A sabedoria popular diz que, “para saber o caráter de um homem, basta dar-lhe poder”. De forma muito perspicaz, o ditado não diz, porém, o tamanho de tal poder. 

De fato, a natureza humana é tão suscetível a quedas que qualquer quantidade extra desta pequena “droga” é capaz de nos desequilibrar. E é por isso que a Bíblia repete diversas vezes que a glória pertence somente a Deus, inclusive com palavras do próprio Deus. 

“Eu sou o Senhor; esse é o meu nome! Não darei a outro a minha glória nem a imagens o meu louvor”, (Isaías 42.8).

É tão comum que o poder suba à cabeça de quem tem, que há até uma expressão para definir o estado de pessoas que passam a se sentir mais do que realmente são, ao receber uma pequena fração dele (como se tornar o síndico de um prédio, o porteiro de um edifício, o coordenador de uma equipe de trabalho, etc): a síndrome do pequeno poder.

A síndrome do pequeno poder

A psicóloga e professora Lísia Vilela, também formada pelo programa de Liderança Avançada do Haggai Institute, explica que a síndrome do pequeno poder não é um transtorno com registro no DSM (Manual Internacional de Distúrbios Mentais) e, portanto, não é tratada como uma doença por psiquiatras ou psicólogos.

Esta expressão está muito mais ligada a um conceito do senso comum, que busca expressar ou nomear um conjunto de comportamentos que uma pessoa demonstra ao receber uma responsabilidade (por muitas vezes, liderar alguma ação ou projeto),  superestima (excesso) seu poder e age de forma arrogante, excessiva e, muitas vezes, abusiva”, explica.

Lísia Vilela
A psicóloga e professora Lísia Vilela, também formada pelo programa de Liderança Avançada do Haggai Institute (Foto: arquivo pessoal)

Lísia remete à história de Adão e Eva, em Gênesis, para explicar que o homem se perde muito facilmente quando contempla a possibilidade de obter poder. Habitantes de um belo jardim, o primeiro casal não se contentou e buscou ter o poder de conhecer o bem e o mal.

“De forma humana e carnal o ser humano sempre quer mais poder e, como o coração do homem é enganoso, o engano sempre é um potencial acontecimento nas nossas vidas. Isto acontece porque o ser humano se distancia muito da sua verdadeira identidade e busca no poder e na sua falsa promessa, existir de forma superior aos demais, (que foi a promessa da serpente no Éden) sendo alguém com poderes especiais em relação às outras pessoas”, afirma a psicóloga, que complementa trazendo um outro traço de quem é acometido por essa síndrome: a imaturidade. 

“Isto acontece muito também pela imaturidade daqueles que recebem algum lugar ou tarefa de poder. Sendo imaturos não dão conta da realidade (o poder existe em função de algo e, via de regra, o poder bem exercido é para o bem comum e não para seu próprio bem e deleite)”, diz.

Esta característica humana de fraqueza frente ao poder serve de alerta, segundo Lísia, para que líderes, estejam eles em qualquer grau de influência ou hierarquia, “tenham cada vez interesse em seu autoconhecimento e compreendam de forma mais consistente a sua identidade enquanto indivíduos”. Ela ainda explica o que pode acontecer a uma pessoa que chegue a uma situação extrema na síndrome:

“Ocupar o lugar de falso controle da vida do outro, assumindo responsabilidades que não são suas e criar rede de relacionamento co-dependente. Muitos casos de seitas podem ter líderes que apresentam tal comportamento. Há, também, (por tais comportamentos) o risco de perdas de relacionamentos e funções por exageros de autoridade”, diz.

A Igreja e a síndrome do pequeno poder 

É comum as pessoas se confundirem e acharem que, ao receberem maior responsabilidade na igreja, também se tornam alguém mais “poderoso”. Nada mais distante da realidade. Afinal, na casa do Senhor, o maior é aquele que serve.

Lísia explica que o motivo que leva líderes a cair ao acederem a posições de influência é a falta de maturidade espiritual e emocional. 

síndrome do pequeno poder

“Quando lemos a Palavra fica muito claro que Jesus peregrinou aqui na Terra com toda autoridade que foi dada a Ele, com humildade, firmeza, intrepidez e nunca com arrogância, altivez ou abusos nas relações. Jesus sabia quem era e, por isso, seguiu, serviu e cumpriu Sua missão. Daí a importância de os líderes terem suas identidades, pensamentos e maturidades tratadas e cuidadas”, afirma a psicóloga, que deixa uma sugestão aos líderes cristãos (cuja atuação pode ser dentro ou fora do ambiente eclesiástico).

“O caminho para uma liderança saudável é buscar muito mais no Senhor (fruto do Espírito e na autoridade que há em Jesus) do que no externo (exposição, reconhecimento e aceitação, resultados). Assim, sua autoridade fluirá de forma frutífera e consistente, apesar de todos os desafios que aí estão neste mundo real ou espiritual”, completa.

Como detectar (e escapar) da síndrome?

Autoritarismo, imposições e uma busca insana por controlar e conduzir todas as ações das pessoas são apenas alguns sinais de que a síndrome do pequeno poder se faz presente. 

No contexto da igreja, isso reflete em pastores que precisam aprovar cada detalhe da sua vida com direito a abusos espirituais e até morais, líderes de pequenos grupos cuja palavra deve ser sempre a última, presbíteros ou diáconos autoritários, entre outros.

“Sem o discernimento sobre o equilíbrio de sua autoridade, a pessoa pode ter ações e criar contextos de excessos (ampliando seu senso de poder) e daí gerando abuso emocional e espiritual. Muitos líderes acabam ocupando lugares de “gurus” ou “ditadores” do que as pessoas devem ou não fazer em suas vidas, sendo que o próprio Deus habita em nós e nos fez como indivíduos capazes de escolher e ter sua busca própria por discernimento e sabedoria na Palavra e no relacionamento com Ele”, diz Lísia, que acrescenta:

“Nestes casos, é muito importante que esta pessoa que vive em comunidade (equipe de trabalho, organização religiosa e etc) esteja minimamente aberta a feedbacks e perceba ao seu redor os sinais daqueles que convivem com ela. Muitas vezes, pessoas com estes traços acabam gerando o afastamento de pessoas próximas ou sendo temido pelas  pessoas que estão sob sua liderança. Normalmente, um par ou alguém superior a ela poderá alertá-la sobre estes excessos em seu estilo de viver e liderar. Daí a importância de processo com mentoria, aconselhamento, tutoria e prestação de contas.

Porque nestes processos, a pessoa poderá ser alertada e ajudada no alinhamento da sua atuação, agindo de forma mais equilibrada e saudável com o poder a ela delegado. A psicoterapia pode ajudar na percepção de suas fragilidades  em relação a sua identidade e no desenvolvimento de uma autoimagem mais coerente e saudável, gerando  comportamentos alinhados ao papel que a ela foi delegado”, completa.

s[onrome do pequeno poder, homem gritando com um megafone

Para quem deseja tentar proteger sua mente para escapar das armadilhas da síndrome do pequeno poder de acordo com a fé em cristo, Lísia sugere:

  • Ter tempo com a Palavra, renovar sua mente e buscar os frutos do Espírito Santo;
  • Buscar a autoridade em Jesus, centrando sua imagem e identidade nEle;
  • Renovar sua mente e buscar ajuda em aconselhamento e psicoterapia.

“O caminho, então, é perceber seu comportamento (seja por si mesmo — o que dificilmente acontece —, ou pelo feedback de outros), querer mudar, buscar ajuda e seguir um caminho de dentro (crenças, pensamentos e sentimentos) para fora (ressignificando e alinhando seus comportamentos), alcançando uma postura mais saudável consigo mesmo e com os outros”, conclui ela.

Por fim, devemos entender que toda autoridade é designada por Deus, mas todas as pessoas a quem essa responsabilidade é concedida, têm como obrigação considerar os irmãos maiores que a si mesmo. Mas líderes não ficam só no pensamento. Isso deve ser traduzido em ações que demonstrem que o conceito está arraigado no coração, com mansidão, domínio próprio e muito amor ao próximo.