O solamento, mudança de rotina, desemprego, mortes, desequilíbrio emocional, brigas familiares, abusos e divórcio. Esse é um resumo básico da enxurrada de problemas que a pandemia trouxe.

Segundo dados do Colégio Notarial do Brasil — Conselho Federal (CNB/CF), com base no levantamento do segundo semestre de 2020, o aumento no número de divórcios foi de 15% em comparação ao mesmo período no primeiro ano de pandemia. Mais de 43 mil famílias se desfizeram. Esses dados não incluem famílias não oficialmente registradas e casais que já não vivem juntos, mas não deram entrada nos papéis por dificuldades financeiras.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou, que nos últimos 5 anos, houve um aumento de 75% no número de divórcios, e este número tem aumentado com a permanência da pandemia, chegando a ter saltos de mais de 260% em alguns meses, em comparação com os anos sem isolamento.

pandemia casamentos - casal brigando

Duas questões são destacadas pelas instituições que tratam da temática. O isolamento trouxe um convívio mais próximo e constante e as preocupações das mudanças geraram desacordos entre os casais. E por outro lado, a Justiça facilitou o processo de divórcio, liberando em alguns casos, o trâmite feito pela internet e com poucos dias para a saída do resultado. Desta forma, seja por ímpeto ou pela facilidade, as pessoas têm escolhido dissolver famílias com mais frequência.

Assim como muitas escolhas pelo casamento são feitas por envolvimento emocional, a dissolução, muitas vezes, segue o mesmo caminho. No envolvimento da paixão dizemos sim e na pressão das tribulações dizemos acabou. Entre alguns problemas relatados pelas pesquisas para o fim do matrimônio estão as dificuldades financeiras, os relacionamentos conflituosos com a família de cada um dos cônjuges, os problemas na vida sexual e expectativas frustradas.

Todos esses problemas podem ter como base a falta de diálogo, companheirismo e até mesmo falta de amor. As pessoas estão cada vez mais desconectadas umas das outras, conectadas apenas com as demandas de trabalho ou com ações de entretenimento (cinema, bares, jogos, programas de TV). Você parece estar fazendo algo com alguém, mas sua atenção não está na pessoa, mas naquilo que gera interesse ou vantagem para você.

Abusos

Em pregação online no canal da Igreja Esperança, o pastor Guilherme de Carvalho levantou um tema delicado que tem gerado problemas sérios dentro de casa: o abuso.

De acordo com o pastor, “O Governo Federal iniciou uma jornada de divulgação de comerciais televisivos sobre a questão da violência doméstica, recomendando que vizinhos fiquem de olho, porque a violência doméstica, a violência contra a mulher e abusos dentro de casa aumentaram assustadoramente. Além disso, cresceu também o número de abusos psicológicos, na maior parte das vezes, de homens contra mulheres, mas há também de familiares contra pessoas mais idosas e contra filhos. Todos estão dentro de casa. De repente, tensões estão acontecendo e nem sempre as coisas são faladas. Talvez você não esteja em uma casa em que exista um abuso criminoso, mas podem haver violações de limites, pequenos desrespeitos, intolerâncias, esgarçamentos do relacionamento, como temos enfatizado. Esses acontecimentos podem levar, no caso de familiares, a um divórcio, à separação, a um conflito difícil”, finalizou o pregador.

Segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH), desde o início da pandemia o número de denúncias de violência doméstica cresceu quase 40%, comparando 2019 a 2020. No primeiro mês de pandemia (março/abril de 2019), o aumento já tinha sido de mais de 18% e veio crescendo de lá para cá. Apesar do aumento de denúncias, muitas mulheres isoladas com seus abusadores em casa, são impedidas ou ficam com medo de fazer a denúncia. Não é possível medir exatamente o número de agressões e as consequências que elas vão trazer no futuro, quando o convívio social retornar.

pandemia casamentos - mulher com medo

Além da violência contra a mulher, o abuso contra crianças e adolescentes também cresceu. A Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) registraram que a pandemia elevou em média 50% a quantidade de denúncias de abuso contra crianças e adolescentes, no entanto, esta denúncia é sempre tardia. Em 2020 houveram mais de 1490 notificações de violência contra crianças com idade entre 0 e 9 anos. Em 2021, até maio, foram 410 casos. 72% desses atos aconteceram dentro de casa. Muitas vezes, os atos são visualmente imperceptíveis, e quando um dos cônjuges percebe, a situação já está grave.

O abuso, seja qual for a sua raiz, gera traumas e rompimentos. Diversas famílias têm sido destruídas por causa dos mais variados tipos de abusos. Quando ele entra no lar, os laços são abalados e a restauração da família passa por um processo complexo, algumas vezes sem solução.

Casamento projeto de Deus

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”, (Gênesis 1:26 a 28).

O casamento é um projeto de Deus, a constituição da família se iniciou lá em Gênesis na criação do homem e da mulher, e assim, temos um relato sobre o relacionamento de Deus para com o ser humano, e de um ser humano para com o outro. Vemos aqui ainda como Deus criou o homem segundo à Sua imagem e semelhança.

“E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava ajudadora idônea. Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão”, (Gênesis 2:20 a 22).

Ao continuarmos a leitura do texto, vemos que Deus criou a mulher cuidadosamente, retirando-a de uma parte do homem. A mulher foi criada com propósitos específicos, afinal Adão se sentia só vendo todas as outras criaturas de Deus tendo uma companheira. Assim, Adão foi criado do pó da terra, mas Eva de sua costela. E assim temos que Eva, ao ser criada da costela de Adão, foi criada para ser sua companheira.

A primeira reação de Adão ao despertar do sono foi: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada”, (Gênesis 2:23). Observe que Adão não disse: Ótimo! Agora terei alguém para recolher as coisas que deixarei espalhadas, fazer as tarefas do lar ou me servir em tudo o que precisar! O texto ainda acrescenta: “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne”, (Gênesis 2:24).

No projeto de Deus estava previsto que eles deveriam respeitar a individualidade um do outro, entendendo que eles próprios seriam a expressão mais pura do amor e satisfação de Deus para toda a humanidade. O casamento sob a graça divina é aquele que vive sob o serviço e a dependência de Deus.

Ao estudarmos a Bíblia e seus inúmeros versículos sobre o amor Eros, ou seja o amor romântico segundo os gregos, amor esse que pertence ao casal, vemos como o casamento precisa ser baseado em amor, respeito, companheirismo e, principalmente, cumplicidade. Temos abaixo alguns versículos que resumem isso:

“Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. Da mesma forma, os maridos devem amar cada um a sua mulher como a seu próprio corpo. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo. Além do mais, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida, como também Cristo faz com a igreja, pois somos membros do seu corpo”, (Efésios 5:25 a 30).

“Quem encontra uma esposa encontra algo excelente; recebeu uma bênção do Senhor”, (Provérbios 18:22).

“Vós, mulheres, estai sujeitas a vossos próprios maridos, como convém no Senhor. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não vos irriteis contra elas”, (Colossenses 3:18 e 19).

Já no Éden, Satanás tenta acabar com essa união e essa cumplicidade. Vemos em Gênesis 3 como a serpente envolve Eva em uma mentira e usa de sua persuasão para fazê-la comer do fruto proibido e assim, desencadear a desunião do casal. Quando Deus perguntou a Adão o que havia acontecido e ele culpa Eva, que por sua vez culpa a serpente e ninguém assume sua responsabilidade, o casal expõe e culpa o outro por seus atos.

“E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás? E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me. E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses? Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi. E disse o Senhor Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi”, (Gênesis 3:9 a 13).

Até hoje vemos como alguns casamentos deixaram de ser baseados em amor e companheirismo e estão sendo baseados em culpa e acusações. E esse é um tema que precisa ser tratado na igreja, afinal o abuso, infelizmente, é algo que acontece também entre os casais cristãos: abuso emocional, psicológico, sexual e físico.

Efésios 5:22-24, diz: “Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos”. Muitas igrejas usam esse texto para falar como a mulher precisa ser subordinada ao marido, ou seja, ser serva dele para tudo que ele precisar, mas não é isso, literalmente, que o texto quer dizer. Aqui, temos que entender o contexto histórico dessa carta a Éfeso. No texto, a mulher é comparada à igreja e o marido à Cristo e assim, o marido deve amar e respeitar a mulher assim como Cristo ama Sua igreja.

pandemia casamentos - um casal feliz

Como lemos lá em Gênesis, Deus criou a mulher para ser companheira do homem, ser submissa, ou seja, estar sob a mesma missão direcionada por Deus, e não ser humilhada e desrespeitada. E isso, infelizmente, faz com que em nossas igrejas, muitas mulheres e homens sofram calados a abusos, imaginando que precisam passar por isso, o que é uma mentira de satanás! Deus nos criou para sermos amados e respeitados, e precisamos zelar por isso!

Deus criou o casamento para ser eterno. Dietrich Bonhoeffer disse uma frase muito interessante sobre casamento: “Não é o Amor que sustenta a Aliança, é a Aliança que sustenta o Amor”. Ou seja, ao fazer uma aliança com seu cônjuge,você faz uma escolha, e assim, você escolhe amá-lo todos os dias.

O que sustenta o casamento é Deus, no dia do casamento se faz uma aliança perante os convidados e, principalmente, perante a Deus, e é Ele que lhe dará forças para manter e alimentar seu casamento, pois como dissemos, o casamento é uma criação de Deus.

Como igreja, temos uma responsabilidade muito grande de zelar pelo casamento e cuidar uns dos outros, pois os casais mais maduros tem muito a ensinar a quem está começando e, às vezes, quem está começando, em sua paixão inicial, tem muito a ensinar aos mais velhos, que já estão desgastados pelo tempo. Mas mais do que qualquer coisa, temos a responsabilidade de cuidar uns dos outros, pois como mencionamos acima, o abuso infelizmente é algo que acontece nas igrejas e é preciso denunciar e cuidar dos membros da família de Cristo!

Para finalizar, temos a passagem de I Coríntios 13:4 a 8, que nos ensina como deve ser o verdadeiro amor:
“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá”.

Que assim seja nos casamentos de todos os cristãos: Deus acima de tudo e companheirismo e cumplicidade entre o casal.