A comemoração do Dia do Trabalhador (ou Dia do Trabalho) não acontece em 1o de Maio de forma aleatória. A data, que é celebrada no Brasil desde 1925 e também é relembrada em mais de 80 países, tem como pano de fundo histórico uma greve geral realizada em Chicago, nos Estados Unidos, em uma data como essa no ano de 1886. Na ocasião, os manifestantes buscavam melhores condições de trabalho (eles chegavam a ser submetidos a jornadas de mais de 100 horas por semana). Os protestos surtiram efeito, e jornadas mais humanas foram implementadas. 

Cerca de 140 anos depois, com alguns problemas diferentes e outros iguais, vivemos um novo momento histórico em relação ao trabalho que, novamente, tem raízes nos Estados Unidos: trata-se do fenômeno conhecido como Great Resignation, ou “A Grande Demissão”, em que massas de trabalhadores estão se demitindo voluntariamente de seus empregos — mesmo sem ter nada diferente em vista — porque consideram que as condições oferecidas pelos seus patrões são muito ruins.

É natural que situações como essas ocorram com frequência. Afinal, vivemos em um mundo tomado pelo pecado, que só mudará de verdade quando Jesus voltar. Inseridos nessa realidade devemos, então, buscar fazer o melhor possível para a glória de Deus, tentando auxiliar para que nossos irmãos e irmãs sintam-se tocados pelo Evangelho por meio das nossas vidas também no ambiente profissional.

A percepção do trabalho para os cristãos

A Bíblia deixa claro por diversas vezes que o trabalho é uma dádiva de Deus, e o Senhor demonstra isso logo no princípio de tudo, quando “arregaçou as mangas” e trabalhou na criação de tudo. 

O Pai passa o cajado do trabalho logo depois para Adão, que recebe a incumbência de cuidar do Jardim. Ou seja, era algo benéfico, frutífero e equilibrado. A este respeito, o pastor Timothy Keller e Katherine Leary Alsdorf escrevem o seguinte em seu livro “Como Integrar Fé e Trabalho” (Vida Nova):

“No princípio, então, Deus trabalhou. O trabalho não é um mal necessário que adentrou o cenário mais tarde ou algo que fora criado para os seres humanos fazerem, mas que estava abaixo da dignidade do poderoso Deus. Não. Deus trabalhou por puro prazer e alegria. O trabalho não poderia ter tido um início mais glorioso”. (p.37)

Logo, percebemos que o peso que associamos às atividades laborais atualmente vem diretamente do pecado, e é bom separar as coisas.

Situações de exploração como as denunciadas pelos trabalhadores de Chicago ou por aqueles que embarcaram na Grande Demissão são apenas uma das facetas deste pecado, que dominou todas as esferas da nossa sociedade. Como Cristãos, devemos atuar diligentemente pela redenção de todas elas.

Seja você um funcionário, um chefe que também responde a alguém ou o dono do seu próprio negócio, há maneiras de transparecer a glória de Deus no ambiente profissional, e devemos buscar implementá-las todos os dias. Afinal, no fim das contas, tudo o que há na Terra é um motivo para falarmos do amor de Deus, e no trabalho não é diferente. Temos a responsabilidade e o privilégio de anunciar o Senhor onde quer que formos, com palavras e atitudes.

Funcionários

cristão trabalho - time unido

Pessoas com o status de “funcionários” são a maioria das empresas e, portanto, o coração da cultura das organizações — por mais que pensem que não. Temos a tendência a achar que os líderes são os responsáveis únicos por garantir o bem-estar de todos, mas isso não poderia estar mais longe da verdade.

Um cristão de verdade garante que todas as suas ações sejam pautadas pela generosidade, compartilha conhecimento (a fim de que seus colegas cresçam junto com ele), fazem o possível para manter um ambiente agradável, não engajam em fofocas e realizam suas atividades diligentemente, com excelência, liderando pelo exemplo. Se a maioria do time estiver comprometida com isso, certamente o ambiente será melhor para todos.

Sobre a postura exigida de um cristão, Keller e Alsdorf escrevem: “Se o propósito de Deus para seu trabalho é que você sirva à sociedade humana, então o melhor jeito de servir a Deus é realizando a tarefa da melhor maneira possível”. (p.74)

Além disso, os crentes também não compactuam com corrupção (das menores às maiores) ou injustiças, devendo, em amor, trabalhar para que nenhuma dessas coisas aconteça. A honestidade é traço inegociável do nosso caráter, assim como a defesa dos menos favorecidos.

Invista tempo em tornar-se reconhecido tecnicamente pela sua capacidade, mas também por aquilo que o mercado comumente chama de “soft skills”, como inteligência emocional, criatividade e proatividade, para que se abra uma oportunidade e, quando as pessoas olharem para você e perguntarem qual é a raiz de toda essa qualidade, o nome de Cristo seja glorificado.

Chefes

chefe cumprimentando o funcionário

Os chefes que também são funcionários já têm responsabilidades maiores. Para eles, a liderança pesa mais. E líderes cristãos, como sabemos, devem se portar sempre como servos.

Por estarem em uma posição intermediária, sendo a conexão entre os colaboradores e os níveis superiores de direção até chegar aos donos das empresas, chefes devem ser sempre equilibrados, buscando desenvolver seus colaboradores, maximizando sua produção, ao mesmo tempo em que defendem os mais desfavorecidos, como a Bíblia orienta em Provérbios:

“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”. (PV 31:8-9)

Ademais, cristãos em cargos de liderança devem zelar pelo descanso de seus funcionários, garantindo que o jugo não esteja pesado demais e que consigam ter tempo para honrar ao Senhor em outros campos de suas vidas, como na família e na comunidade.

Empreendedores

reunião

Muito se diz sobre os funcionários terem mentalidade de dono, mas e dos donos que se esquecem da mentalidade que tinham quando funcionários? Em Lucas 12, a partir do verso 42, Jesus fala a respeito do “administrador fiel”, encarregado pelo senhor de cuidar dos seus servos. Nesta história lemos o famoso trecho “A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido”. 

Este texto deveria ser lido e relido por quem está em posições de mais poder, pois Jesus deixa claro que a responsabilidade é maior para quem está “no topo”. Essa pessoa precisa zelar pelos servos do senhor que foram confiados a ele. Portanto, se você é o dono da empresa, não se engane. Ainda há um Senhor a quem você deve prestar contas, e ele é bastante rígido em relação à forma com que você deve tratar as pessoas: amando o seu próximo como a si mesmo. 

Ou seja, não importa o tamanho da sua empresa, se ela tem um ou mil funcionários. Como responsável por ela, você deve zelar para que as pessoas que trabalham nela:

  • Recebam um salário justo (que você gostaria de ganhar);
  • Sejam bem tratadas ali dentro (da forma como você gostaria de ser tratado);
  • Trabalhem uma quantidade de horas razoável, sem ser exploradas (na quantidade que você não se sentiria explorado);

Portanto, é essencial perceber que Deus criou o trabalho para que o homem possa causar um impacto positivo neste mundo. É apenas mais uma forma de vivermos em comunidade, e temos a responsabilidade (seja qual for o papel profissional que assumimos) de ajudar a moldar o nosso ambiente de trabalho e a missão dos locais onde trabalhamos para que haja uma influência agregadora tanto dentro quanto fora dos muros das organizações, contagiando clientes, fornecedores e outros profissionais conectados a ela.