Comumente, pessoas procuram aulas de canto dizendo que só querem cantar para os amigos, eventos de família, na igreja, cantar por lazer e ainda reforçam que não pretendem buscar nada “profissional”.

Mas em algum momento, será que estas pessoas imaginaram qual é a demanda vocal que elas têm ou o que precisam fazer para não lesionar sua laringe ou mesmo prejudicar sua qualidade vocal ao longo do tempo?

Sou Fausto Caetano e hoje, na coluna Voz da Revista Cristã, vou trazer uma reflexão sobre este assunto para todos vocês.

É inegável o fato de que escutar a música que gosta com qualidade sonora é algo extremamente prazeroso, posso afirmar com convicção que ninguém é capaz de discordar disso. Segundo Laura Ferreri, professora da Universidade de Lyon — autora do estudo Dopamine modulates the reward experiences elicited by music, publicado no Proceedings of National Academy of Sciences — um neurotransmissor conhecido como dopamina, desempenha um importante papel no sistema funcional cognitivo (percepção, aprendizagem, memória, atenção, vigilância, raciocínio e solução de problemas), emocional (sistema límbico) e comportamental. Além de influenciar nestes sistemas, a dopamina atua controlando o sistema motor, e a sua deficiência pode comprometer os movimentos do ser humano.

É evidente que ela possui relação direta com a experiência de recompensa induzida pela música, no entanto, alguns cuidados precisam ser tomados quando ouvimos música e, em especial, quando estamos nos apresentando para o público ou mesmo ensaiando.

É fato que nem todos podem gozar de ter à disposição um equipamento profissional na hora de se apresentar. Outro fato é que, muitas vezes, também acreditam que o equipamento profissional visa somente a qualidade sonora e é aí que muitos se enganam, pois os equipamentos também têm o objetivo de proteger o músico de danos físicos.

“Quando não se escuta bem, a tendência de exceder o controle de pressão psicoacústica e exagerar no volume da voz na hora de cantar se faz mais presente.”

Assim como um instrumento deve ser construído de forma ergonômica, com o intuito de trazer mais conforto e menos esforço ao tocar, os cantores precisam cuidar especialmente de seus ouvidos, pois quando não se escuta bem, a tendência de exceder o controle de pressão psicoacústica e exagerar no volume da voz na hora de cantar se faz mais presente.

Já percebeu que ao entrar em um local com muito barulho, imediatamente você começa a falar mais alto? Isso é seu cérebro, por meio da psicoacústica, informando ao seu organismo que é necessário falar mais alto, senão seu ouvinte não conseguirá lhe ouvir e isso torna o cenário do cantor muito mais propenso a compensações musculares e, assim, a desenvolver problemas vocais.

Por falar em cuidados com os ouvidos, o primeiro par de monitores de palco intra auriculares, os chamados In Ear, foram criados em 1995 para o músico Alex Van Halen, baterista da banda norte-americana Van Halen, pelo seu engenheiro de som, que construiu fones a partir de moldes de seu ouvido. Alex precisava minimizar os ruídos em palco e melhorar sua comunicação com os outros membros da banda, para isso, precisava de um equipamento capaz de atenuar o som externo, permitindo-o escutar somente o que lhe fosse transmitido.

Exemplo de monitor in ear

Até poucos anos atrás, fones In Ear eram considerados artigos de luxo para músicos, especialmente os fones moldados, eram símbolo de que o músico tinha atingido um ápice profissional ou conquistado recursos financeiros significativos. Já hoje, devido à sua popularização e aos seus benefícios, eles são parte indispensável do set de equipamentos dos músicos.

Estes fones são capazes de atenuar de 25 a 35 db, conforme o modelo, e podem ser calibrados individualmente, de acordo com a perda auditiva de cada ouvido, tornando a segurança para o ouvido do músico realmente efetiva, ao contrário dos conhecidos retornos de chão.

Se fizermos uma breve comparação entre cantores que têm a música como profissão e são conscientes dos cuidados, cantores profissionais que não se preocupam com cuidados e cantores que cantam por amor e lazer, podemos ter algumas surpresas.

coluna voz - voz e ouvidos

Tomemos como exemplo um cantor que canta música ao vivo em bares ou com sua banda no louvor da igreja e utiliza um aparato técnico básico para se apresentar como: microfone, fone de retorno In Ear, mesa de som (mixer) e caixas amplificadas; outro que, ao invés de utilizar fones In Ear, utiliza retorno de chão; e, por último, um músico que canta em roda com os amigos ou em células da igreja ao ar livre com um violão sem equipamento algum de amplificação, buscando se fazer ouvir com o volume de sua própria voz. Em uma escala, quem está se exigindo mais e aumentando sua demanda na hora de cantar? Se fizermos um ranking de abusos vocais, o músico que canta sem equipamento algum ficará com o 1° lugar, disparadamente. Em 2°, o músico que ainda utiliza o retorno de chão, e em último, o músico que se protege, utilizando fones In Ear.

“Acredite ou não, cantar em alto volume é o maior inimigo da saúde vocal de um cantor.”

Acredite ou não, cantar em alto volume é o maior inimigo da saúde vocal de um cantor. Para cantar mais alto é necessário aumentar a pressão subglótica (apoio) e, consequentemente, o firmamento glótico (contração da musculatura da laringe), aumentando o atrito entre as pregas vocais, fadigando toda a estrutura muito mais rápido.

Atualmente, com a evolução dos equipamentos de palco, a famosa “técnica de afastar o microfone na hora de cantar agudos”, tornou-se um erro técnico. O cantor tem que ser capaz de controlar toda a dinâmica musical e manter o microfone o tempo todo bem próximo à boca. Caso perceba que o volume aumentou demasiadamente, e foi necessário afastar o microfone da boca, é um indício de que estudar mais é necessário.

Algumas dicas importantes para não exceder o volume na hora de cantar:

• Treinar sempre com equipamento de som — microfone e retorno In Ear. Assim, você preserva sua voz e seus ouvidos.
• Manter o microfone colado à boca ou posicionado abaixo do lábio inferior e tentar controlar o volume da voz (dinâmica musical), mesmo nas notas mais agudas, sem tirar o microfone dessa posição.
• Treinar cantando com fones de retorno como o Mind Vox, que proporcionará um retorno de alta fidelidade de sua voz sem a utilização de equipamentos eletrônicos.
• Caso sentir algum desconforto vocal, pare imediatamente e comece a cantar mais baixo, mesmo que seu público não esteja lhe ouvindo bem. Deixe esta tarefa para seu técnico de som… Não se esforce!
• Faça os exames da laringe com seu otorrinolaringologista de confiança ao menos 2 vezes ao ano, mesmo se não apresentar sintomas vocais.
• Faça acompanhamento com um preparador vocal especializado em cantores de alta performance, para adequar as mudanças técnicas de acordo com sua necessidade de repertório e demanda vocal (tempo e quantidade de apresentações).

Tomando esses cuidados, o cantor irá minimizar muito a possibilidade de desenvolver alguma patologia vocal, sendo capaz de exercer sua prática com excelência.

Aí vai outra dica importante: no mês de junho de 2021, a Dra. Carla Bahillo Neves, audiologista, de Belo Horizonte, lançou o e-book “Como escolher os fones de ouvido corretos para não colocar sua audição em risco?”, no site carlabahilloneves.com entre lá e confira!

“Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o teu louvor”. Salmos 51:15