Uma das maiores mentiras que o inimigo conta para a humanidade e que, por mais estranho que pareça, possui uma forte adesão, é que fé e ciência estão em cantos opostos de um ringue, prontas a batalhar por qualquer “pedacinho de chão” onde possa existir alguma dúvida sobre qual prisma deve ser usado para analisar a realidade.

Para Gustavo Assi, que é doutor em engenharia aeronáutica, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), cristão presbiteriano e membro da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²), não há uma oposição fundamental a nível conceitual entre os dois campos. Ciência e fé seriam, em sua visão, complementares: enquanto a primeira é uma ferramenta dada por Deus para que os homens entendam mais a respeito do mundo natural, o “como”. Já a segunda tem como objetivo explicar o propósito, o “por quê”.

“Neste sentido, elas [fé e ciência] não estão em oposição porque explicam coisas diferentes, coisas complementares da realidade em que a gente vive. Elas não são competidoras em tipos de explicação. Agora, você tem que pensar também que as verdades reveladas de Deus para nós, sejam reveladas no campo científico ou no teológico, têm a mesma fonte de revelação, que é o autor de toda a verdade, o próprio Deus”, afirma.

fé ciência - Gustavo Assi
Gustavo Assi – Foto: Arquivo pessoal

Na analogia de Gustavo, a humanidade seria, então, como leitora de dois livros deixados por Deus: o livro da revelação geral (natureza) e o da revelação especial (a Bíblia).

“E na nossa experiência de leitores imperfeitos, nós vamos encontrar momentos em que os dois campos, os dois livros, parecem estar em contradição, em oposição, mas aí repare, não é um problema do autor nem do livro, é um problema do leitor — nós não sabemos ler direito ainda os dois livros —, porque estamos desenvolvendo o empreendimento de leitura que é fazer ciência e fazer boa teologia”, explica. 

O surgimento da ideia de rixa entre fé e ciência

É possível, então, compreender que um dos motivos pelos quais surgiu essa ideia de que há uma oposição entre fé e ciência foi por nossa própria confusão na compreensão dos dois campos:

“No passado, alguns eventos históricos mal compreendidos no seu tempo cristalizaram na igreja o mito de que há um conflito entre fé e ciência. Quando você lê a história de Galileu Galilei, a do próprio [Isaac] Newton, do [Albert] Einstein, do Bóson de Higgs [também conhecida popularmente como “partícula de Deus”], para não falar dos clássicos, né? Charles Darwin e a teoria da evolução e a teoria do Big Bang. Todos esses eventos mostraram pontos de interseção da nossa compreensão do mundo. Eles instigaram um certo pensamento, uma certa reflexão na maneira como nós interpretamos o mundo natural a partir da ótica da ciência e como nós interpretamos o propósito da realidade a partir das explicações religiosas. Agora, esses eventos mal compreendidos e maltratados nas suas épocas foram cristalizando o mito de que existe um conflito entre fé e ciência dentro da igreja”, diz o professor, que prossegue explicando que outros fatores também motivaram a perpetuação dessa visão de conflito, citando pecados como o orgulho:

“Muitas igrejas mergulharam nessa ideia de conflito achando que estavam defendendo a fé de uma ameaça externa, mas isso é um erro que acontece justamente por não entender como a ciência pode enriquecer a fé do cristão quando nos revela verdades de Deus no mundo natural”, diz o professor, que prossegue fazendo uma leitura sobre a posição de  instituições religiosas:

“Muitas igrejas ainda vivem a necessidade do mito, ou seja, querem que tenha um conflito entre fé e ciência, porque querem defender uma única visão ou interpretação das escrituras, e ela [essa visão de mundo] se faz contraditória à compreensão científica. Então, para essas igrejas é melhor achar que tem um conflito do que resolver, ou pensar um pouquinho mais e resolver, o seu próprio conflito no campo da teologia ou da filosofia”, complementa. 

Este medo de uma eventual ‘ameaça externa’ também seria visto na academia, ambiente que Gustavo conhece muito bem.

“Para um cientista naturalista, que só acredita no natural, reconhecer que existam verdades que venham do sobrenatural é um passo muito grande, é um passo de fé e ele não quer reconhecer algo que lhe requeira fé. Entendeu a ideia? Então, a comunidade científica também cristalizou uma separação entre fé e ciência como se as duas fossem antagônicas. Eu não quero ouvir o que a religião tem a dizer porque eu entendo que ela não tem nada de verdade para me dizer. Essa, às vezes, é a posição da academia secular. Então, hoje nós temos um trabalho que é de desconstrução de mitos tanto dentro da igreja quanto na academia secular”, explica.

O problema da educação no Brasil

Vivemos em um país, porém, em que mais de 11 milhões de pessoas são analfabetas  (dados de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE) e, para piorar, 29% seriam analfabetas funcionais (pessoas incapazes de, mesmo sabendo ler, compreender e interpretar textos e ideias e fazer operações matemáticas). Ou seja, somos uma pátria na qual falta um nível básico de educação para que as pessoas consigam relacionar temas complexos como a fé e a ciência.

Gustavo reconhece o cenário e afirma acreditar que os baixos índices educacionais impactam sim na interação da fé e da ciência e aponta que os cristãos precisam de um “tratamento especial”, já que serão os responsáveis por relacionar os campos de suas experiências de fé e científicas.   

O professor ainda acrescenta um outro resultado dessa baixa literacia do brasileiro: a tendência a atribuir tudo a crenças supersticiosas, com um padrão de pensamento traduzido pela frase “as coisas que eu não entendo como funcionam devem ser sobrenaturais”. O professor, porém, vê isso como uma oportunidade para que o povo seja educado também em relação à fé e à ciência. 

“Eu creio que nós temos uma missão aí, os educadores, por exemplo, de dar boa base científica para população, para que problemas de má compreensão científica não se escancarem. Por exemplo, o que a gente viu recentemente em fake news, negacionismo científico e bobagens sendo disseminadas nas redes sociais por conta das vacinas da pandemia é um negócio avassalador. É chocante ver quanta bobagem científica é dita num momento em que a própria ciência da imunologia estava sendo questionada. Isso mostra um despreparo nosso, né?”, afirma o professor, para quem o caminho da mudança pode começar a ser trilhado de dentro para fora das igrejas. 

“Lógico que as gerações atuais estão cada vez com mais acesso a universidade, mais acesso ao conhecimento científico, só que a gente precisa, dentro das nossas igrejas, preparar os jovens, os adolescentes principalmente, para considerarem carreiras científicas, o desenvolvimento tecnológico como algo natural e bom para o cristão fazer. Ciência não é coisa do diabo. Precisamos desestigmatizar o campo científico dentro da igreja e estimular que jovens desenvolvam seu conhecimento científico na certeza de que isso glorifica a Deus e é o seu serviço, é o seu ministério no reino”, completa. 

Como estimular o diálogo entre fé e ciência nas igrejas?

Gustavo elenca três frentes de trabalho que devem ser exploradas pelas igrejas que têm a intenção de fortalecer a dinâmica relacional entre fé e ciência em suas atividades. A primeira delas seria resgatar o que ele chama de “uma boa teologia da natureza”, que é trabalhar bem a forma como o cristão enxerga o mundo natural, “que não é ruim, é uma criação de Deus que sofre as consequências do pecado”.

“Eu acho que muitas igrejas falham ao não saberem como construir uma teologia da natureza. Por exemplo, elas apelam para a criação como se fosse algo mítico ou apenas uma história, algo que ficou lá no passado, e não entendem que o nosso relacionamento com a criação é contínuo, constante e é um relacionamento de co-criadores. O homem foi feito para governar a criação em nome de Deus, representando o próprio Deus na Terra, mas também para transformar, cultivar e guardar o jardim onde Deus o colocou”, afirma o professor, que defende que esse trabalho seja feito já com as crianças. 

“Temos que passar daquele ponto de só contar a história da criação do Éden. Ir além e mostrar como é que a gente se relaciona com o mundo natural hoje. Quando a gente vai colocar gasolina no carro, quando vai escolher se compra um forno elétrico ou a gás para casa. Se vou plantar uma árvore ou alface no jardim de casa. Tudo isso nos leva a refletir sobre a natureza, sobre o mundo natural que Deus nos deu”. 

O segundo ponto seria a já abordada desmistificação de conflitos, explicando que o relacionamento entre fé e ciência não reside só nos pontos conflituosos.

“Se a gente ficar habitando só nas polêmicas, achando que interação entre fé e ciência é dar alguns pitacos entre teoria da evolução e big bang, a gente errou no diagnóstico. Então, fazer uma boa interação entre fé e ciência é descobrir o que está lá no fundo desse iceberg. […] Tem que dar pra igreja a noção de que interação entre fé e ciência é algo muito mais profundo, que está na essência do nosso relacionamento com a natureza diante da face do criador”, diz. 

O terceiro ponto, segundo o professor, é treinar pessoas. Afinal, é uma área que requer conhecimentos dos campos científico e teológico e, muitas vezes, os pastores não têm preparo para isso.

“Eu falo que é um ministério de tradução, que consiga articular a linguagem tanto do campo científico quanto do campo teológico, que consiga instruir a igreja e, principalmente, as próximas gerações. Meu foco está nas crianças e adolescentes, para que eles cresçam com uma base sólida de interação entre fé e ciência e não venham a ter problemas no futuro”, explica. 

O caminho errado para tratar fé e ciência

Pudemos perceber que a tarefa não é fácil e, como tal, exige muito cuidado dos envolvidos para que não caiam em um caminho errado. Gustavo explica o que seria isso:

“O caminho errado, na minha opinião, é não falar do assunto ou, quando falar, falar apenas de debates, conflitos ou guerras, como se os dois campos estivessem apenas em antagonismo de forças, evidenciando, por exemplo, as grandes polêmicas. Que não tem solução e tal. E terceiro ponto, às vezes dar a carteirada ou a lacração, né? Dizer ‘não, meu querido, olha aqui, eu já ouvi esse assunto tá bom? Não pensa mais nisso não’. Isso desestimula uma reflexão crítica na interação dos dois campos lacrando o assunto como se ele já tivesse todas as respostas ou já não houvesse mais nada pra gente investigar”, finaliza.

Lidando bem com a interseção entre fé e ciência

Existem várias formas para explorar ao máximo a interseção entre os dois pólos, mas o ponto de partida é um só: não olhar para a Bíblia buscando que ela traga revelações científicas que a própria ciência moderna ainda não tem condições de descobrir.

Gustavo explica que este não é o objetivo das escrituras, seria um erro de leitura. O professor aponta que Deus utiliza os conhecimentos científicos disponíveis para a sociedade que recebeu os primeiros escritos de forma que aquelas pessoas pudessem compreender exatamente a mensagem que deveria ser passada.

Mesmo que esse conhecimento de ciência dos nossos antepassados contivesse eventuais erros científicos, Deus não estava preocupado com isso. Estava preocupado com algo muito diferente.

“Quem vai nos informar se a água é H2O não é a bíblia. É a ciência. E não tem nada de errado nisso, porque isso não é uma oposição ou um desafio à escritura. Agora, olhar para a escritura e reconhecer que há conhecimento científico incipiente de um povo da antiguidade usado no texto é natural. Olhar para a escritura e perceber que existem erros científicos de um povo daquela época também é natural, isso não atrapalha e nem desqualifica a verdade do texto.

Por exemplo, o povo daquela época achava que a terra era plana, tinha bordas finitas e tinha um domo cristalino sobre ela, o firmamento, algo rígido onde as estrelas ficavam cravejadas e o sol passava, girava em volta da terra. Ora, essa era a visão do cosmos da época. E a Bíblia usa essa visão para revelar verdades do criador.

Ela não vai explicar pro povo da antiguidade que a Terra é que gira em volta do sol, que a Terra é um planeta no meio dum sistema solar, que é uma esfera. Não vai falar isso. A Bíblia não fala essas verdades [científicas] que a gente conhece como verdades hoje. Mas ela usa uma visão científica da época, que hoje a gente sabe que está errada, para revelar verdades eternas que sempre estiveram corretas, ou seja, Deus é o criador, é o governador desse cosmos. Não importa como você, ser humano limitado, ainda o compreenda, mas é Deus que é o Senhor”, completa. 

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