A ceia de Páscoa teve origem durante o exílio do povo de Israel no Egito, com relato que pode ser lido em detalhes no capítulo 12 do livro de Êxodo. Nele, Deus deixa claro que este era um costume que deveria ser mantido como uma celebração para sempre.

“E este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo” (v.14). 

Várias gerações depois, como não poderia ser diferente, Jesus e seus discípulos seguiam à risca o mandamento e participavam anualmente da festa, que também ficou conhecida como a Festa dos Pães Asmos. 

Foi neste contexto que aconteceu um dos momentos mais importantes da história do Cristianismo: a  Ceia do Senhor.

Este acontecimento afeta a nossa vida até hoje, e mobiliza a grande maioria das igrejas ao menos uma vez por mês. Mas, para além do texto padrão, em que os pastores costumam repetir as palavras de Jesus, muitos membros desconhecem sua origem ou seu significado amplo. 

A Ceia do Senhor

A relevância geral do momento da ceia fica explícita no fato de que a cena foi relatada nos quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), nos textos, porém, é possível perceber que o momento também foi muito aguardado e planejado por Jesus. Afinal, seria sua última ceia.

Ele diz isso especificamente no versículo 15 do capítulo 22 de Lucas, quando afirma “Desejei ansiosamente comer esta Páscoa com vocês antes de sofrer”. Ao que tudo indica, o anseio de Jesus já era um prenúncio da angústia que estava em seu coração a respeito de seu calvário, que estava para começar ainda naquela noite. 

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Detalhe importante que não pode passar despercebido é que o mestre aproveita o momento de comunhão à mesa para revelar que algum dos discípulos o trairia. Eles, na atitude mais humana possível, não apenas começam a tentar descobrir quem seria o traidor, mas a discutir quem seria o maior no Reino de Deus. Sim, Jesus estava compartilhando uma angústia e seus amigos mais próximos ainda conseguiam pensar somente em si. 

Devemos nos fixar, porém, no elemento central da passagem, que é a completude da mensagem anunciada com um dos elementos da primeira Páscoa e o mandamento que perdura para a sequência da humanidade — e nos afeta até hoje.

Jesus completa e aprofunda o significado da ceia Pascal

Dizemos que Jesus completa o significado da primeira ceia pascal porque, nela, havia um cordeiro puro e imaculado que devia ser abatido. O sangue do animal serviria como um sinal de proteção sobre o povo hebreu, bem como sua carne deveria servir de alimento a eles naquela noite.

Jesus, como o cordeiro definitivo, veio para tirar o pecado do mundo (João 1). Ou seja, o simbolismo do sacrifício impresso e anunciado na primeira ceia se torna real e palpável com a morte de Cristo na cruz.

Por exemplo: Ao partir o pão na fatídica noite da Ceia do Senhor, Jesus diz (v.19) aos discípulos que aquele alimento seria o símbolo de seu corpo, que seria dado por nós, tal como o cordeiro do sacrifício. A mesma coisa acontece com o sangue, que nos livra do pecado, que nos afastava de Deus (a verdadeira morte).

Além disso, Jesus aprofunda o significado inicial da ceia porque, como diz no versículo 20, este é o símbolo da nova aliança de Deus com Seu povo. Já havia uma aliança em curso, entre Deus e os homens, surrada e carcomida pelo pecado original e gerações de ofensas que se seguiram.

Jesus se dispõe a acabar com a distância imposta por tais acusações, que fatalmente condenariam toda a humanidade à morte, trazendo este peso sobre si mesmo, e libertando mais uma vez a humanidade do jugo da escravidão.

O rito da ceia e porque devemos continuar fazendo isso

Profundo conhecedor da natureza humana, Deus sabe que temos a tendência a nos esquecer rapidamente de quem fez o bem a nós. Isso fica evidente em diversas passagens bíblicas onde, de forma cíclica, o povo de Israel caía por não conseguir se manter na disciplina de adorar ao Senhor quando tudo ia bem ou quando o silêncio de Deus imperava, por exemplo.

Jesus, portanto, ordena, no verso 19, que o rito da ceia fosse realizado em sua memória. Nesta memória não residem apenas suas características físicas (na verdade, isso era o menos importante, tanto que suscita debates até hoje) ou frases de efeito. Ele quer que seu sacrifício seja lembrado constantemente.

Ele, porém, não dita uma frequência exata para que essa lembrança seja feita. Obviamente, sempre na época da Páscoa as memórias retornam, mas este é um mandamento antigo. Como dissemos, Jesus veio ressignificar várias dessas celebrações e os seres humanos têm memória fraca. 

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Portanto, convencionou-se, na maioria das igrejas que temos no Brasil, que a ceia deve acontecer ao menos uma vez no mês, momento em que os cristãos são instados a voltar seus olhos de maneira intencional para a cruz e reconhecer, com temor, o sacrifício de Jesus. No fim, tanto faz se você toma a ceia uma vez por mês, duas, todos os dias… o que importa realmente é o mandamento do versículo 19: “Fazei isto em memória de mim” [de Cristo].