A educação tem sido pauta em diversas discussões nesse momento de pandemia. Afinal, qual impacto o acesso desmedido às informações vindas da internet ou a falta da metodologia de educação formal, em sala de aula, podemos esperar do isolamento?

A preocupação interessa às frentes envolvidas com a educação no Brasil, porque a busca pelo conhecimento é um aspecto fundamental para o desenvolvimento do próprio ser humano. A educação que o homem recebe reflete diretamente na sua capacidade de se relacionar, de interpretar informações e lidar com suas emoções. Além disso, a educação nos ajuda a ter senso crítico para a tomada de decisão e nos leva para uma jornada profissional.

Não temos dúvidas de que a educação é um dos principais alicerces para a vida de uma pessoa. Para refletirmos sobre isso, conversamos com o pastor Igor Miguel sobre o assunto. Ele é cristão, teólogo, pedagogo e mestre em letras (língua hebraica) pela FFLCH/USP. Trabalhou por 6 anos com crianças e adolescentes vulneráveis como educador e consultor educacional em projetos sociais.

“Educar não é uma tarefa de uma única instituição, mas de vários contextos formativos e agente educadores.”
Igor Miguel

Ele nos contou que foi para a graduação em pedagogia sob uma inquietação muito objetiva: como alunos podem aprender mais e melhor? Como a inteligência funciona? Inteligência, isto é, desempenho cognitivo é herdado ou pode ser desenvolvido? Como crianças, adolescentes e jovens, com baixo desempenho intelectual, podem ser conduzidos a terem maior desenvoltura na aprendizagem? A partir daí, a jornada de Igor Miguel na educação tem sido cada vez mais produtiva e profunda.

REVISTA CRISTÃ – Para você, qual o papel da educação na construção do indivíduo?
IGOR MIGUEL – A educação exige um sujeito socioculturalmente dependente, isto é, diferente dos animais, seres humanos são mais dependentes de relações e de uma tradição cultural do que de instintos biológicos. Há um certo inacabamento que exige relações formativas e certa transmissão cultural de modo que o ser humano floresça e se desenvolva. Neste sentido, educar implica em um tipo de relação e interação inter-humana em que um indivíduo adquire conhecimento, competências, saberes, valores e habilidades que o dignificam e ampliam sua condição humana. Sob o ponto de vista do cristianismo, educar é promover interações formativas que conduzem o indivíduo a seu destino que é Jesus Cristo, o paradigma de nova humanidade. Por isso, educar não é uma tarefa de uma única instituição, mas de vários contextos formativos e agente educadores. Família, escola, igreja, organizações, agremiações humanas, organizações políticas, comunidades e formações livres, todos cooperam, em níveis e a partir de conteúdo específicos para alguma dimensão da vida humana.

RC – De que forma, então, a educação formal (escolas e universidades) influencia na formação de uma pessoa?
IGOR – A educação formal deve ser entendida aqui como um programa de formação baseado em conteúdos culturais que preparam a pessoa para a vida cultural, da linguagem científica, o rigor lógico-matemático, domínio de certas tecnologias, consciência histórica e filosófica sobre o mundo. A familiaridade com tais campos é uma exigência para a inserção comunitária em sociedades de alta complexidade e pós-industriais. Tais competências são importantíssimas, pois uma vez que a presença cristã em tais sociedades é essencial, não há como ignorá-las, ao contrário, isto exigirá da comunidade cristã reflexão intencional, inclusive em como integrar a fé cristã a cada um desses campos. Por outro lado, a educação formal concentra-se prioritariamente à dimensão cultural e cognitiva, não sendo sua tarefa primária outros campos de formação humana como: espiritualidade, formação moral, formação política, princípios de convívio em sociedade e virtudes públicas. Daí a necessidade de outros contextos formativos que também estão envolvidos com a educação (em sentido amplo).

“A educação formal concentra-se, prioritariamente, à dimensão cultural e cognitiva, não sendo sua tarefa primária outros campos de formação humana como: espiritualidade, formação moral, formação política, princípios de convívio em sociedade e virtudes públicas.”
Igor Miguel

professora ensinando criança - entrevista igor miguel

RC – E a educação dada pelos pais, ela é importante?
IGOR – Apesar da escola ter recebido muita atenção e ter se naturalizado como instituição detentora da educação, na verdade, acabamos por nos esquecer que a escola é uma invenção cultural relativamente recente. A escola deve ser vista como uma associação de famílias cuja finalidade educacional é complementar à família em temas culturais que nem sempre são de seu domínio. Porém, a escola nunca deve ser vista como substitutiva ao encargo educacional da família, principalmente naqueles temas que não são do escopo da educação formal, por exemplo, a fé, valores espirituais, existenciais e confessionais. De qualquer forma, a família deve sempre procurar a promoção de um ambiente doméstico não apenas espiritual, mas culturalmente rico. Uma casa cercada de boa literatura, boa música, bons filmes, arte e experiências educacionais ricas.

RC – E a igreja, ela soma neste processo de educação?
IGOR – A igreja cristã local tem como tarefa educacional básica oferecer contextos de formação cristã com foco no discipulado, pastoreio, formação catequética, evangelização, formação baseada em ética cristã, consciência missional e missionária, orientação vocacional cristã e promover um ambiente para formação de virtudes. A igreja cristã pode orientar seus membros a procurarem associações e organizações cristãs que trabalham na orientação, formação e agremiação de cristãos em campos específicos como negócios, profissionais de saúde, cientistas, ciências humanas etc. Tal integração, por estarem fora do escopo de obrigações educacionais primárias da igreja, devem ser obtidas em organizações para-eclesiásticas e “think tanks” voltados para campos acadêmicos ou profissionais específicos.

RC – Você cria seu filho em homeschooling, como essa experiência contribui para o desenvolvimento da criança (pais cristãos como educadores)?
IGOR – Uma das grandes vantagens do ensino domiciliar é o poder de customização do ensino. Ele é super personalizado, respeita ritmos, afinidade, linguagem e estilo de aprendizagem do aluno-filho. Por outro lado, fortalece um ambiente de muita confiança entre pai-educador e filho-educando. Os papéis não se fundem, mas se integram. A criança se relaciona com o pai como um discipulador. Por outro lado, o pai-educador tem mais condições de oferecer uma integração entre conteúdos formais e a imaginação cristã. Em grande medida, quero que meu filho não trate a matemática (por exemplo) como um conteúdo formal a ser dominado, mas que ele se maravilhe com a regularidade e os padrões matemáticos, que ele se espante com o comportamento dos números e das proporções geométricas. No fim, a pedagogia em casa vai muito na direção do que chamamos uma pedagogia doxológica, isto é, uma pedagogia que aponta para o maravilhamento e apreciação da glória de Deus na estrutura da realidade criada.

“O pai-educador tem mais condições de oferecer uma integração entre conteúdos formais e a imaginação cristã.”
Igor Miguel

mãe e filho orando - entrevista igor miguel

RC – E a internet, ela chegou para somar ou prejudicar a formação de uma pessoa?
IGOR – Sou muito otimista quanto ao potencial da internet em disponibilizar tecnologias de aprendizagem e conteúdos. A internet é customizável ao usuário. Acredito que a internet é inevitável e necessária ao processo formativo. Na verdade, pais-educadores encontram nela uma enorme ferramenta para promover o autodidatismo de seus filhos. Porém, é importante mencionar, que em grande medida, o trabalho de pais-educadores com seus filhos, em relação ao uso da internet, é ensiná-los a saber usar tal recurso, por exemplo, para fazer uma boa pesquisa, saber checar e verificar a confiabilidade das fontes pesquisadas e assim por diante. Sem dúvida, sempre com a supervisão de um adulto.

“Na verdade, pais-educadores encontram na internet uma enorme ferramenta para promover o autodidatismo de seus filhos.”
Igor Miguel

mãe ensinando criança - entrevista igor miguel

RC – Você acha possível corrigir jornadas prejudicadas pela falta de uma das frentes de formação educacional (educação formal, pais e igreja)? Nos dê dicas.
IGOR – Se alguns desses contextos formativos falham em cumprir seu papel, sem dúvida, isso trará algum tipo de prejuízo para o desenvolvimento dos aprendizes a ele associado. Não penso em um dano, mas em uma pobreza educacional. Neste sentido, um aprendiz que podia ir além, não vai tão longe por alguma falha pedagógica. Por outro lado, dificilmente algumas dessas instituições cumprirá plenamente sua função, este é um risco contínuo. Neste caso, recai sobre a família a responsabilidade de perceber a deficiência e procurar meios para dirimir o problema. Igrejas pobres em fornecer formação cristã naquilo que é sua obrigação, precisam melhorar, do contrário, recomenda-se mesmo que a família procure um outro contexto eclesiástico que forneça tal formação.

A família também pode exigir, amigável e amorosamente da igreja e da escola confessional, maiores responsabilidades, não apenas isso, deve se envolver para a melhoria da educação cristã na escola confessional e/ou na igreja local. Mas no fim, quando a escola (confessional ou não) falha em sua tarefa (em termos ideais) e a igreja local também, sempre recairá sobre a família, em primeira e última instância, a responsabilidade educacional. Neste caso, a família deve criar meios para complementar a educação de seus filhos. Seja contratando tutores educacionais, buscando formação cristã complementar, ou se envolvendo diretamente com o discipulado e a estimulação cultural de seus filhos.

RC – Como nós cristãos podemos usar a educação e seus multiformatos de aplicação para restaurar a vida de uma pessoa – na direção de Cristo e como profissional cristão?
IGOR – Como escrevo em meu livro “A Escola do Messias”, Deus escolheu se autorrevelar por meio de atos e eventos históricos os quais foram registrados em texto. Desde tempos remotos, o povo de Deus é chamado a ler, interpretar, ouvir, narrar e aprender como Deus se revelou. Somos membros de uma fé profundamente educadora e pedagógica. A conformidade do cristão a Cristo acontece a partir desses diversos contextos formativos que Deus, por providência, nos legou. Não tenho dúvida que a igreja e a família têm um papel essencial, e elas têm muito o que contribuir para com escolas confessionais em termos de parceria e integração.

Por outro lado, precisamos recuperar o papel do cristão em contextos ordinários, como o ambiente de trabalho e a academia. Para isso, é necessário, como já disse, encorajar, apoiar e destinar jovens, em formação, para se aproximarem de associações cristãs que agregam e orientam um modo cristão de ser profissional e acadêmico. Cito como exemplo a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência que tem fornecido um contexto de reflexão profunda e criado um ambiente rico de trocas e conhecimento com vistas a integração entre a fé cristã e os diversos campos científicos.