Enfrentando uma guerra há mais de dez anos, toda a civilização da Síria vem sofrendo com esse terror que parece não ter fim. Naturalmente, com os cristãos locais não é diferente.

De acordo com um relatório internacional, a comunidade no país oscilou bastante nas últimas sete décadas, desde que se tornou independente da França, em 1946.

Nos anos 1960, por exemplo, 30% da população era representada por cristãos. No entanto, cinquenta anos depois, a guerra começou durante a Primavera Árabe de 2011, fazendo com que esse total diminuísse para 10%.

As informações divulgadas pela Portas Abertas se revelam ainda mais preocupantes. Até o início dos conflitos, 2,2 milhões de seguidores de Cristo viviam por lá e, hoje, existem somente 677.000, segundo o Índice de Perseguição de Cristãos em Países no Mundo, publicado pela instituição.

LEIA MAIS

“O regime não é um protetor das minorias. Eles estão usando isso apenas para negociar, trazer ajuda e manipular o Ocidente – especialmente os cristãos conservadores”, insistiu Ayman Abdul Nour, um desertor sírio, economista e presidente da organização sem fins lucrativos Syrian Christians for Peace.

No país que possui uma grande conexão com os primeiros anos do cristianismo, os constantes bombardeios estão deixando os locais históricos aos escombros, além de muitas igrejas antigas terem sido destruídas.

É na Síria que fica localizada a “Estrada para Damasco” onde o apóstolo Paulo teve o encontro com o Salvador. Outra riqueza histórica são vilas como a Ma’loula, seu acento fica no topo de uma montanha em que as pessoas ainda falam aramaico, a língua de Jesus.

Além de dizimar as famílias e comunidades, essas áreas continuam correndo riscos. Apesar do atual governo se posicionar em defesa dos cristãos, Bashar al-Assad também pertence a uma minoria religiosa à mercê dos terroristas que operam no país.

Assad anunciou no último mês mais um mandato presidencial, que é o seu quarto seguido. O presidente e sua religião alauíta, uma seita islâmica xiita, representam 17% da população, enquanto os muçulmanos sunitas são a maioria com 74%, mas cada vez menor.

Com a presença de extremistas do Estado Islâmico (ISIS) espalhados por todo o território há cerca de oito anos, Assad se aliou à Rússia reforçando o papel de protetores do cristianismo e outras minorias.

“Muitos cristãos sírios apoiam Assad porque acreditam que ele é apenas a opção mais segura, que a alternativa são os islâmicos e isso seria pior para os cristãos. Outros consideram o sistema que Assad mantinha manipulador, que prometia falsas proteções”, explicou Claire Evans, gerente regional para o Oriente Médio da International Christian Concern.

“No final das contas, os cristãos sírios são colocados em uma posição muito difícil. Tudo o que eles acreditam politicamente, eles serão penalizados por alguém. É uma questão de ter que fazer a escolha pessoal de quem eu quero / preciso de proteção; portanto, é um sistema injusto desde o início”, afirma.

A infração dos direitos humanos contra cristãos

Assim como disse Claire Evans, muitos defensores dos direitos humanos acreditam que o regime de Assad é o inimigo número um dos seguidores de Jesus, e não os grupos terroristas. Um relatório anual afirmou que ele “é o principal responsável por 61% da segmentação de locais de culto cristãos na Síria”. 

As informações da Rede Síria de Direitos Humanos (SNHR) destacam que, entre março de 2011 e setembro de 2019, 124 ataques nesses lugares foram documentados. A maioria deles, 75, vieram do governo, 10 do ISIS e outros dois tiveram Hayat Tahrir al- Sham (líder ligado à Al Qaeda) como responsável.

O documento indica que a medida de “visar locais de culto cristãos é uma forma de intimidação contra a minoria cristã na Síria e um meio de deslocá-los”. “Não há atmosfera de liberdade”, declarou o fundador da SNHR, Fadel Abdul Ghany.

“Aqueles que ainda apoiam o fazem principalmente por medo”, enfatizou Fadel. Com isso, os ativistas acreditam que o futuro dos cristãos remanescentes, seja pelas mãos do governo ou pelos terroristas, é incerto e perigoso.