O mau uso da tecnologia não chega a ser tema das pregações, mas é uma preocupação para todos, já que ela se tornou canal para muitos problemas atuais.

A tecnologia mudou a nossa forma de viver. Crianças e jovens são educados pela internet, empresas têm parcela de seus funcionários atuando em home office, produtos são comprados com apenas alguns cliques e entregues em menos de 24 horas, a venda pela internet e seu estoque “ilimitado” aumentou ainda mais o consumismo, profissionais são cada vez mais substituídos por máquinas, o avanço da medicina nos deu mais saúde, serviços bancários podem ser feitos por mensagens de voz, cultos online, entre muitas outras mudanças.

Um estudo da empresa de consultoria Gartner constatou, por exemplo, que existem hoje 6,2 bilhões de dispositivos com acesso à internet e cerca de 7,8 bilhões de habitantes na Terra. A empresa relata que haverá um aumento de 125 milhões de dispositivos a mais em uso em 2022 em relação a 2020.

jovem solitário no computador - tecnologia afastar de cristo

Além disso, segundo os resultados do Tech Report 2019, estudo realizado pelo Observatório da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE,) em parceria com a Neoway, o setor de tecnologia no Brasil obteve um faturamento de R$ 301,7 bilhões, correspondendo a 4,4% do PIB nacional. Existem atualmente 12.836 startups no Brasil, em 607 cidades. Um grupo expressivo de brasileiros se dedicam a produzir e reproduzir tecnologia.

Mas onde isso pode nos levar e de que forma a tecnologia pode nos afastar de Cristo?

Voltar atrás não é uma alternativa. A tecnologia trouxe benefícios, inclusive para que a Palavra de Deus alcançasse diversas pessoas e que, por exemplo, missionários não ficassem tão sozinhos, podendo falar com familiares e igrejas locais pela internet.

O que devemos trazer para a reflexão é a nossa responsabilidade como cristãos na produção e utilização da tecnologia. Há um número considerável de cristãos atuando como profissionais em laboratórios e grandes indústrias. Pessoas que têm o poder para aprovar o desenvolvimento de projetos ousados de tecnologia. Se essas pessoas não trouxerem em seu coração uma cosmovisão centrada em Cristo, certamente elas tomarão decisões erradas.

A temida (por alguns) “tecnologia” mudou a forma de viver de todos nós.

O filósofo Egbert Schuurman nos traz uma orientação: “os cristãos deveriam, sim, fomentar, no espaço público, a reflexão e discussão acerca não de uma “tecnologia gospel”, mas de uma ética (e de seus desdobramentos políticos) que favoreça o florescimento cultural responsável intencionado por Deus para sua criação. Afinal, como aqueles que depositam fé e esperança em Cristo, os cristãos seriam chamados a sinalizar o reino de Deus por meio de seus pensamentos, ações e influências institucionais, cooperando virtuosamente no desenvolvimento tecnológico de suas sociedades, sem, contudo, compactuar com utopias tecnicistas ou naturalistas”.

casal triste mexendo no celular 2 - tecnologia afastar de cristo

Ou seja, não podemos “demonizar” a tecnologia, já que muitas vezes nós somos parte do processo de produção dos avanços tecnológicos e não nos posicionamos como cristãos. É fundamental considerar uma ação mais efetivamente cristã em situações como essas.

Além disso, devemos olhar de forma consciente para a utilização da tecnologia em favor de todos. Estar atento às implicações do uso desmedido de tecnologia deve ser uma reflexão diária de todo cristão. Não devemos apenas nos ater aqui ao uso de smartphones e afins, mas aparelhos domésticos e alternativas de locomoção, por exemplo.

Shannon Vallor, filósofa que estuda a tecnologia, nos traz uma reflexão importante em seu livro Technology and the Virtue (Tecnologia e as Virtudes): “O cultivo do autocontrole [na internet e nos smartphones] requer mais apoio da indústria e das normas sociais, mas também permanece ao alcance de nossas próprias práticas morais, especialmente o hábito da atenção moral.

Na verdade, a atenção executiva, a capacidade de perceber o que em nosso ambiente físico ou mental estamos pensando e conscientemente modificar ou redirecionar esse pensamento, é uma parte essencial do autocontrole, envolvendo a capacidade de atrasar a gratificação, moderar nossos impulsos emocionais e restringir ações reflexivas e irrefletidas. Se os novos hábitos de mídia social desafiam nosso autocontrole, isso provavelmente tem muito a ver com nossas capacidades de atenção em ambientes tecnossociais. Como as novas mídias sociais moldam nossos hábitos de prestar atenção moral e as virtudes que esses hábitos promovem?”.

É fundamental considerar uma ação mais efetivamente cristã diante dos avanços tecnológicos.

Vejamos na prática: você está sentado em seu sofá, fala com seu aparelho controlador para acender as luzes e ligar a TV. Enquanto isso, seu café está sendo preparado no aparelho que você só insere os ingredientes e ele faz o resto. Seu bebê chora, você vê pela babá eletrônica e dá ordens a partir de um controle para que um boneco amarrado ao berço toque seu bebê como um humano e faça o bebê dormir novamente.

Enquanto isso, o culto passa online e você transfere seu dízimo em dois cliques lendo o QR code da TV. O culto era às 10 e você acordou às 11:30. Então aproveita para assistir o vídeo no modo acelerado para ganhar tempo. Sua esposa chega do salão, você toma um banho rápido e vão almoçar fora. No carrinho do bebê, um tablet exibe filmes com canções para mantê-lo calmo. O carro automático leva vocês com rapidez ao restaurante, seguindo um mapa para livrar vocês de engarrafamento.

Chegando no local, vocês fazem o pedido por um tablet, sem a necessidade de um garçom, que aparece apenas na entrega à mesa. E o pagamento é feito pelo mesmo aparelho, eliminando a cobrança da gorjeta do garçom que se tornou quase inútil no processo.

No resto daquele dia, depois da volta para casa, a tecnologia continua “facilitando” a vida da família. O bebê solta gargalhadas com os vídeos musicais, a esposa malha em frente à TV na sala e o marido está há algumas horas no banheiro assistindo vídeos para maiores de 18 anos. Todos felizes, cada um em seu lugar, sem fazer mal a ninguém, alienados em si mesmos.

casal triste mexendo no celular - tecnologia afastar de cristo

Essa ficção descrita acima é mais real do que podemos imaginar. Pessoas têm desperdiçado a preciosa vida dada por Deus focados em auto satisfação e no delírio de acharem que “não estou fazendo mal a ninguém, então está tudo bem”. Não, nada está bem. Cristo se deu por nós na cruz, por amor para que pudéssemos viver uma vida de abundância. Mas abundância Nele, a partir das virtudes que Ele nos ensina na Palavra de Deus, com o propósito maior que é a glória de Deus a partir do amor a si mesmo e ao próximo.

A tecnologia pode sim nos afastar de Cristo.

A tecnologia pode sim nos afastar de Cristo. Está em nossas mãos desenvolver projetos com propósitos de valor. Também cabe a nós utilizar bem aquilo que é criado para o bem, sem que as facilidades que a tecnologia traz se tornem um ídolo, tirando Cristo do centro do nosso coração.

“Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo”. Colossenses 2:8