No livro de Coríntios, capítulo 1, versículos 1 ao 21, o Apóstolo Paulo por meio de uma carta destinada aos irmãos em Cristo da Igreja de Corinto, informa à igreja que teve notícias de dissensões e desavenças entre eles.
A palavra de Deus estava sendo acrescentada com distorções humanas de pessoas que se diziam discípulos de Paulo, de Apolo, de Cefas e de Cristo.

A igreja de corinto estava categorizando e dividindo a fé e, para piorar, alguns se achavam superiores por pertencer a algum grupo específico. Por isso, Paulo os repreende: “Está Cristo dividido?” e “Foi Paulo Crucificado por vós?”.
A igreja de Corinto estava colocando os pregadores, mestres, pastores e interpretações pessoais acima da Palavra de Deus, caminhando na absoluta contramão de tudo aquilo que Cristo pregou e para o qual Ele morreu. Cristo estava sendo pregado a partir das lentes humanas, da sabedoria humana, do poder e das informações disponíveis neste mundo.

Não é necessário raciocínio lógico ou interpretação profunda para aplicar o desafio enfrentado por Paulo com a igreja de Corinto em relação aos tempos atuais em que vivemos. A Bíblia, palavra absoluta de Deus, inerrante, atemporal, perfeita, coesa e fonte de inesgotável sabedoria, frequentemente é vítima do poder e do sucesso do Homem.

Vivemos um tempo em que influência, poder, dinheiro e fama são os objetivos das pessoas, e dentro da igreja não é diferente.

Essa forma de viver o Evangelho trouxe para as pessoas a convicção de que elas podem fazer tudo que quiserem; que as palavras possuem poder; fale apenas palavras abençoadas e de prosperidade, assim, a sua vida será feliz e tranquila como um comercial de margarina.

Vivemos uma fase em que a Palavra de Deus, fiel em concordância e rica em seu contexto histórico, deu lugar a palavras de afirmação, prosperidade e, principalmente, a personificações de pessoas, denominações e objetos, como se isso pudesse, de alguma forma trazer uma revelação especial de Deus, inédita, ou, o que a grande maioria busca, a satisfação de todos os desejos pessoais. Vivemos a era Coaching, das frases motivacionais do tipo “Você pode”, “você consegue tudo que quiser”, “Você consegue qualquer coisa, basta pedir direito”, “Você merece ter sucesso e ser feliz”.

O sucesso e o dinheiro não são ruins em si mesmos, a questão é que eles se tornaram um fim em si mesmos, o sentido da vida.

Deve-se respeitar profissionais sérios que realizam acompanhamento e desenvolvimento profissional e pessoal, o que não se pode admitir é a inversão de tudo aquilo que Cristo pregou e toda a mensagem da Bíblia.
A Bíblia ressalta a importância dos Cristãos se considerarem fracos e, no meio dessa fraqueza, reconhecerem sua dependência de Cristo.

No versículo 21, Paulo adverte: “visto que como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, quis Deus salvar os crentes pela loucura da pregação”. Os ricos, intelectuais, políticos e pessoas com profundo conhecimento nas mais diversas áreas do conhecimento falharam em revelar a verdade e ligar os homens a Deus. Esse versículo apresenta um grande paradoxo: PODER X FRAQUEZA. Paulo apresenta para a igreja dividida de Corinto o poder a partir da fraqueza, demonstrando que a sabedoria humana fracassou miseravelmente em levar os homens à verdade. Todos os recursos, toda a inteligência e ciência não foram suficientes para salvar a humanidade.

Por isso, no versículo 21 ele afirma que Deus veio até nós para nos salvar, de forma gratuita e independente dos nossos bens, forma de pensar, poder e inteligência, ou seja, a sabedoria humana falhou.
Os Judeus buscavam um rei político que os libertasse da opressão do império romano; os gregos buscavam respostas para as dúvidas da humanidade, como “Quem sou eu”, “Para onde vou”, “Por que estou aqui”, “O que é a verdade”, dentre outras perguntas.

Na cultura atual há o entendimento de que a fraqueza é sinônimo de derrota, de incapacidade e infelicidade. Um grande pensador do século 19, com essa mesma opinião, foi o filósofo Friederich Nietzsche.

Nietzsche afirmava que o cristianismo, a partir da Idade Média, impôs uma inversão de valores morais que culminaria no enfraquecimento do ser humano por ser a negação dos impulsos morais que falam mais alto em qualquer animal. Afirmações polêmicas como “o cristianismo é a revolta de tudo o que rasteja pelo chão contra aquilo que tem altura” condensam o pensamento nietzschiano1.

Para Nietzsche, as afirmações Cristãs como “o meu poder se aperfeiçoa na sua fraqueza”, “se alguém lhe bater na face, ofereça a outra”, “melhor é dar do que receber”, “melhor é servir do que ser servido”, enfraquecem o ser humano e o rebaixam a mais absoluta insignificância.

Contextualizando para os tempos atuais, as redes sociais ostentam e ditam o que seria o significado de sucesso: dinheiro, poder e fama. Além disso, cristãos se dividem por fazerem parte de denominações diferentes, por serem discípulos de pastores específicos e reconhecidos, ou por possuírem conhecimento teológico maior do que a maioria das pessoas. Qualquer semelhança com o que Paulo narrou a respeito da igreja de Corinto, não é mera coincidência.

Ser cristão não é fazer com que tudo dê certo, que fala e se porta como alguém de sucesso, não, muito pelo contrário. O Cristão dúvida, questiona, sente-se inseguro, chora e fica desanimado. Mas você sabe o que o diferencia? No final de tudo, ele está sob os pés de Cristo, reconhecendo toda a sua fraqueza e sua dependência N’ele, e assim, o Espírito Santo que habita nele o convence do pecado, da justiça e do juízo, de que é na fraqueza do homem que o poder de Deus se aperfeiçoa. O poder de Deus produz salvação nos fracos e doentes, aqueles que reconhecem que precisam de Deus.

O fato é que a mensagem da Cruz para os não convertidos e para aqueles que se dizem convertidos, mas não apresentam sinais de tal conversão, é uma pedra de tropeço na busca pelo poder. Nos tempos de Jesus a Cruz era sinal de vergonha e de insignificância, por isso todos evitavam pensar, ver ou falar sobre a Cruz. A morte de Cruz era destinada aos criminosos mais perversos. Por isso, Jesus, o Rei de reis, Senhor dos senhores, o único homem perfeito que já andou pela Terra, escolheu Se entregar por nós por meio de um símbolo que, na época, era sinal de fraqueza, vergonha e destino dos homens mais cruéis. Ele ressignificou a Cruz como o encontro celestial da Justiça e do amor de Deus.

1 NIETZSCHE, F. O Anticristo e ditirambos de Dionísio. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 51.