DIA 1 

Enquanto atravessava o deserto deste mundo, aproximei-me de um certo lugar onde havia uma caverna, deitei-me naquele local para dormir e tive  um sonho. Em meu sonho vi um homem vestido de trapos com o rosto vira do para sua casa; segurava um livro na mão e um grande fardo nas costas. Eu vi  o homem abrir o livro e ler; enquanto lia, chorou, tremeu e clamou tristemente:  “O que devo fazer?”. 

Nessa condição perturbadora, o homem voltou para casa, determinado a não  contar seus sentimentos para a família, pois não queria que eles vissem sua  angústia; mas ele não poderia ficar em silêncio por muito tempo porque estava  em profunda confusão. Finalmente, contou à esposa e aos filhos o que estava em sua mente: “Minha querida esposa e filhos”, disse, “estou muito preocupa do com este fardo que levo sobre meus ombros. Além disso, fui informado que  nossa cidade será destruída por fogo vindo do Céu; e nesta terrível destruição,  eu e vocês, minha esposa e meus queridos filhos, devemos perecer, a menos  que consigamos encontrar algum modo de escapar ou nos libertarmos. E, neste  momento, não vejo solução”. 

A família ficou impressionada com suas palavras. Não porque acreditava no  que ele havia dito, mas porque pensaram que estivesse com problemas mentais. A noite já se aproximava e esperavam que o sono pudesse ordenar seus  pensamentos. Por isso, colocaram-no na cama o mais rápido que puderam. Mas  a noite foi tão perturbadora para ele quanto o dia; em vez de dormir, ele permaneceu acordado, chorando e suspirando. Quando amanheceu, perguntaram- -lhe como se sentia e ele lhes respondeu: “Cada vez pior”. E começou a falar as  mesmas coisas do dia anterior. Acreditando que poderiam afastar essa loucura  com atitudes rigorosas, começaram a zombar dele, a repreendê-lo e, algumas  vezes, a ignorá-lo. Por isto, aquele homem começou a isolar-se em seu quarto  para orar a fim de que Deus se compadecesse de sua família e de sua própria  desgraça. Ele também caminhava pelos bosques, algumas vezes lendo, outras  orando. Por muitos dias, essa foi sua rotina. 

Em meu sonho vi que, certo dia, enquanto ele caminhava pelos campos lendo o livro, ficou mais angustiado. Enquanto lia, clamou com mais fervor: “O que  devo fazer para ser salvo?”. 

Tão logo Cristão o mundo deixou, encontrou
Evangelista, que amavelmente o saudou
Com as novas do porvir; e o prostrado
A este se elevou, renegando seu vil estado.

Ele olhava para todos os lados, como se quisesse fugir correndo para algum  lugar, mas não sabia exatamente para onde. Então viu um homem chamado  Evangelista, este se aproximando perguntou: “Por que você chora?”. 

O homem respondeu: “Senhor, este livro mostra que estou condenado a morrer, e depois disso serei julgado. E descobri que não estou disposto a morrer,  nem quero ser julgado”. 

Evangelista retrucou: “Por que você não quer encontrar-se com a morte se  a sua vida é cheia de maldade?”. O homem respondeu: “Temo que este fardo  sobre meus ombros seja tão pesado que me faria atravessar o túmulo e cairia  direto no inferno. E, senhor, não desejo ser julgado e muito menos executado;  pensar nessa hipótese me faz chorar”. 

Então Evangelista disse: “Se esta é a sua condição, por que continua aqui?”.  O homem respondeu: “Não sei para onde ir”. A seguir, Evangelista lhe deu um  pergaminho, no qual estava escrito: “Fuja da ira vindoura”. 

O homem leu a mensagem e olhando cuidadosamente para Evangelista,  perguntou: “Para onde vou?”. Evangelista apontou para um campo bem amplo  e disse: “Você consegue ver aquele portão estreito?”. O homem respondeu que  não. Evangelista continuou: “Você enxerga aquela luz?”. O homem disse: “Acho  que sim”. Evangelista aconselhou: “Mantenha o olhar naquela luz e caminhe  em sua direção, assim, você conseguirá ver o portão. Bata e você receberá as  instruções sobre o que deverá fazer”. 

Reflita sobre os questionamentos de Cristão
quanto a condição em que se encontrava.

“Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa”.  ATOS 16:31

DIA 2 

Então, em meu sonho, vi o homem começar a correr. Ele ainda não estava longe de casa quando a esposa e os filhos o viram e começaram a pedir  que voltasse; mas ele tapou os ouvidos e correu gritando: “Vida! Vida!  Vida eterna!”. Ele não olhou para trás enquanto dirigia-se ao meio da planície.  Os vizinhos também saíram para vê-lo correr; alguns o ridicularizaram,  outros o ameaçaram e outros pediram que voltasse. Entre aqueles que falaram  para voltar estavam dois homens que tentaram buscá-lo à força. O nome de  um era Obstinado e do outro Flexível. 

O homem abriu uma boa vantagem de distância deles; mas estes decidiram  persegui-lo e conseguiram alcançá-lo. Então o homem perguntou: “Vizinhos,  por que vieram?”. Eles responderam: “Para persuadi-lo a retornar conosco”. Mas  ele contestou: “Não podem fazer isso. Vocês moram na Cidade da Destruição,  cidade em que nasci. Se lá morrerem, cedo ou tarde, serão enterrados em um  local mais profundo que a tumba, onde se queima com fogo e enxofre. Animem- -se, bons vizinhos, acompanhem-me nessa jornada”. 

OBSTINADO: O quê?! E deixar para trás nossos amigos e nossa vida confortável? “Sim”, disse Cristão (esse era o nome do homem), “porque TUDO que abandonarem não será digno de ser comparado ao pouco do que estou buscando;  se vierem comigo e seguirem minhas ações, há abundância no lugar para onde  vou. Venham comigo e comprovem que falo a verdade”. 

OBSTINADO: O que você procura, que exige abandonar o mundo para ser  encontrado? 

CRISTÃO: Procuro uma herança que nunca pereça, estrague ou desapareça.  Uma herança que está guardada no Céu a ser outorgada no tempo determina do àqueles que a buscam diligentemente. Leia sobre isso em meu livro. 

OBSTINADO: Que bobagem! Não me importo com seu livro. Você voltará  conosco ou não? 

CRISTÃO: Não, não irei, já coloquei minha mão no arado.  

OBSTINADO: Então, irmão Flexível, voltemos para casa sem ele. Homens  tolos assim são tão presunçosos que acreditam ter mais discernimento do que  sete homens que podem dar boas razões por que estão errados. 

FLEXÍVEL: Não seja grosseiro. Se o que o bom Cristão diz sobre as coisas que  ele procura for verdade, talvez eu decida ir com ele.  

OBSTINADO: O quê?! Outro tolo! Escute meu conselho e volte comigo. Nunca  se sabe onde esse maluco o levará. Seja sábio e volte para casa. CRISTÃO: Não, acompanhe-me, Flexível. As coisas que lhe falei estão esperando, e outras tantas coisas maravilhosas. Se não crê no que digo, leia neste  livro; e a verdade dita será confirmada pelo sangue daquele que o escreveu. FLEXÍVEL: Bem, vizinho Obstinado, acompanharei este bom homem e buscarei minha sorte; mas, meu bom companheiro, você sabe o caminho para este  lugar desejado? 

CRISTÃO: Encontrei um homem, chamado Evangelista, que me instruiu a  chegar àquele portão estreito que está a nossa frente, onde receberemos as  instruções sobre o caminho. 

FLEXÍVEL: Vamos, bom vizinho, continuemos nossa jornada. Flexível e Cristão  continuaram seu caminho. 

OBSTINADO: Quanto a mim, voltarei para casa. Não quero como companhia  dois homens tolos e influenciáveis. 

Vi em meu sonho que quando Obstinado partiu, Cristão e Flexível continuaram o trajeto conversando. 

CRISTÃO: Vizinho Flexível, estou feliz porque você decidiu me acompanhar.  Se Obstinado sentisse o que senti do poder e terror que ainda estão invisíveis,  não teria dado as suas costas a nós de maneira tão rápida. 

FLEXÍVEL: Venha vizinho Cristão, pois estamos só nós dois aqui neste  momento, conte-me sobre onde vamos e o que desfrutaremos lá. CRISTÃO: Consigo imaginar melhor na mente do que traduzir em palavras;  mas como você deseja saber, lerei para você deste meu livro. FLEXÍVEL: E você acredita que as palavras desse seu livro são verdadeiras? CRISTÃO: Com certeza! Este livro foi escrito por Aquele que não pode mentir. FLEXÍVEL: Muito bem. Conte-me mais sobre este lugar.  

CRISTÃO: Existe um reino que não acabará e receberemos vida eterna para  podermos habitar nesse reino para sempre. 

FLEXÍVEL: Muito bem. E o que mais? 

CRISTÃO: Receberemos coroas de glória e vestes brilhantes como o Sol  quando chegarmos no Céu. 

FLEXÍVEL: Parece um lugar aprazível. Quero saber mais.  

CRISTÃO: Não haverá mais choro nem dor nesse lugar para onde estamos  indo, porque o Senhor do reino enxugará toda lágrima dos nossos olhos. FLEXÍVEL: E quem mais estará lá?

CRISTÃO: Estaremos com serafins e querubins, criaturas que encantarão nossos  olhos. Também encontraremos milhares e centenas de milhares de pessoas que  foram antes de nós para esse lugar. Nenhuma delas é grosseira, mas são amáveis  e santas; cada uma delas caminha à vista de Deus e permanece em Sua presença  para sempre. Lá veremos anciãos com suas coroas de ouro; santas virgens com  suas harpas douradas; e homens e mulheres que foram esquartejados, queimados  em fogueiras, devorados por feras, afogados no mar, por causa do amor que eles  têm pelo Senhor desse lugar. Todos estarão bem e revestidos com imortalidade. 

FLEXÍVEL: Ouvir sobre essas coisas já é suficiente para alegrar o coração de  alguém. Mas como compartilharemos e desfrutaremos delas? CRISTÃO: O Senhor, o governante do país para onde vamos, escreveu as instruções neste livro. Se, sinceramente, desejarmos fazer parte deste reino, Ele  nos concederá gratuitamente. 

FLEXÍVEL: Estou feliz ao ouvir essas coisas. Vamos nos apressar. CRISTÃO: Não consigo ir tão rápido como gostaria devido a este fardo em  minhas costas. 

Agora, vi em meu sonho que, assim que terminaram a conversa, chegaram  a um pântano muito lodoso que estava no meio da planície e como não prestaram atenção no trajeto caíram no Pântano do Desânimo. Cobertos de lama,  eles debateram-se por um tempo; e Cristão, por causa do peso em suas costas,  começou a afundar no lamaçal. 

FLEXÍVEL: Onde você está agora, vizinho Cristão? 

CRISTÃO: Na verdade, não sei.  

Naquele momento, descontente e irritado, Flexível disse para Cristão: “Esta  é a felicidade que você me falou todo esse tempo? Se estamos passando por  esta provação no início da viagem, o que podemos esperar até o fim da nossa  jornada? Se sair vivo deste pântano, você continuará sozinho esta viagem”. E  com desesperado esforço, Flexível conseguiu sair da lama pelo lado do pântano que ficava mais próximo a sua casa e Cristão não tornou a vê-lo. 

Reflita sobre certas circunstâncias em sua vida.
Quem foram os amigos que lhe acompanharam nesses momentos?

“…prossigo para o alvo, para o prêmio
da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”.
FILIPENSES 3:14

DIA 3 

Cristão foi deixado sozinho debatendo-se no Pântano do Desânimo. Embora não conseguisse sair, por causa do fardo em suas costas, continuou lutando para sair pelo lado do lamaçal que ficava mais distante de  sua casa e próximo ao portão estreito.  

Em seguida, em meu sonho, vi um homem cujo nome era Auxílio que aproximou-se de Cristão e lhe perguntou: “O que você está fazendo aí?”. CRISTÃO: Senhor, fui orientado a ir por esta estrada por um homem chama do Evangelista, que me mostrou esse caminho para chegar à porta estreita e  assim me livrar da ira vindoura. Estava caminhando para esse lugar e caí por  aqui. 

AUXÍLIO: Mas por que você não olhou os degraus?  

CRISTÃO: Senti tanto medo que não prestei atenção e caí. Auxílio então  sugeriu: “Pegue a minha mão”. Assim, Cristão agarrou a mão de Auxílio, que o  tirou da lama, colocou-o em solo firme e o orientou a seguir seu caminho. 

Então, aproximei-me de Auxílio, que havia ajudado Cristão a sair do lamaçal  e perguntei: “Senhor, já que esse é o caminho da Cidade da Destruição para  a porta estreita, por que não consertaram essa parte do trajeto, ajudando os  humildes viajantes a seguir por esta estrada com mais segurança?”. 

E Auxílio me explicou: “Este pântano lamacento não pode ser reparado. Nele  é onde são armazenadas a escória e a sujeira da convicção de pecado, por isso  é chamado de Pântano do Desânimo; pois, quando o pecador se torna ciente de  sua condição de perdido, muitos medos, dúvidas e apreensões desencorajadoras surgem em sua alma; e todos esses sentimentos juntos se estabelecem nas  profundezas deste lugar. E esta é a razão pelo mau estado deste solo.

“Não é o desejo do Rei que este local permaneça em tal estado. Por mais de  mil e seiscentos anos seus trabalhadores, sob a direção dos inspetores de Sua  Majestade, têm vindo trabalhar neste pedaço de chão. Sim, e para meu conhecimento”, revelou Auxílio, “pelo menos vinte mil carradas — sim, milhões de  saudáveis lições — foram aqui absorvidas. Aqueles que estão bem informados  dizem que os melhores materiais têm sido empregados para tornar este solo uma boa terra. Mas ainda assim é o Pântano do Desânimo e continuará sendo,  a despeito de tudo o que se possa fazer por ele. 

“É verdade que, sob a orientação do Legislador, foram colocadas pedras que  facilitam o deslocamento no meio do pântano. Mas existem momentos em que  este lugar vomita sua sujeira, e dificilmente estas pedras podem ser vistas; ou  se estão visíveis, os homens ficam confusos, passam por cima delas e ficam  atolados apesar das pedras estarem lá. Mas, uma vez que eles alcancem o portão, o solo é bom.” 

A certa altura, em meu sonho vi que Flexível retornara à sua casa e seus  vizinhos vieram visitá-lo; e alguns deles o chamaram de sábio por ter voltado,  e outros o chamaram de louco por arriscar–se com Cristão. Outros zombaram  dele por sua covardia, dizendo: “Certamente, já que começara a aventura, não  deveria ter voltado por causa de algumas dificuldades. Eu não teria feito isso”.  Desse modo, Flexível sentou-se retraidamente entre eles. Mas, com o tempo,  quando recobrou mais confiança, todos mudaram o tom e começaram a ridicularizar o pobre Cristão pelas costas. E, assim, deixaram Flexível. 

Reflita sobre algo semelhante em sua história.
Você já caiu em desânimo? O que fez a respeito para superá-lo?

“Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial.
Por isso, Deus não se envergonha deles,
de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade”. HEBREUS 11:16

DIA 4 

Enquanto caminhava sozinho, Cristão avistou ao longe um homem vindo em sua direção até que seus caminhos se cruzaram. O nome desse cavalheiro era Sábio-Segundo-o-Mundo, que vivia em Prudência Carnal, uma  grande cidade localizada perto de onde Cristão tinha vindo. Portanto, esse homem conhecia Cristão, pois muito se falara sobre sua saída  da Cidade da Destruição. Não somente naquele lugar onde ele tinha vivido,  mas nas cidades vizinhas. Assim, Sábio-Segundo–o-Mundo chegou a algumas  conclusões sobre ele. Após observar a dificuldade do caminho, os suspiros e  gemidos de Cristão, começou a conversar com ele. 

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Olá, meu bom homem, para onde vai com  tamanho fardo? 

CRISTÃO: Realmente, é um fardo muito grande, um peso que nenhuma criatura jamais carregou! E já que me perguntou onde estou indo, respondo-lhe  que vou até aquela portinhola estreita; pois me disseram que lá poderei descarregar meu pesado fardo. 

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Você tem esposa e filhos? 

CRISTÃO: Sim, mas este fardo me sobrecarrega a ponto de não poder apreciá-los como antes. É como se não existissem. 

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Você me dará atenção se lhe der um conselho?

CRISTÃO: Sim, se for bom, pois faz-me falta um bom conselho. 

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Gostaria de sugerir-lhe abandonar este fardo imediatamente, pois enquanto não o fizer sua mente não ficará em paz e não  poderá desfrutar dos benefícios das bênçãos que Deus tem derramado sobre você.

CRISTÃO: É isto que estou procurando: livrar-me deste pesado fardo. Mas  não consigo, e não existe qualquer homem em nosso país que possa tirá-lo  de meus ombros. Portanto, como lhe disse: estou nessa jornada para me livrar  deste fardo. 

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Quem lhe disse que seguir por este caminho o  ajudaria a livrar-se de seu fardo? 

CRISTÃO: Um homem que me pareceu muito nobre e honrado. Seu nome era  Evangelista. 

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Ele foi um péssimo conselheiro! Não há caminho mais perigoso e acidentado do mundo do que este que ele lhe indicou e  você descobrirá isso se seguir o conselho dele. Na verdade, você já o deve ter  encontrado, pois vejo em você as manchas do Pântano do Desânimo. Mas aquele  pântano é apenas o princípio dos males para aqueles que vão por esse caminho.  Ouça-me! Sou mais velho do que você. Provavelmente você encontrará cansaço,  dor, fome, perigo, nudez, espada, leões, dragões, trevas e, numa só palavra, morte!  Essas coisas foram confirmadas por muitos testemunhos. Então, por que confiar  sua vida, despreocupadamente, nas palavras de um completo estranho? 

CRISTÃO: Porque, senhor, este fardo sobre minhas costas é muito mais terrível para mim do que todos os males que você mencionou. Não, não me importo  em sofrer essas coisas se no fim libertar-me deste fardo. 

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Para começar, de que maneira você adquiriu  este fardo? 

CRISTÃO: Pela leitura deste livro em minhas mãos.  

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Bem que imaginei! Aconteceu com você o que  acontece aos homens fracos que, comprometendo-se com coisas inatingíveis  para eles, repentinamente se confundem. Tal confusão não apenas enerva os  homens, como enervou você, mas os envia para caminhos desesperados à procura do que nem eles sabem. 

CRISTÃO: Mas eu sei o que procuro: aliviar-me deste pesado fardo. 

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Mas por que procura alívio neste caminho  perigoso? Desde que tenha paciência para me ouvir, posso direcioná-lo ao que  deseja sem os perigos deste caminho pelo qual você está seguindo. Sim, a  solução está ao alcance, e não envolve tais perigos. Em vez disso, você encontrará muita segurança, amizade e satisfação. 

CRISTÃO: Imploro, senhor, conte-me esse segredo.  

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Preste atenção. Naquela aldeia próxima, chamada Moralidade, existe um homem sensato e honrado. Seu nome é Legalidade.  Ele tem a habilidade de ajudar os homens a livrar-se de fardos como o seu.  Pelo que sei, ele tem feito muita coisa boa neste sentido e tem habilidade para  curar aqueles que estão de alguma forma perturbados com seus fardos. Você  pode procurá-lo e pedir sua ajuda. A casa dele não está muito distante daqui e  se ele não estiver em casa, seu jovem e atraente filho, Civilidade, poderá ajudá-lo tão bem quanto o seu experiente pai. 

Em Moralidade você sentirá alívio do seu fardo. E se você não quiser voltar  para sua antiga habitação o que, na verdade, eu não gostaria que voltasse,  poderá buscar sua esposa e filhos para juntarem-se a você nesta vila, onde há casas disponíveis a preços razoáveis. Tudo o que precisa para ter uma vida  feliz será providenciado lá e você viverá entre vizinhos honestos. Cristão ficou  paralisado por um momento; mas logo concluiu que se esse cavalheiro dizia a  verdade, seria sábio dar ouvidos ao seu conselho. 

CRISTÃO: Senhor, qual o caminho para a casa desse homem honesto?

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Consegue ver aquela montanha? CRISTÃO: Sim, vejo-a claramente.  

SÁBIO-SEGUNDO-O-MUNDO: Passe aquela montanha e a primeira casa que  encontrar é a dele. 

Reflita sobre alguns momentos em que se deixou enganar?
Quais foram as consequências disso?

“Eles procedem do mundo; por essa razão,
falam da parte do mundo, e o mundo os ouve”.
1 JOÃO 4:5

DIA 5 

Cristão desviou-se do caminho em direção à casa de Legalidade à procura de ajuda. Mas ao aproximar-se da montanha achou-a tão alta e íngreme  que ficou com medo de seguir adiante e ela despencar sobre sua cabeça.  Ficou ali parado sem saber o que fazer. Além do mais, o fardo lhe parecia mais  pesado do que antes. De repente, raios de fogo surgiam da montanha e Cristão  ficou com medo de se queimar. Ele começou a suar e tremer de medo. 

Quando os cristãos aos homens carnais ouvidos dão,
Saem do seu caminho e alto preço pagarão:
O Sábio-Segundo-o-Mundo pode apenas mostrar
Ao santo o caminho da aflição para o escravizar.

Cristão começou a arrepender-se por ter aceitado o conselho de Sábio- -Segundo-o-Mundo. Nesse momento, viu Evangelista vir em sua direção e sentiu o rosto enrubescer de vergonha. Evangelista aproximou-se de Cristão, com  expressão severa e amedrontadora, e em seguida, começou a discutir com Cristão.

EVANGELISTA: O que está fazendo aqui, Cristão? Cristão não sabia o que dizer e permaneceu sem palavras diante dele.

EVANGELISTA: Você não é aquele que encontrei chorando fora dos muros da  Cidade da Destruição? 

CRISTÃO: Sim, caro senhor, sou esse homem. 

EVANGELISTA: Eu não mostrei a você o caminho até a portinhola?

CRISTÃO: Sim, caro senhor. 

EVANGELISTA: Como, então, mudou tão rapidamente o rumo? Agora está no  caminho errado. 

CRISTÃO: Assim que saí do Pântano do Desânimo encontrei um homem gentil que me persuadiu que naquela aldeia à frente havia um homem que poderia  retirar o meu fardo. 

EVANGELISTA: Quem era? 

CRISTÃO: Ele parecia um cavalheiro gentil. Conversamos bastante, e ele me  fez finalmente ceder, e então vim aqui. Mas quando me aproximei da montanha e notei que ela parecia desabar sobre o caminho, parei repentinamente, para  que não caísse em minha cabeça. 

EVANGELISTA: O que ele lhe disse? 

CRISTÃO: Perguntou-me a razão de estar seguindo naquela direção, e eu  lhe respondi. 

EVANGELISTA: E como ele reagiu? 

CRISTÃO: Perguntou se eu tinha uma família. Respondi-lhe que sim, mas  também lhe disse que estava tão sobrecarregado com meu fardo em minhas  costas e que isso me impedia de regozijar-me com eles como no passado. EVANGELISTA: E o que ele lhe disse? 

CRISTÃO: Ele sugeriu que me livrasse do meu fardo rapidamente, e lhe respondi que queria livrar-me dele e que estava indo para a porta estreita a fim  de receber instruções complementares sobre como poderia chegar ao local da  libertação. Então, ele disse que me indicaria um caminho melhor, mais curto  e menos acidentado do que aquele que o senhor havia me mostrado. Que  me direcionaria a um cavalheiro que tinha atributos para tirar estes fardos, e  acreditei nele. Mas quando me aproximei deste lugar e vi como as coisas eram,  parei porque tive medo e era perigoso. Agora, não sei o que fazer. 

Então, Evangelista disse: “…espera que te farei saber a palavra de Deus”. Com muito medo, Cristão permaneceu no local. 

Evangelista continuou, citando um texto bíblico: “Tende cuidado, não recuseis ao que fala. Pois, se não escaparam aqueles que recusaram ouvir quem,  divinamente, os advertia sobre a Terra, muito menos nós, os que nos desviamos  daquele que dos Céus nos adverte”. Além disso, Deus fala: “…todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma”. Você é um  homem que vive esse sofrimento. Iniciou rejeitando o conselho do Altíssimo e  abandonou o caminho da paz, quase chegando ao ponto de perdição. 

Em seguida, Cristão prostrou-se aos pés de Evangelista clamando: “…ai de  mim! Estou perdido!”. 

Ao ver isso, Evangelista tomou sua mão direita, dizendo-lhe: “…todo pecado e blasfêmias serão perdoados aos homens”. “Não sejas incrédulo, mas crente.” Cristão se recuperou e se levantou ainda temeroso e envergonhado, e  Evangelista continuou falando.  

EVANGELISTA: Leve a sério as coisas que lhe contarei, pois agora vou mostrar-lhe quem o iludiu e para quem ele o estava conduzindo.

O homem que você conheceu chama-se Sábio-Segundo-o-Mundo. Seu  nome é muito apropriado; em parte porque ele gosta somente da doutrina  deste mundo, motivo pelo qual ele vai à igreja da Cidade de Moralidade, e em parte porque ele ama mais aquela doutrina, pois ela o poupa da cruz. E  por ter natureza carnal, procura perverter meus caminhos, apesar de serem  corretos. Existem três pontos no conselho desse homem que você deve absolutamente abominar. 

Primeiro, ele o desviou do caminho; segundo, tentou tornar a cruz abominável a você; e em terceiro, conduziu-o na vereda que leva à morte.

Você deve primeiramente abominar que ele o tenha feito se desviar do caminho — sim, e o fato de você concordar em agir assim — porque fazer isto é rejeitar o conselho de Deus pelo conselho do Sábio-Segundo-o-Mundo. O Senhor  diz: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”, a porta para qual eu te enviei,  “…porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para vida, e são  poucos os que acertam com ela”. Esse homem perverso o desviou da sua peregrinação para a portinhola, e, fazendo isso, quase o levou à destruição. Despreze,  portanto, sua má influência ao tirá-lo do caminho e abomine-se por escutá-lo.

Em seguida, você deve abominar suas tentativas de tornar-lhe a cruz repugnante, pois você deve desejá-la mais do que o tesouro do Egito. Ademais, o Rei  da Glória disse que “quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á” e aquele que  vai a Ele e “não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos e irmãs,  e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Portanto, você deve  abominar qualquer doutrina que possa persuadi-lo de que essa verdade, sem a  qual você não pode ter a vida eterna, será a sua morte. 

Por último, você deve abominar a quem o induziu a tomar o caminho que  leva à morte. E, nesse sentido, você deve considerar aquele a quem ele o enviou,  e quão incapaz essa pessoa seria de livrá-lo do seu fardo. 

Reflita sobre algum momento em que seguiu um conselho errado, e afastou-se da direção de Deus. Por que escolhemos seguir as coisas que nos parecem mais fáceis?

“Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna”
JOÃO 12:25

DIA 6 

Você foi enviado para Legalidade, o filho da mulher cativa, que está sob escravidão com os seus filhos. Este é o mistério, o Monte Sinai que  você temia que caísse em sua cabeça. No entanto, se elas e seus filhos  estão cativos, como esperar que eles o livrem? Legalidade, portanto, não é  capaz de libertá-lo do seu fardo. Nenhum homem jamais foi liberado do  fardo por Legalidade, nem nunca o será. Você não pode ser justificado pelas  obras da lei, pois esta não pode livrar nenhum homem de seu fardo. Assim,  o Sr. Sábio-Segundo-o-Mundo é um estranho, o Sr. Legalidade é uma fraude  e seu filho, Civilidade, nada mais é que um hipócrita e não pode ajudá-lo.  Acredite em mim, o que você ouviu falar por meio destes homens insensatos,  nada mais é que um projeto para enganá-lo, desviando-o do caminho para  onde o enviei. 

Depois disto, Evangelista clamou em alta voz aos Céus para confirmar o que  dissera. Imediatamente, vieram palavras e fogo da montanha, estas fizeram o  cabelo do pobre Cristão arrepiarem-se, pois os que são pela prática da lei estão  debaixo de maldição, como está escrito: “Todos quantos, pois, são das obras  da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele  que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las”. Agora, Cristão não esperava nada além da morte e começou a clamar  com profunda tristeza, amaldiçoando o momento em que se encontrou com o  Sr. Sábio-Segundo-o-Mundo e chamando a si mesmo de louco por ouvir seu  conselho. Também sentiu muita vergonha ao pensar que os argumentos deste  cavalheiro, fluindo apenas da carne, tinham prevalecido sobre ele, levando-o a  abandonar o caminho certo. Feito isto, voltou-se novamente para as palavras  de Evangelista. 

CRISTÃO: Senhor, o que você pensa? Existe esperança? Posso voltar e continuar o trajeto até a portinhola? Peço perdão por seguir o conselho deste  homem, mas o meu pecado pode ser perdoado? 

EVANGELISTA: Seu pecado foi imenso, pois agiu mal duas vezes: desviou-se  do que é bom e tomou caminhos proibidos. Cuide-se para que não se desvie novamente. Entretanto, o porteiro o receberá, pois tem boa vontade para com  os homens. 

Reflita sobre o que significa arrepender-se
e receber o perdão de Deus por alguma falha cometida?

“…preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus
a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas
do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão”.
HEBREUS 11:25,26

DIA 7 

Em seguida, Cristão preparou-se para voltar, e Evangelista, depois de beijar-lhe, sorriu e lhe desejou uma jornada de sucesso. Deste modo, Cristão  se apressou, sem falar com qualquer pessoa no caminho. Ele viajou rapidamente, como alguém que sabe que encontra-se em terreno perigoso, até  chegar novamente ao local onde abandonou o caminho para seguir o conselho  do Sr. Sábio-Segundo-o-Mundo. Nesse momento, Cristão alcançou o portão no  qual estava escrito, “…batei, e abrir-se-vos-á”. 

Aquele que aos portões deseja adentrar
Deve com firmeza bater, sem duvidar
Que lhe é garantida a entrada,
Pois Deus o ama e seu pecado apaga.
Posso agora aqui entrar? Haverá alguém postado
Que a porta me abra, mesmo em meu estado
De rebelde não merecedor? Assim, alegre cantarei,
A Ele os mais altos louvores eternos entoarei.

Finalmente, uma autoridade com o nome de Boa Vontade se aproximou do  portão e perguntou quem estava ali, de onde viera e o que desejava. CRISTÃO: Eu sou um pobre pecador com um fardo pesado. Venho da Cidade  da Destruição, mas estou indo para o Monte Sião assim posso ser liberto da  ira vindoura. Informaram-me que esta porta é o caminho àquele lugar e quero  saber se você está disposto a deixar-me entrar. 

BOA VONTADE: Com toda alegria no coração. 

E, assim, abriu o portão. Enquanto Cristão atravessava o portão, Boa Vontade  o puxou para dentro. Cristão perguntou: “Por que você fez isso?”. “Aqui perto deste portão”, respondeu-lhe Boa Vontade, “está um castelo forte.  Seu capitão é Belzebu; ele e seu bando atiram flechas naqueles que se aproximam deste portão. A intenção é matá-los antes que entrem”. Em seguida, Cristão diz: “eu me alegro e tremo”. 

Ao cruzar o portão, Boa Vontade perguntou quem o ensinou a chegar lá. 

CRISTÃO: Evangelista instruiu-me a vir por este caminho e bater. Ele me  disse que o senhor me informaria acerca do que fazer. 

BOA VONTADE: A porta foi aberta e ninguém pode fechá-la.  CRISTÃO: Agora começo a colher os frutos de minha aventura.  BOA VONTADE: Mas por que você veio sozinho? 

CRISTÃO: Nenhum vizinho percebeu o perigo como eu. 

Reflita sobre o resultado de voltar ao caminho indicado por Deus. 

“Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra;
e, a quem bate, abrir-se-lhe-á”.
MATEUS 7:7,8

A aventura de Cristão continua, pois, cruzar o portão foi somente o começo.  Continue e leitura do livro O Peregrino de John Bunyan (Publicações Pão Diário, 2020).