Muito prazer, sou Fausto Caetano preparador de cantores de alta performance e trago neste texto um assunto que dificilmente é percebido por músicos como um fator de risco para sua carreira: A relação do emocional e as tensões musculares do músico cantor.

Cantores utilizam seu corpo para fazer sua arte e é costumeiro observar que artistas, em geral, reagem às circunstâncias de forma mais intensa que pessoas que não são tão ligadas às artes. Se olharmos por esse ponto de vista, a somatização é muito comum na vida destes indivíduos que se expõem diariamente a altos níveis de estresse e, muitas vezes, se submetem a horas de estudos e ensaios diários, visando alcançar um patamar cada vez mais alto na qualidade de seu trabalho, já que o perfeccionismo é algo imposto sobre eles.

Essa pressão que o músico cantor sofre em busca da voz perfeita, imposta por si e pelos outros, normalmente não vem acompanhada dos cuidados necessários para que este músico desempenhe o papel que precisa de forma saudável. Há poucos anos era muito comum em um show escutar alguém dizer: “– olha lá! Não tem nem meia hora de show e o cantor já está pedindo água” ou: “– O culto hoje foi uma benção irmão! Senti até gosto de sangue na boca” (expressando com a voz completamente rouca).

Com tantas campanhas acerca do bem-estar da voz e da saúde de modo geral este pensamento tem mudado, porém ainda há aqueles que disputam quem canta mais alto e estes, por sua vez, vão colecionando lesões. Mas nem sempre podemos dizer que os cantores abusam do volume de voz de forma intencional. Com frequência, estão sujeitos a ter sintomas de abuso vocal, pois são submetidos a ensaios e locais para se apresentar extremamente ruidosos, os quais, muitas vezes, não têm equipamentos capazes de lhes fornecer a segurança necessária, como, por exemplo, podemos citar as igrejas que não têm retorno ou as que ainda utilizam retornos de chão para os músicos ao invés de fones intra-auriculares, os chamados In Ear, que isolam os sons externos, permitindo que o músico cantor escolha o volume e quais instrumentos ele quer ouvir.

Como nosso foco está nas tensões musculares do músico cantor, quero alertar do que elas são capazes de gerar na saúde de um cantor e sobre sua causa mais profunda: as emoções descontroladas.

O estresse emocional causado pela pressão, a repressão e o assédio moral, que são muito comuns entre os músicos, mesmo dentro das igrejas, são fatores que levam estes indivíduos a desenvolverem tensões musculares por todo o corpo. Estas, por sua vez, imprimem sobre eles suas marcas como encurtamentos musculares e dos tendões, desalinhamento das vértebras da coluna gerando desvios posturais, protrusões e hérnias discais, dores de cabeça, bruxismo, refluxo gastroesofágico, fadiga, comprometimento do sono e, é claro, perda total ou parcial da voz, a chamada disfonia por tensão muscular, que se enquadra dentro do grupo das disfonias psicogênicas.

Estes músicos apresentam padrões posturais e de marcha alterados e sempre se queixam de algum tipo de cansaço e dor pela extensão da coluna. Apesar de ser difícil estabelecer um princípio unívoco que se estenda a todos os cantores, ao realizarmos uma breve análise, encontramos neles, com grande frequência, uma respiração defeituosa como causa imediata, mas a raiz está no descontrole das emoções, a qual dificilmente é diagnosticada de forma adequada quando consultado por um médico. Mesmo quando informado ao músico cantor que ele tem algum problema de ordem psicossomática, isso não é levado em conta, afinal, muitos têm vergonha de assumir que têm um problema emocional e que precisa tratá-lo.
Assim, temos a ansiedade como o grande mal do século.

Todos esses fatores nos deixam com a sensação de estarmos em uma constante corrida contra o tempo, o que nos leva a parar de perceber nosso corpo como devíamos (propriocepção), sendo assim, somente procuramos ajuda quando há falha no mecanismo vocal e/ou dos movimentos necessários para executar sua performance.
Quando chegam a este ponto, muitas vezes, o músico tem que recorrer aos próprios recursos financeiros para cuidar de sua saúde vocal e dos problemas causados pela má postura, pois grande parte não tem auxílio de suas bandas ou das igrejas em que cantam.

Como sabemos, a maioria esmagadora dos convênios médicos não têm especialistas em voz ou, muito menos, de músicos instrumentistas, o que faz com que estes se submetam aos perigos da automedicação.

Toda essa cadeia de eventos poderia ser amenizada se houvesse, por parte da direção/coordenação aos quais os músicos são subordinados, a devida atenção ao seu bem-estar, ao invés de cobrar dos mesmos com a mesma intensidade que um treinador de futebol cobra de seus jogadores na hora da partida. Nossos músicos estão sofrendo por falta de conhecimento, por ainda defenderem algumas vaidades, ou seriam medos? Em ambos os casos, falta entender que nós somos a casa de Deus, conforme citado em I Coríntios 6:19;

 

“Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo

que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos?”.

 

Portanto não podemos nos depredar, seja por meio do exagero de energia ao cantar e tocar ou pela falta de atenção com nosso corpo, por isso, devemos nos atentar em relação ao autocuidado do músico, priorizando uma alimentação saudável e o devido tratamento para nossas patologias emocionais, com os respectivos especialistas.

Concluo assim, que para cantar de forma saudável é preciso compreender suas emoções, relacioná-las com todo o seu corpo e com o meio externo. O conhecimento necessário para se viver, cantar e tocar de forma saudável e duradoura esta à disposição de todos, basta tomar a decisão de se informar mais e se esforçar para ter disciplina. Faça bom uso de seu corpo e de sua mente, afinal estamos aqui por um propósito maior.