caímos com o homem e tivemos a queda; mas nós somos redimidas em Cristo! Nós temos um meio esperançoso, nós somos redimidas em Cristo – aquelas de nós que estão em Cristo, e nós temos com os homens o futuro esperançoso e glorioso de sermos a noiva de Cristo. 

Então, é muito simples a gente falar que “a verdadeira feminilidade é a da mulher que fica em casa”, ou é “a mulher que usa tal roupa”, ou é “a mulher que faz tal trabalho”, ou é “a mulher que faz e que fala de certa forma”, ou que “age de certa forma”. A verdadeira feminilidade é nós reconhecermos que somos feitas à imagem de Deus e que nós somos — junto com os homens — chamadas a glorificá-Lo em tudo que a gente faz.

RC: Feminilidade tem a ver com “ser feminina”? Por quê?

FVW: Eu acho que depende de nossa definição de ser feminina, né? Talvez, quando a gente pensa em ser feminina, pensamos exatamente naquilo que eu tenho chamado de “feminilidade exclusiva”. Temos a imagem de “rosa e saia e delicadeza e tranquilidade”, e eu acho que tudo isso é estética, personalidade, que nada disso tem a ver com o que realmente é a essência da feminilidade, e é isso que eu tento trazer no meu livro. Eu acho que a feminilidade tem a ver com muito mais, muito além desse padrão estético. Tem a ver com essência, com caráter, com o espírito e com quem nós somos em Cristo — e não com aquilo que nós vestimos ou os nossos papéis. Isso faz parte de quem nós somos como mulheres, faz parte da feminilidade, mas não é a essência. Então sim, creio que tem a ver com o ser feminina, mas a gente precisa repensar a nossa definição do que significa ser feminina.

RC: Há muito ruído quando se fala de feminilidade (diferentes definições, pontos de vista até conflitantes) que, às vezes, podem confundir as pessoas. Porque você acha que isso acontece e como a mulher pode evitar ser confundida neste sentido?

FVW: Eu acho que a gente tem muita quantidade de falas sobre feminilidade, mas não muita qualidade. Falamos muito sobre feminilidade, mas pouco sobre o que ela realmente é, ou, de certa forma, nós temos afunilado isso. A mulher cristã não precisa aprender só o que significa ser mulher. Porque se a gente for ver páginas ou conferências para homens, eles vão estudar doutrinas. Em conferências para homens a gente vai ver Trindade, Cristologia, Eclesiologia, Escatologia… e aí a gente vai para conferências de mulheres, e é “mulher de Provérbios 31”, “feminismo”, “como combater o feminismo”, “como ser uma mulher melhor”… então eu acho que muito se fala sobre a feminilidade, inclusive é a única coisa, muitas vezes, que a gente fala pras mulheres, que a gente ensina às mulheres no contexto de teologia. Mas, dentro desse muito falar sobre feminilidade, há um afunilamento sobre o que ela realmente é. A gente não se aprofunda, não vai para além daqueles textos que eu chamo de “Bíblia Rosa”, que são os “textos básicos”, como Provérbios 31, Tito 2 e I Timóteo 2, que falam diretamente com a mulher e sobre a mulher. Então, eu acho que é por isso que a gente tem se confundido. Temos falado muito sobre a temática, mas ido pouco à Bíblia e olhado para ela como um texto coeso, sobre um Deus coeso e que vai de Gênesis a Apocalipse — não só certas passagens sobre a mulher. Se a gente vai além dessas passagens específicas, vemos que há muito mais que a gente precisa falar sobre feminilidade, e é exatamente isso que eu quis dizer e trazer no meu livro. 

feminilidade bíblica - mulher orando sobre a bíblia

RC: Em seu Instagram você falou de um termo, “Feminilidade Açucarada”. Gostaria que, se possível, você nos explicasse um pouco melhor o que seria isso. 

FVW: Em 2019, na verdade acho que foi em 2018, talvez, não sei exatamente, eu li um artigo sobre o filme Capitã Marvel. Era um artigo de um ministério muito grande aqui nos Estados Unidos, e eles falavam sobre o filme “Capitã Marvel”, mas eles falavam mais sobre a questão da feminilidade, o que significa ser mulher. Eles usavam esse filme para falar o que ser mulher não deveria ser. E aí o autor dizia que ele era nostálgico da época em que as mulheres cristãs viam como exemplo a Bela Adormecida e não a Capitã Marvel (e inclusive é um artigo que foi editado e não está mais na internet da forma como ele estava naquela época). Eu me lembro que eu fiquei muito confusa na época, e muito, de certa forma, desapontada com a forma como eles estavam representando a feminilidade. Como se o ideal para nós, mulheres cristãs, fosse sermos as donzelas indefesas, esperando o príncipe encantado que nem seria Cristo, seria um homem mesmo, que viria ser nosso marido e resolver nossa vida. E quando eu olhava pras mulheres da Bíblia, as mulheres que são louvadas na Bíblia, eu não encontrava “belas adormecidas”. 

Nessa época eu escrevi um artigo chamado “Nem Feminismo nem Feminilidade Açucarada — Deixe-me ser verdadeiramente mulher”. E, na época, eu usei o termo “feminilidade açucarada” como essa feminilidade nostálgica, de uma época em que as mulheres eram donzelas indefesas, e eu dizia: “não é isso que eu vejo na Bíblia”! Só que acabou que eu mesma julguei que o termo não era completamente correto, e, de certa forma, ele até foi ofensivo para algumas irmãs, que julgaram que eu estava condenando uma certa estética ao invés de um certo estilo de vida, ou uma visão de feminilidade. Elas acharam que eu estava falando que qualquer mulher que tem um estilo mais feminino é uma feminilidade açucarada. Por isso que, no meu livro, eu até mudei o termo para “feminidade exclusiva”, porque eu penso que o termo “exclusivo” explica melhor o que eu quis dizer, que é: quando a gente cria uma feminilidade que é um padrãozinho, que é uma forma e diz: “a não ser que você se encaixe nessa forma, você não sendo uma mulher segundo o coração de Deus, você não está sendo ‘femininamente bíblica’, você não está vivendo a sua feminilidade bíblica”, nós excluímos as nossas irmãs, né? Quando a gente diz que a “feminilidade bíblica” é a mulher casada, mãe de vários filhos, “home schooler” [adepta da educação domiciliar dos filhos], que se veste de certa forma, que age de certa forma, que fica em casa em tempo integral, a gente exclui muitas irmãs, especialmente no contexto brasileiro, em que nós temos muitas solteiras, viúvas, mãe sós, mulheres que precisam trabalhar. É por isso que eu chamei isso de “feminilidade exclusiva”, ou seja, está excluindo aquelas mulheres que não se encaixam nesse padrão”.

RC: Como homens se encaixam nesta discussão? O que eles podem fazer para contribuir e ajudar a melhorar o cenário cada vez mais?

FVW: Eu acho que os homens precisam entender, em primeiro lugar, que as mulheres não estão abaixo deles em nenhum ponto. Nenhum ponto. Nós não somos menos que os homens em nada, e isso não é feminismo. Isso é Bíblia, né? Quando a gente vê quem é a mulher em Deus, quem é a mulher em Cristo, ela não está em nenhum por cento abaixo do homem, muito pelo contrário, nós estamos ali, em pé de igualdade diante da Cruz. Eu acho que os homens já se encaixam nessa discussão e já contribuem muito, a partir do momento em que eles reconhecem isso e que as diferenças que nós temos são de papéis e não de quem nós somos ontologicamente. Nós somos tão igualmente à imagem de Deus e  necessitadas de Cristo. 

Nós somos diferentes e há diferenças entre os sexos, e eu falo isso no meu livro, mas eu acho que a gente precisa começar nas discussões cristãs, talvez porque tem existido um foco tão grande nas diferenças entre os sexos, a buscar um pouco do outro lado e focar um pouco mais na nossa igualdade, isso já ajudaria muito. E também entender que as mulheres têm muito a dizer, a ensinar. Para além do pastorado feminino, que eu acredito ser antibíblico, eu acho que a mulher tem muito a ensinar aos homens, e que não é pecado a mulher ensinar o homem. Então, estar disposto a aprender com as mulheres e das mulheres, e estar disposto a ensinar as mulheres como Cristo fez. Teologia robusta, não somente “teologia feminina”, por assim dizer, e dar espaço às mulheres para aprender e para ensinar teologia robusta. Eu acho que isso já ajudaria muito. 

feminilidade bíblica - mulher sentada com a bíblia no colo

RC: Você tem dito que o livro trata da feminilidade de uma forma que a “teologia brasileira não está acostumada”. O que isso quer dizer? 

FVW: Eu acho que é justamente porque eu não trago esse recorte da “Bíblia Rosa” e não falo só sobre Provérbios 31, ou o que significa ser uma boa esposa e boa mãe. Na verdade, apenas dois capítulos dos dez do livro são sobre casamento e maternidade, os outros oito são para qualquer mulher. Inclusive os capítulos sobre casamento e maternidade, que são válidos para quem não é casada ou mãe, por causa da proposta geral do livro que é trazer o entendimento sobre o caráter de Deus e depois sobre um assunto. 

Por exemplo, o capítulo sobre maternidade se chama “Deus de vida e a maternidade”. Eu acho que vale para todas as mulheres e homens, para compreender e entender mais sobre esse Deus de vida. O bacana sobre esse livro é isso, eu trago essa diferenciação no sentido de que eu começo falando sobre quem Deus é, Deus de redenção, Deus de aliança e a partir disso, eu falo sobre casamento, feminismo, solteirice, sexualidade, abuso, enfim. Eu acho que isso é diferente, não é algo que eu já tenha visto na teologia brasileira. 

Em conclusão, Francine deixa uma mensagem para as mulheres.

“As mulheres precisam voltar seus olhos para Cristo. A minha grande proposta nesse livro é dizer que eu acho que a gente tem não compreendido quem nós somos como mulheres, e que temos tido esses problemas nas nossas definições de feminilidade, não porque nós precisamos voltar mais os olhos para nós e entender quem nós somos, mas porque a gente precisa voltar mais os nossos olhos para Deus e entender quem Ele é. A partir disso, entenderemos quem somos e o mundo ao nosso redor. Então, o meu grande desejo é que as mulheres do Brasil voltem seus olhos para Cristo, para quem é o Deus que as criou mulheres, para que elas entendam que elas não precisam de nada nem ninguém além dele para completá-las e para fazê-las sentirem-se amadas e dignas”, finaliza.