Tão temidas quanto mal compreendidas, as genealogias preenchem diversos trechos da Bíblia, principalmente no Antigo Testamento. Estruturas textuais que buscam demonstrar as ligações biológicas ou familiares entre pessoas de diferentes gerações, elas são ou já foram, para todos nós, em algum ponto da caminhada cristã, motivo de questionamento: afinal, para que servem as genealogias? 

O pastor João Eduardo Lima, líder da Igreja Luzeiro, de Belo Horizonte, explica que as genealogias são um retrato da soberania e fidelidade de Deus no cumprimento de suas promessas, de geração em geração:

“Através das genealogias vemos que Deus nunca perde o controle da história, cumprindo Seu propósito através do Seu povo. As genealogias nos ensinam que os relatos bíblicos não são contos de fadas ou lendas, eles realmente aconteceram”, afirma.

genealogias Bíblia
O pastor João Eduardo Lima – Foto: arquivo pessoal

O que as genealogias agregam?

“Um ponto interessante das genealogias é que, naquela época, a linhagem familiar era muito importante, sendo parte vital da identidade da pessoa, de quem ela era, como se fosse um currículo”, diz o pastor, que completa: 

“Algo que me impressiona nas genealogias é como Deus usa pessoas comuns, pessoas que fizeram coisas muito erradas e algumas que nem eram judias para cumprir os Seus propósitos. Isso nos ensina que Ele pode e quer nos usar da mesma forma, mesmo com a nossa história e dentro das nossas limitações”, conclui.

A genealogia de Jesus

Para começar a entender um pouco mais sobre as genealogias, vale mergulharmos em uma específica, que é apresentada em dois momentos do Novo Testamento (são as únicas deste conjunto de livros da Bíblia): a de Jesus, que está situada em Mateus 1:1-17 e Lucas 3:23-28.

O pastor João se refere à descrição da linhagem de Jesus como sendo a genealogia que o tocou de forma mais contundente ao longo da vida.

“A genealogia de Jesus apresentada em Mateus é intrigante. O autor coloca pessoas que ‘não agregavam’ quando se olha para a genealogia como um currículo. Normalmente as pessoas colocam o que existe de melhor em sua história e não o contrário. Mateus coloca mulheres na genealogia de Jesus, uma citação que não era usual e nem recomendada naquela época. Além disso, algumas dessas mulheres eram gentias (cananéias e moabitas), prostitutas, adúlteras e incestuosas. Mateus recorda, propositalmente, os seus leitores de alguns dos incidentes mais sórdidos, repugnantes e imorais da Bíblia”, diz.

Um desses incidentes que o pastor cita como exemplo é o adultério de Davi com Bate-Seba, mãe de Salomão, que é citada como “cuja mãe tinha sido mulher de Urias”, história que pode ser lida em 2 Samuel 11. 

“O que aprendemos aqui? Foi dessa família conturbada e dessas pessoas tão falhas que veio o Messias. E, dessa mesma forma, cada um que se achega a Cristo em arrependimento e crendo no Evangelho pode se enxergar perdoado e aceito, independente de sua história. A genealogia de Jesus é uma demonstração de perdão, de humanidade das pessoas que, em meio aos seus acertos e erros, são capacitadas e usadas por Deus”, complementa o pastor.

Como estudar genealogias?

Para quem está buscando evoluir no estudo das genealogias, o pastor João Eduardo dá dicas de como fazer:

“Devemos buscar entender qual era o propósito do autor original ao colocar aquela genealogia ali, como ela compõe a narrativa bíblica das promessas de Deus para Seu povo e como ela aponta para Cristo. Depois disso, podemos buscar o que a Bíblia relata sobre cada uma das pessoas envolvidas, o que elas fizeram de certo e errado e porque elas estão ali”, ensina.

Como ensinar genealogias aos outros?

Já para os pastores e líderes que gostariam de aprender maneiras de introduzir melhor o tema em suas pregações e estudos, de maneira que outras pessoas também adquiram gosto pelo conhecimento destes textos específicos, o pastor demonstra o caminho:

“As pessoas são tocadas por testemunhos reais, por pessoas reais, quando apresentamos as genealogias demonstrando a humanidade de quem está citado ali e como a graça e o favor de Deus operou nelas e através delas, as pessoas costumam se identificar”, explica.

Por fim, é possível afirmar, com alguma segurança, que as genealogias são alguns dos textos mais “ignorados” em momentos devocionais e pregações. Talvez por não serem de compreensão tão intuitiva, acabamos optando por não nos aprofundar nelas e negligenciamos o conteúdo que é compartilhado.

Entretanto, existe um texto bíblico que deveria nos trazer de volta à realidade da necessidade que temos de estudar as escrituras por completo (incluindo as genealogias):

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça” (2 Timóteo 3:16).

Portanto, é necessário que saibamos acessar o conhecimento contido nessas passagens para que nossa fé seja enriquecida e estejamos cada vez mais próximos do conhecimento de Deus.