Durante muito tempo essa era uma verdade quase inquestionável no meio evangélico: a universidade desvia o crente. Conversando com cristãos que fizeram faculdade há mais de 30 anos, facilmente encontramos histórias de irmãos que foram fortemente desaconselhados ou mesmo proibidos por seus líderes de ingressar na universidade.

Hoje a graduação é incentivada e celebrada pelas igrejas em geral, mas o medo da universidade desviar o cristão ainda é comum na mente de pastores e ovelhas.

Isso porque o ambiente acadêmico é dominado por valores e princípios totalmente contrários à Palavra de Deus, fazendo com que o cristão seja desafiado diariamente por ideologias, filosofias e pensamentos que confrontam suas crenças. Por isso, não raras vezes, mesmo que não aconteça o abandono da fé, esse embate resulta no esfriamento espiritual e em cristãos acanhados, encurralados, escondidos e desviados.

A razão desse medo está nos números e na experiência. Essa realidade atinge crentes de todas as denominações, idades e regiões do país. Contudo, seria mesmo culpa da própria universidade? Seria ela a grande vilã capaz de tirar do Caminho até os crentes mais sinceros?

Definitivamente, não. A universidade nunca foi a responsável pelo abandono ou esfriamento na fé. Com este artigo, quero propor duas causas, a meu sentir, as verdadeiras responsáveis pelo “desviar” de alguns cristãos.

A primeira e mais grave causa é o fato de que muitos cristãos ingressam na universidade sem uma base bíblica adequada. É verdade que o conhecimento das Escrituras deve ser prioridade de todo cristão. Mas, especialmente o universitário precisa de uma base sólida e experimentada, já que as verdades mais fundamentais que constroem suas crenças serão alvo de duros ataques por parte de professores e colegas de sala.

Quando ingressam no curso superior amparados apenas por experiências pessoais com a fé, os jovens são alvo fácil dos mais sutis e falaciosos argumentos. O evangelho superficial e antropocêntrico – pregado por muitas igrejas mais preocupadas com número de ovelhas do que com a saúde delas – é abandonado logo nos primeiros dias de aula, quando confrontado com pensamentos e ideias bem fundamentadas em sentido contrário.

 

“O evangelho superficial e antropocêntrico é abandonado logo nos primeiros dias de aula, quando confrontado com pensamentos e ideias bem fundamentadas em sentido contrário.”

 

O conhecimento bíblico, portanto, é fundamental, mas não é tudo. O cristão precisa, ainda, de conhecimento que o capacite a apresentar sua fé em todas as mesas de conversa, em todos os cursos de graduação. Ele deve conhecer outras cosmovisões, as filosofias e os pensamentos mais diversos que compõem esse universo – não por acaso – chamado Universidade. A segunda causa do problema, portanto, é a falta de capacitação em cosmovisão e apologética.

Nas palavras de William Lane Craig, “não é suficiente que os grupos e as classes de escola dominical de jovens concentrem suas atividades no entretenimento e em simpáticas ideias devocionais. Precisamos treinar os nossos filhos para a guerra. Não podemos arriscar enviá-los aos colégios e universidades armados com espadas e armaduras de plástico. O tempo para brincadeiras já passou”.1

 

“Precisamos treinar os nossos filhos para a guerra. Não podemos arriscar enviá-los aos colégios e universidades armados com espadas e armaduras de plástico.”
William Lane Craig

 

O afastamento de tantos jovens da fé durante a graduação é consequência natural do confronto existente entre a academia e uma fé superficial baseada exclusivamente nas emoções e não em argumentos sólidos, coerentes e racionais.

Portanto, no lugar de culpar a universidade pela triste realidade do esfriamento ou abandono da fé durante a graduação, os crentes precisam entender, como dito acima, que “o tempo para brincadeiras já passou”. Na universidade a fé será provada diariamente. Mas aquele que maneja bem a palavra da verdade (II Timóteo 2:15) tem plenas condições não apenas de permanecer inabalável, mas também de mudar o contexto ao seu redor, por meio de um evangelismo inteligente e efetivo, no nível exigido pelo ambiente acadêmico.

1 – Craig, William Lane (2012).
Apologética Contemporânea. Editora Vida Nova. p. 19.