Um observador mais atento não deixaria de considerar curioso o fato de que a Black Friday é promovida no dia imediatamente após o feriado de Ação de Graças: passa-se um dia inteiro agradecendo a Deus por todas as bênçãos conquistadas durante o ano para, logo na manhã seguinte, correr para as lojas a fim de garantir o máximo de pechinchas possível.

As justificativas para isso são muitas: aproveitar um dia pós-folga (no caso dos países estrangeiros, onde “Thanksgiving” é um feriado), fazer uma “limpa” nos estoques das lojas pré-Natal, período em que muitas novidades são levadas às vitrines, e, no espírito natalino, ainda há, também, o argumento — mais comum de ser a abertura da temporada de compras para o feriado de fim de ano. Para nós, neste texto, isso não importa muito.

Vamos manter nossa atenção no curioso simbolismo explicitado no primeiro parágrafo: um dia de gratidão seguido por um dia de gastança. É a velha dualidade a que os cristãos estão expostos a todo momento, na qual “nos limpamos” e a oportunidade de pecar aparece logo após a esquina.

E aqui é importante fazer um adendo: não existe problema nenhum no consumo, nem em promoções como a Black Friday. A pedra de tropeço nos faz cair quando essas coisas extrapolam o limite do razoável em nossas vidas.

O problema está na idolatria do consumo.

O que é idolatria e como isso se aplica ao consumo?

O livro do Êxodo, no capítulo 32, é a fonte do relato mais famoso de idolatria na Bíblia. Nele conhecemos a história do bezerro de ouro, forjado por Arão a pedido do povo de Israel, que, impaciente, não queria mais esperar pelo retorno de Moisés, que havia ido falar com Deus no Monte. O mesmo trecho também nos conta a respeito das terríveis consequências deste ato idólatra.

Adoração do Bezerro Dourado, 1634 – Por Nicolas Poussin

O dicionário define idolatria de duas maneiras: culto que se presta a ídolos e, no sentido figurado, um amor excessivo, admiração exagerada.

Para a Bíblia, ambas as definições do termo são problemáticas quando não aplicadas a Deus, principalmente quando compreendemos que um ídolo é algo que toma o lugar do Senhor em nossas vidas. Pode ser qualquer coisa: seu marido/esposa, o dinheiro, um trabalho, uma amizade e, por que não, a forma como você se relaciona com as coisas.

O apóstolo Paulo deixa claro que o problema é sério: “Portanto, meus amados, fugi da idolatria” (1 Coríntios 10:14). Não há “mas” ou “porém”. É um simples e puro “fujam”.

Retornando à definição de prosperidade bíblica, que é a ausência de necessidade, temos a clareza de que somos chamados ao consumo sustentável, que responda àquilo que precisamos, não ao que desejamos. O profeta Isaías é usado por Deus para deixar uma mensagem neste sentido: “Por que gastar dinheiro naquilo que não é pão e o seu trabalho árduo naquilo que não satisfaz?”. (Isaías 55:2A)

Neste trecho, o pão representa aquilo que é necessário, importante para a nossa subsistência, e o contraponto é justamente aquilo que não satisfaz, é efêmero, cujo efeito em nossas mentes, corações e vidas como um todo passa rápido. 

A compra por impulso, estimulada por preços exuberantes (como no caso da Black Friday), responde mais aos nossos desejos do que às nossas necessidades, e se encaixa no segundo tópico: não satisfaz.

black friday

Nossa identidade está em Cristo

Na carta de Efésios 5:5, lemos que o idólatra se iguala ao devasso, ao impuro e ao avarento na lista daqueles que ficarão de fora do reino de Cristo e de Deus. Estes são pecados que remetem a traços de caráter, e estão intimamente ligados à nossa identidade. Ao listar os tópicos em conjunto, a Bíblia nos indica que a idolatria também é um problema do coração — conforme também podemos ver em Ezequiel 14.  

Há pessoas cuja identidade está amparada não naquilo que Deus diz que elas são, e sim no poder que possuem (ou talvez não possuam, se afundando em dívidas) de comprar o que querem. Em marcas de roupas, sapatos, no celular da moda ou em outro item de ocasião. Esse efeito passa, como nos indica Isaías no trecho citado anteriormente.

Para sabermos a nossa real essência, devemos sempre consultar as escrituras. Como nos diz a carta de 1 Pedro 2:9: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. 

É esse o nosso verdadeiro chamado e deve ser o que preenche nossos corações.  A Black Friday é apenas um dos momentos do ano em que somos estimulados a consumir desenfreadamente (há também o Natal, o Dia dos Pais, das Mães, das Crianças…), e temos que ter disciplina para nos ater ao que realmente importa.

Como não escorregar na Black Friday

Uma boa dica para os consumidores não caírem na tentação é fazer uma lista de objetos que são realmente necessários com antecedência e ficar apenas nela no dia dos descontos, evitando compras por impulso. 

Aos comerciantes, a sugestão é sempre agir com parcimônia. É preciso estratégia para maximizar os lucros em determinadas épocas do ano, mas também é necessário sabedoria para não extrapolar, criando bezerros de ouro para o povo adorar. Confie que o mesmo Deus que nos dá enquanto dormimos (Sl. 127) também proverá o sustento necessário em todas as épocas do ano.

Outra maneira é sempre manter a mente nos ensinamentos do sábio em Eclesiastes. No capítulo 2, verso 10, o escritor afirma que “tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o meu coração de alegria alguma”. Mas perceba o que ele diz logo em sequência, no verso 11: “Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol”.

De nada adianta correr atrás do vento. Vire seu olhar para o que é eterno, e terá a cabeça certa na hora de comprar.