Você, com certeza, já viu alguma criança se jogar no chão, dentro do shopping ou supermercado. A mãe ou pai, apavorados de vergonha sem saber o que fazer. Claro, numa situação dessas, o que se passa na cabeça e olhar de quem está vendo essa cena horrível? “Que criança mimada”. “Os pais não educam não”? “Aaaa se fosse meu filho, cortava no coro”. “Deve fazer o que quer em casa”. Talvez você já ouviu isso e se entristeceu. Talvez você um dia já falou algo parecido e, por isso, sabe o que se passa na cabeça de pessoas com olhares de julgamentos. Quero, através desta coluna, te explicar de onde vem as birras e porque elas acontecem.

As birras são consideradas como uma fase do desenvolvimento normal da criança e surgem entre os 18 e 48 meses, com pico entre 2 a 3 anos. Tem o pico nessa idade, pois é a fase em que a criança está adquirindo autonomia e dominando o meio em que vive. Essa fase é considerada por alguns autores como a primeira adolescência. As manifestações são várias como: choro, grito, extensão de membros e tronco, pode bater nos outros, atirar objetos, bater com a cabeça no chão ou parede, morder, fugir, desencadear vômitos, dentre outros. (GOUVEIA,2009)

São desencadeadas por medo, cansaço, fome, situações de frustração, medo da separação. As birras acontecem pelo fato do cérebro das crianças ainda não serem totalmente desenvolvidos. O neocórtex corresponde a 76% do cérebro, e é uma região que não está totalmente desenvolvida na criança. O neocórtex é responsável pela imaginação, reflexão, planejamento, pensamento analítico e solução de problemas. A parte mais primitiva do cérebro já vem bem desenvolvida desde o nascimento, área relacionada a funções básicas como: questões básicas de sobrevivência e reações instintivas de defesa e ataque (autopreservação e defesa do território). Enquanto a parte mais primitiva do cérebro está bem desenvolvida, a parte superior (neocórtex, principalmente dos lobos frontais) conhecida como cérebro racional, só atinge plena maturidade por volta de 25 anos. Tudo isso demonstra que pela imaturidade cerebral das crianças, é impossível esperar determinados comportamentos delas.

A criança, diante de determinadas situações, não consegue tomar decisões equilibradas, ter controle emocional e entender as consequências daqueles atos.

No momento que a birra é desencadeada, a área mais primitiva do cérebro é acionada. Isso pode ocorrer quando as crianças perdem os pais de vista, um colega pega um brinquedo, um barulho inesperado, uma frustração por não comprar um brinquedo que ela queria naquele momento. Nesse momento, a criança não tem auxílio da parte superior do cérebro para racionalizar e se acalmar, e níveis de substâncias químicas relacionadas ao estresse percorrem todo aquele pequeno serzinho.

Até os 4 anos, os dois hemisférios do cérebro da criança não trabalham em sintonia. O lado esquerdo é responsável pelo pensamento lógico e linguagem, o direito é responsável pelas ações intuitivas, emocionais e não verbais. Quando esse lado direito trabalha sozinho, a criança é dominada por sensações físicas e emoções. Ela não consegue trabalhar em conjunto com o lado esquerdo para se comunicar e racionalizar o que está acontecendo.

Considero muito importante saber sobre o que se passa no cérebro das nossas crianças. Saber disso como pais, cuidadores, professores, alguém que convive ou não como uma criança, fará você olhar diferente quando se deparar com uma situação de birra.

Na coluna do próximo mês, vou trazer para vocês como ajudar as crianças no momento da birra. Não deixe de ler e compartilhar.

Fontes: GOUVEIA, R. As birras na criança. Rev Port Clin Geral 2009;25:702-5.