Busca por mais qualidade de vida, oportunidades de emprego, segurança e educação. Estes são apenas alguns dos motivos que estão levando cada vez mais brasileiros a juntar os pertences, fechar a mala e partir rumo a um recomeço no exterior.

Levantamento feito pelo Itamaraty mostra que o número de expatriados cresceu 35% na última década, e atingiu a marca de 4,2 milhões de pessoas — número que pode ser até duas vezes maior se levarmos em conta as pessoas que não entram nas estatísticas oficiais. 

Esta estatística, entretanto, pode crescer ainda mais. Outra pesquisa, realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), aponta que 47% dos jovens entre 15 e 29 anos deixariam o país, se pudessem. 

Mudar de país é uma decisão séria, que envolve uma série de fatores a serem levados em conta, desde os financeiros até os emocionais. Um deles, porém, às vezes passa despercebido para os cristãos — por mais elaborados que seus planos sejam — e pode fazer toda a diferença: como será a vida de fé no exterior?

Normalmente temos a tendência a imaginar que o crente que sai do Brasil vai como missionário. E, de certa forma, todos somos missionários aqui nessa Terra. Mas, pensando no conceito institucional da coisa (pessoas que vão abrir igrejas ou que têm o objetivo primário de evangelizar um povo), nem todos que saem do Brasil atuarão ‘na missão’. Podem ser médicos, engenheiros, desenvolvedores, garçons, vendedores e uma gama de profissões “comuns”.

São pessoas que tinham uma rotina bem estabelecida de vida em comunidade em suas cidades e, ao se mudar, acabam esquecendo que uma parte significativa disso também fica para trás. Que também têm que recomeçar quando o assunto é igreja.

Pensando nisso e para auxiliar o corpo de Cristo que vive fora (ou que faz parte do grupo que quer sair), procuramos três brasileiras que vivem em contextos diferentes para uma conversa sobre como é ser um cristão “ordinário” fora do Brasil, com dicas e dificuldades. Conheça cada uma delas.

As peculiaridades de viver fora: vantagens, barreiras linguísticas e diferenças culturais

Morando em Osaka, a segunda maior cidade do arquipélago japonês, para onde se mudou com seu marido há três anos, a fotógrafa Elaine Fukuyama está a cerca de 18.300 KMs de sua antiga cidade, Belo Horizonte. Ainda batalhando para aprender o idioma local, ela conta que não é só a distância que é grande entre Brasil e Japão: as diferenças culturais também são significativas.

Elaine Fukuyama
A fotógrafa Elaine Fukuyama, que vive no Japão há 3 anos

“São muitas diferenças de pensamentos, hábitos, alimentação, religião. No início estranhei alguns costumes, mas hoje já estou mais adaptada. Existem muitas regras e, como eles são ensinados a obedecê-las, não são muito abertos a improvisos como o brasileiro (risos). Não tem aquele calor humano que temos, mas eu dei sorte de morar na cidade onde dizem que os japoneses são mais simpáticos. Apesar de Osaka ser a 2º maior cidade do Japão, é bem diferente de Tóquio, onde os japoneses são mais fechados”, comentou.

Nas terras geladas do pólo norte, Débora Rosendahl, jornalista brasileira que vive há seis anos na Finlândia com o marido e os filhos, também sentiu o choque cultural na nova nação. Ela afirma que o brasileiro é mais caloroso, enquanto os finlandeses “são mais na deles” se destacam pela honestidade e lealdade. Existe um ditado que fala que “se você tem um amigo finlandês, você tem um amigo pra vida inteira”, diz

“Eu também senti em relação à diferença do clima, aqui é muito escuro. Inclusive, agora em novembro é um dos meses mais escuros do ano, onde em partes da Finlândia — no Norte, por exemplo — tem vez que o sol nem aparece, e ao contrário no verão [o sol não se põe – fenômeno conhecido como “O Sol da Meia-Noite”]. Então isso pra mim foi um choque cultural muito grande, porque além do frio, a escuridão realmente mexe com tudo, mexe com o nosso psicológico”, explica. 

Débora Rosendahl
A jornalista Débora Rosendahl e seu marido, que vivem há seis anos na Finlândia.

Vivendo em Portugal há quatro meses após passar um ano e meio morando na Itália, onde ela e o marido cursavam mestrado, a desenvolvedora Ana Esther Amaral faz comentários bastante similares em relação à abertura do povo local. As percepções também são parecidas em relação à força das conexões que, uma vez criadas, “chegam a ser muito fortes”. Entre as dificuldades, porém, ela pontua a questão do idioma.

“Se eu tive alguma dificuldade quanto à diferença cultural foi na Itália, porque eu fui só com o inglês, não falava italiano, e essa barreira linguística atrapalha um pouco na conexão com o povo. Minhas amizades lá foram com senhoras idosas que eram minhas vizinhas, super fofas, e com gente da minha faculdade, sendo mais com outros alunos internacionais do que com os próprios italianos”, conta.

Ana Esther Amaral
A desenvolvedora Ana Esther Amaral e seu marido, que se mudaram para Portugal há 4 meses, após morarem 1 ano e meio na Itália.

O cenário religioso e a busca por uma nova igreja local

Destino preferido dos brasileiros que pretendem trabalhar fora, segundo um estudo conduzido pela consultoria The Boston Consulting Group, Portugal tem, na visão de Ana Esther, uma diversidade religiosa maior que no interior da Itália. Há pouco tempo em terras portuguesas, ela ainda não encontrou uma igreja para frequentar, mas explica o que já conseguiu perceber de diferenças entre as duas nações.

“São dois cenários bem diferentes. A Itália é um país católico, mas as pessoas não são tão religiosas. Você vê que tem muita igreja, as cidades são bem religiosas, tem coisas cristãs espalhadas, mas o povo em si não é muito religioso. E a comunidade protestante lá é muito pequena. Eu estava numa cidade que não é tão pequena assim [Trento], tinha cem ou duzentos mil habitantes, e acho que tinham três igrejas lá: uma Assembleia de Deus e duas Batistas. Aqui em Portugal é bem parecido com o Brasil no sentido que tem muita igreja, você vai achar um pouco mais de diversidade religiosa”, explica.

Elaine conta que ainda não conseguiu uma igreja para frequentar no Japão — o idioma e a distância da igreja brasileira mais próxima têm sido impedimentos. Como solução, ela assiste os cultos pela internet e prossegue nos estudos do inglês e do japonês para conseguir entender melhor as mensagens nas opções de cultos disponíveis. 

Para Débora, o cenário é outro. Ela também teve dificuldades para encontrar uma comunidade em que se “sentisse em casa“ no início, porém a situação mudou após os amigos Rodrigo e Saara Campos compartilharem com ela a direção que tinham de Deus para abrirem uma nova igreja em Helsinque. Desde então, conta, se encontrou na Northwind Church.

“Essa notícia [da abertura da nova igreja] veio maravilhosamente de encontro ao nosso coração, porque era o que a gente tinha orado, né? Por muito tempo oramos para achar um lugar, e tem sido uma casa que acolheu a gente, onde temos crescido espiritualmente, como família. Nessa comunidade sentimos que estamos no lugar que deveríamos estar”, celebra.

O papel da igreja na adaptação do novo imigrante

As três são unânimes na consideração da igreja local como um aliado importante na adaptação a um novo país.

orando de mãos dadas

Para Elaine, por exemplo, contar com uma comunidade de fé na qual pudesse participar ajudaria a rebater a solidão. “Eu acredito que seria mais fácil e não me sentiria tão só se eu estivesse em uma comunidade cristã. Sinto muita falta dos cultos presenciais, da comunhão com os irmãos”, afirma.

Ana relembra o tempo de intercambista em Sydney, na Austrália, para explicar o impacto que um trabalho de recepção feito pela igreja tem na vida do imigrante.

“Eu sabia que tinha Hillsong em Sydney, então, quando eu cheguei lá, já tinha contato com pessoas que estavam frequentando a igreja. Fui muito bem recebida, mal cheguei lá e já estava inserida num connect group (na célula), em um ministério. Fui abraçada, muito bem recebida. Ter alguém que estava me recebendo lá foi muito importante pra mim”, conta.

“Com certeza a igreja teve um papel muito positivo na minha adaptação porque foi ali que eu fiz amigos, que, quando os dias eram difíceis, eu ligava para as pessoas para conversar, para orar. Foi ali que eu comecei a ter relacionamentos. O legal da igreja, principalmente quando você mora fora, é que é um jeito mais fácil e rápido de fazer amizades, porque todo mundo está ali buscando o mesmo ideal. Por isso que eu sempre falo: ‘quando você está mudando de país, procura uma igreja’. Lógico que é pra ter comunhão e também pra gente ficar mais perto de Jesus, mas essa parte do relacionamento é muito importante”, explica Débora.

O risco de se afastar da fé

Bem documentada pelos testemunhos dados até aqui, a dificuldade de encontrar uma comunidade local também pode ser um dos motivos de um problema ainda maior, que é o esfriamento da fé do imigrante. Outros motivos que levam a isso podem ser: 

  • Dificuldades com o idioma da pregação;
  • Distância da igreja mais próxima ou outras circunstâncias da correria do dia a dia;
  • Falta de adaptação com a cultura da igreja (e do país);
  • Quebra de rotina, que afasta a pessoa da zona de conforto que tinha no Brasil e chamava de fé.
  • Incapacidade de buscar a Deus individualmente, no secreto, por falta de prática.

Débora diz que isso ocorre pois, imersas em tudo o que advém com a mudança de país, as pessoas podem acabar se esquecendo de manter um relacionamento pessoal com Jesus. “Esse relacionamento com Deus é uma coisa leve, é no dia a dia; isso tem que vir junto na mala na mudança de país, porque é isso que vai nos sustentar quando estivermos passando por momentos difíceis de adaptação. Por exemplo, quando eu vim para cá, passei por momentos bem difíceis, mas o que me sustentou foi a palavra que Deus me deu de que aqui era o lugar que eu tinha que estar”. 

grupo de pessoas lendo a bíblia

Dicas para quem quer começar uma nova vida no exterior

Mesmo com histórias de vida tão distintas e vivendo em países tão diferentes, Débora, Ana e Elaine convergem na hora de aconselhar quem deseja vivenciar a experiência de viver fora do Brasil, inclusive no encorajamento para tal.

“Não se desanime pelo inesperado e aprenda a esperar o por ele. O diferente nem sempre é ruim, culturas são diferentes. Esteja aberto a aprender o porque as coisas funcionam desse jeito, a entender aquela cultura, entender a igreja local. Seja compreensivo com os erros daquele local e, quando você menos esperar, você está aprendendo um novo modo de vida, você está integrado numa nova família. A maior dica é: não desista com as dificuldades e vá em frente. Não desista do seu sonho, da sua fé, da sua família e esteja aberto para o que estiver à frente”, diz Ana Esther.

cristãos que decidiram morar fora do Brasil

Há ainda o incentivo para que o potencial imigrante ore a respeito e espere a resposta de Deus. “Não tem nada pior que decidir por si mesmo e depois se arrepender. O mundo tem muitas oportunidades, lugares lindos pra conhecer, mas também não tem nenhum lugar perfeito. Seja onde for, guarde teu coração, você pode mudar pro lugar mais distante do mundo, só não pode se distanciar de Deus”, afirma Elaine.

Débora conclui: “Deixa Deus guiar seus passos e seja obediente ao que ele te responder. Por mais difícil que seja, por mais impossível que, às vezes, você possa achar. Tipo: ‘eu sinto no meu coração desde sempre que é pra eu ir para a Finlândia, por exemplo, mas eu não estou vendo nada acontecer ao meu redor’. Se forem de Deus, as coisas vão acontecer naturalmente. Mas continue dando passos em direção a isso, não fique parado esperando cair do céu. Dê passos em direção ao que Deus está te falando. Seja obediente”.