NVI, ARC, ARA, NAA, NTLH, TB… quem é novo convertido ou não está muito familiarizado com o universo cristão acaba se perdendo em meio a essa sopa de letrinhas que, para quem ainda não identificou, são correspondentes a algumas das traduções da Bíblia existentes na língua portuguesa. 

Paulo Teixeira, secretário de tradução e publicações da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), diz que existem inúmeras versões da Bíblia em português e, por isso, é difícil precisar quantas são ao certo. A própria SBB, por exemplo, responde por cinco delas: Tradução Brasileira (TB), Almeida Revista e Corrigida (ARC), Almeida Revista e Atualizada (ARA), Nova Almeida Atualizada (NAA) e Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).

Paulo Teixeira, secretário de tradução e publicações da SBB (Foto: divulgação)

Esta variedade, porém, é um privilégio que não se estende a todas as pessoas no planeta. Segundo levantamento da agência missionária britânica “Wycliffe Bible Translators”, uma a cada cinco pessoas ainda aguarda para ter acesso à Bíblia em sua própria língua, número que corresponderia a, aproximadamente, 1,5 bilhões de pessoas. 

Isso acontece mesmo em um cenário global no qual 717 línguas contam com uma tradução completa da Bíblia, 1.582 com ao menos o Novo Testamento e 1.196 com algumas porções das escrituras. O cenário, porém, é animador, visto que há processos de tradução ativos para outros 2.899 idiomas, segundo o mesmo levantamento, datado de setembro de 2021.

É possível dizer, portanto, que ter a Bíblia em seu idioma nativo é um privilégio dos grandes, o que dirá em várias versões, como nós temos acesso no Brasil.

Mais alguns dados

Primeiro livro a ser impresso com a técnica de Gutemberg, que revolucionou a história em 1454 e trouxe-nos até o cenário atual, a Bíblia cristã também é o livro mais vendido do mundo na história, conforme aponta o famoso livro dos recordes Guinness. Ao todo, já teriam sido produzidas cerca de 5 a 7 bilhões de exemplares, em conta que não para de crescer. Só no Brasil, engrossam as estatísticas cerca de 7 a 8 milhões de novos exemplares impressos anualmente, com preços que começam em R$ 6. 

Como são feitas as traduções

Paulo explica que a SBB, assim como as demais integrantes da rede internacional chamada de SBU (Sociedades Bíblicas Unidas), sempre traduz a partir das línguas originais, sendo que duas metodologias principais são utilizadas pelos tradutores: a equivalência formal e a equivalência dinâmica.

 “A equivalência formal é uma tradução mais literal, tanto quanto possível, palavra por palavra. A outra chamamos de princípio de equivalência dinâmica ou comunicacional. O primeiro é predominante em Almeida e nas suas diversas edições; o segundo se reflete bem mais na NTLH. Mas os princípios ou metodologias são complementares. Expressões idiomáticas, por exemplo, geralmente exigem a aplicação da equivalência dinâmica, já que uma tradução literal impediria a compreensão do pensamento que o escritor bíblico quis expressar”, explica.

Ele conta, ainda, uma curiosidade a respeito das traduções:

“Para ficar no âmbito da SBB, nos anos 80, quando a Bíblia na Linguagem de Hoje (BLH) foi lançada, os leitores estranharam a equivalência dinâmica. O tetragrama no AT (Antigo Testamento), por exemplo, foi “traduzido” por “Deus Eterno”, o que soou artificial a muitos. A BLH foi amada por muitos e questionada por tantos outros. A SBB respondeu a isso colecionando as críticas e sugestões, que foram amplamente aproveitadas para que, no ano 2000, fosse lançada a hoje consagrada e amada NTLH. Nesta, o nome de Deus no AT seguiu a tradição inaugurada pela Septuaginta (tradução do AT para o grego, séc 2 a.C.) e por Almeida e ali figura como ‘Senhor’. A NTLH é uma das traduções mais distribuídas no Brasil na modalidade impressa e a mais lida nas plataformas de Internet e nos aplicativos, como o app da Bíblia (YouVersion)”, complementa.

Dados da própria SBB indicam que a NTLH possui cerca de 85% do seu texto elaborado com base na tradução dinâmica, enquanto 15% seguem a tradução formal ou literal.

Como escolher uma versão da Bíblia?

A resposta certa a essa pergunta, segundo Paulo, é: depende. A escolha vai variar dos objetivos da pessoa: por exemplo, é uma Bíblia para o dia a dia ou para estudo mais aprofundado? Para evangelização ou aprofundamento? De toda forma, ele traz algumas sugestões:

“Para evangelização ou para pessoas novas na leitura da Bíblia, recomendamos a NTLH ou a NAA. Para um estudo da Bíblia como literatura ou do português clássico, poderíamos recomendar a TB”, diz o secretário da SBB.

Outros critérios também podem ser levados em conta na hora da escolha, como:

  • Acessibilidade do vocabulário;
  • Tamanho da letra;
  • Versão mais usada pela sua comunidade de fé (para poder acompanhar os cultos);
  • Checar se a Bíblia possui uma boa concordância ou materiais de apoio como mapas e notas; entre outros.

Seja como for e independentemente do seu critério de escolha no momento ou a sua versão preferida, o importante é garantir que o seu exemplar da Bíblia seja lido.