No dia 16 de abril se comemora o dia mundial da voz e, por falar em voz, você já disse, ou já ouviu alguém dizer a outra pessoa, que ela não “nasceu” para cantar? Cuidado! Pois sem perceber você está defendendo a “eugenia”.

Este é um termo criado por Francis Galton (1822-1911) em 1883, que significa “bem nascido”. Galton definiu eugenia como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem aprimorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente”. Esse tema absurdamente controverso foi, por exemplo, a base do fundamento da ideologia nazista, que culminou no holocausto da década de 1940; também servia para dizer que os negros eram mais propensos à criminalidade, que mulheres são menos inteligentes que homens, dentre tantos outros absurdos.

Me desculpe se lhe assustei, mas em nosso tempo, a sociedade tem sido orientada a rever como se referir a pessoas de raças, religiões e orientações sexuais diferentes para evitar constrangimentos e até mesmo complicações judiciais, mas este nosso tema vai um pouco mais longe.

A falta de conhecimento por parte de alguns profissionais da voz, professores de canto e fonoaudiólogos, por exemplo, é assustadora, pois ainda hoje, muitos defendem que certas pessoas nascem com privilégios genéticos, o que as possibilitam a realizar determinadas manobras vocais e outras pessoas não. Disfarçam, muitas vezes, essa crença dizendo que alguns indivíduos nasceram com um “dom” especial e, por isso, cantam de forma tão tocante ou mesmo conseguem cantar executando os famosos drives vocais, que são as formas de distorcer a voz, e outros não conseguem.

Em 2020, ocorreu um fato que me chamou muito a atenção: uma profissional da voz muito conceituada, postou em sua rede social um vídeo no qual uma Heavy Metal Singer, de apenas 6 anos de idade chamada Aaralyn Oneil, cantava canções utilizando drives vocais por todo tempo. Aaralyn chegou até as quartas de final do programa norte-americano American Got Talent.

Sua voz de criança, doce e meiga, tornava-se um rugido no palco e isso causou tanto espanto, que o jurado Howard Stern tentou parar a audição com receio de que a criança machucasse suas pregas vocais. Porém, como nem sempre o que se ouve é o que parece ser, após uma breve conversa, perceberam que sua voz continuava perfeita e a garotinha foi aprovada e seguiu para as disputas no programa.

Ao ler os comentários feitos nesta postagem – vale citar que grande parte foi feita por profissionais da voz que seguiam o perfil -, um deles me chamou a atenção, pois uma das profissionais que estava debatendo com outros para tentar explicar como uma criança poderia cantar desta forma disse: “algumas pessoas têm o DNA propenso para realizar drives vocais, outros não têm e estes que não têm, mesmo estudando, uma hora vão desenvolver algum problema vocal”.

Tal afirmação, além de ser completamente embasada na eugenia, é completamente mentirosa, já que a neurociência, após a descoberta dos neurônios-espelho, possibilitou uma nova compreensão do fenômeno chamado voz, provando que nós aprendemos o tempo todo por imitação.

 

“Com a orientação correta e dedicação aos treinos, é possível desenvolver em um indivíduo saudável incontáveis formas de se produzir sons com a voz.”

 

Carl Jung disse há muitos anos que “todos nós nascemos originais e morremos cópias”. Interessante essa afirmação para a época, não é?

Pois bem, talvez sustentar a vaidade de que nascemos especiais é mais cômodo para alguns do que aceitar o fato de que, com a orientação correta e dedicação aos treinos, é possível desenvolver em um indivíduo saudável incontáveis formas de se produzir sons com a voz.

Hoje em dia, já ficou provado que a voz é um fenômeno antropológico, ou seja, fruto do meio onde o indivíduo alimenta sua bagagem cultural e, por esta via, a utilização de sua própria voz vai moldando seu conjunto muscular, tornando sua voz algo único (mas sempre com um detalhe facilmente reconhecível como o sotaque, os trejeitos que lembram a voz dos pais e por aí vai…). Com isso, nascem linhas de pensamento como a Antropofisiologia de Ariel Coelho.

Confesso que prefiro abraçar Filipenses 4:13 “Posso todas as coisas naquele que me fortalece”, afinal a aptidão para o canto pode ser desenvolvida antropologicamente ou por treinamento.
Mesmo que alguns apresentem maiores ou menores dificuldades, é possível e recomendável que as pessoas, de modo geral, pratiquem alguma atividade vocal, pois o canto é a melhor ferramenta para se desenvolver a neuroplasticidade, que se refere à capacidade do sistema nervoso de adaptar-se e moldar-se a nível estrutural e funcional, ao longo do desenvolvimento neuronal e quando submetido a novas experiências.
Portanto, caro leitor, jamais desanime alguém de cantar. Compartilhe experiências, inspire e incentive todos que queiram aderir a prática, afinal ela faz muito bem para a saúde como um todo e só quem já sofreu na pele a discriminação por ter dificuldades para cantar ou mesmo tocar, mas tem isso como um sonho de vida, sabe a dor de ouvir de outro músico “você não nasceu para cantar”.
Mesmo que a intenção de quem profere tais palavras não seja ruim e seu intuito seja incentivar a pessoa a fazer outra coisa onde se saia melhor, isso pode arruinar a vida de uma pessoa. Mas, verdade seja dita: caso, caro leitor, você não saiba, ferramentas para a aprendizagem estão à disposição para todos os gostos, de todas as formas e em todas as plataformas.
“O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento”, (Oséias 4:6).
Desejo a todos ótimas reflexões!