Uma pesquisa do Ecad (Escritório Central de Arrecadação) divulgada em 2018 atesta: o sertanejo é o estilo musical mais ouvido do Brasil. Na ocasião, o levantamento apontou que, em shows e eventos, 56% das músicas reproduzidas são deste estilo. O segundo lugar ficou com o forró, que teve distantes 17%.

Nas rádios, o cenário era similar, com 56% do espaço ficando com os sertanejos. No streaming, a liderança continuava, com 37% das músicas.

A situação não muda muito quando pulamos para 2021 e observamos o ranking das mais tocadas de outubro da organização, que é o órgão responsável pela arrecadação de direitos autorais relacionados a obras artísticas: as músicas mais tocadas nas rádios de quase todas as regiões do país são deste estilo musical.

Outra recente demonstração de força do gênero foi motivada por uma tragédia, com o falecimento da cantora Marília Mendonça, precursora e uma das principais expoentes do “feminejo”, que é um subgênero do sertanejo com temáticas voltadas ao universo feminino e/ou cantadas por mulheres. Estima-se que mais de 100 mil pessoas foram ao funeral da cantora, que morreu em um acidente de avião, e a comoção em todas as partes do país chamou a atenção da imprensa internacional.

Mas mesmo com toda essa pujança e penetração em diferentes instâncias no país, o sertanejo é um estilo musical que ainda não possui espaço equivalente na igreja brasileira. 

Existe preconceito com o sertanejo na igreja brasileira? 

Para Felipe Barros, produtor musical e líder do Lagoinha One, ministério de louvor da Igreja Batista da Lagoinha (BH), há, sim, um certo preconceito contra o sertanejo na cultura musical cristã, que não é mal intencionado, mas tem raízes na própria história de fundação das igrejas brasileiras.

Felipe Barros
Felipe Barros (Foto – Arquivo Pessoal)

“Grande parte da disseminação do evangelho protestante no Brasil veio proveniente de missionários, em sua grande parte norte-americanos. Então, quando você vê a ata de fundação das igrejas batistas e presbiterianas, por exemplo, do final de mil e oitocentos, início do Século XX, até 1930, você tem o nome de muitos desses pastores e missionários americanos que, obviamente, quando vinham, traziam também traços da sua cultura. (…) Então, isso fez com que o traço da nossa música, culturalmente falando, ficasse muito conectado com esses estilos e com essa textura musical que vem de fora do país”, explica.

Tendo começado muito cedo, ainda na infância, e já ostentando a marca de mais de 20 anos de carreira, André e Felipe são considerados uma das maiores duplas sertanejas cristãs do Brasil. Eles comentam que, em determinado ponto da caminhada, chegaram a sofrer “um pouco” de preconceito por seu estilo musical.

“No início, quando viemos com esse sertanejo mais pop, com essa sonoridade moderna, sofremos um pouco, por ser algo novo, mas depois as pessoas foram vendo que Jesus também habita em meio aos louvores sertanejos. Também com o tempo, nosso ministério gerou frutos e tudo fluiu naturalmente”, contam. 

Há espaço para a música sertaneja na igreja hoje?

André e Felipe comentam que têm percebido uma boa abertura para o estilo sertanejo dentro da igreja na atualidade.

“Tem uma abertura muito bacana. Se pararmos para analisar essas músicas da Harpa, por exemplo, tem muito sertanejo. A melodia, harmonia… sempre gostamos muito de cantar hinos da Harpa, inclusive. Cremos que Jesus fala aos corações através das canções sertanejas; quando vamos em retiros de jovens é incrível ver a alegria deles adorando a Deus. Nas gincanas, por exemplo, o ritmo que eles colocam pra embalar e animar é o sertanejo. E temos em nosso coração essa alegria, pois a alegria do Senhor é a nossa força”.

ANDRÉ E FELIPE 4
André e Felipe (Foto – Divulgação)

Felipe Barros retoma a questão histórica, da influência cultural estrangeira que a igreja brasileira carrega desde a sua fundação, para explicar a baixa utilização do gênero sertanejo durante os momentos de culto e louvor. Esta bagagem, inclusive, seria uma das razões para a grande predileção dos ministros de louvor nacionais por versões de músicas de outros países. Entretanto, segundo ele, este cenário está mudando gradativamente.

“Existem igrejas que, dependendo da localidade onde estão, já conseguem manifestar os traços culturais da sua região, tocando músicas que têm a ver, que têm relação com a cultura local, o que não é problema nenhum e inclusive precisa ser muito incentivado”, afirma o produtor musical.

Como aproximar mais a igreja deste importante estilo musical?

Para Felipe, o ritmo que vai ser executado não fere a liturgia do culto, já que todos os ritmos foram criados por Deus. Para ele, o importante é que haja o entendimento se as pessoas que estão presentes à reunião são uma audiência preparada para receber o que vai ser ministrado, e que haja diálogo entre a igreja e o que acontece fora dela. 

“A maneira como os ritmos são utilizados e as obras que vêm a partir do ritmo e das melodias é que vão determinar se aquilo está sendo utilizado para glória de Deus ou não. É preciso que exista diálogo sem sermos tão duros na separação e na distinção entre sagrado ou secular. Porque existe muita coisa que é categorizada como “gospel” e, na verdade, teve o objetivo na sua concepção de afastar as pessoas de Deus ou de gerar divisão e separação entre pessoas. E há muita coisa que não é categorizada como gênero “gospel” e que aproxima as pessoas de Deus. Então, é preciso que a Igreja dialogue cada vez mais com a cultura que aproxima o homem de Deus, que tem como base a fé cristã. A cultura que tem como base a valorização da família e dos princípios que Jesus pregou”, afirma.

Um mecanismo para que haja essa aproximação, na visão de Felipe Barros, está no incentivo à cultura nacional.

CHAPÉU E VIOLÃO

“Eu acredito que, para a gente mudar esse preconceito e passar a assumir mais a nossa cultura, vai ser necessário que tenhamos um mecanismo que permita a autores de músicas brasileiras conseguirem fazer com que suas canções sejam gravadas. Por quê? Naturalmente, quanto mais a gente canta música de outras culturas, o que não é um problema, mas, na proporção em que se canta, os nossos traços culturais vão sempre ficar muito parecidos com os dessas outras culturas. Então, se a gente consegue fazer com que autores de músicas nacionais, que tenham traços culturais brasileiros, sejam mais cantados, e que essas músicas façam parte não apenas dos repertórios das igrejas, mas primeiro dos lançamentos nas plataformas digitais e de streaming, naturalmente isso vai fazer com que as igrejas comecem a cantar canções que tenham mais de nossa cultura. Esse é um processo que demora décadas, mas se ele começar a ser incentivado agora, daqui a alguns anos eu acho que os nossos traços serão mais fortes dentro dos nossos cultos”, diz.

André e Felipe possuem um entendimento parecido. Na visão da dupla, há, inclusive, bastante receptividade no meio “secular” para a música gospel.

“O ritmo sertanejo sempre teve presença no Brasil, mas hoje cremos que ainda mais. No meio secular é muito forte. Então, acreditamos que sim, que a música sertaneja gospel é uma ferramenta muito forte de evangelismo. Existem várias situações em nosso ministério de pessoas que se converteram ao Evangelho através das nossas canções e que adoravam sertanejo”, comentam. 

Por fim, a dupla ainda deixa uma mensagem para quem deseja investir no ministério de música sertaneja:

“O segredo é estar alinhado com os propósitos de Deus. Depositar toda confiança, expectativas e sonhos Nele, pois tudo é para Ele e para sermos instrumentos Dele. Acredite em si mesmo e no seu chamado e, se foi Deus quem te chamou, não desista, pois Ele é fiel. Depois, se empenhar de todo o coração para entregar o perfeito louvor a Deus, procurando fazer um trabalho de qualidade. O empenho alinhado à vontade de Deus tem sido nosso alvo. O resto é consequência, deixa com aquele que te chamou: Jesus”, concluem.