“Traduzi a Bíblia para meu povo – os curdos”

Entrevista com Resûlê Qereqoçanî, tradutor da primeira Bíblia para o dialeto Kurmaji.

Por Ricardo Pessoa

Com uma barba longa e grisalha que bate no peito Resûlê Qereqoçanî chama a atenção onde quer que vá. Embora quem não o conhece logo pensa que ele é um extremista islâmico, quando ele abre a boca o nome de Jesus soa forte e logo se percebe a quem ele serve. Resûlê não é apenas um evangelista fervoroso mas também se destaca por sua facilidade de escrever poesias, e cânticos (mais de 1.300) em sua língua materna.

Residente na Alemanha desde 1978, Resûlê é um curdo natural do sudeste da Turquia. Criado segundo as tradições islâmicas e falando dois idiomas dentro de casa (turco e curdo-kurmanji), ele foi testemunha da contínua tensão etno-política vivida entre curdos e turcos.

Tomado de um medo precoce de passar a eternidade no inferno, aos 7 anos começou a rezar na mesquita com o fim de ganhar crédito diante de Allah e de aplacar sua ira. Resûlê alcançou a maioridade em busca de uma segurança pós morte. Não obtendo as respostas desejadas deserdou o Islã e resolveu tentar a vida na Alemanha, onde experimentaria uma mudança de 180 gruas – o pioneirismo da tradução do livro dos “infiéis” para o seu próprio povo.

 

RC – Primeiramente conte-nos como você se tornou um seguidor de Jesus?

Resûlê Qereqoçanî – Lembro-me quando em uma das aulas de religião perguntei ao Imam (Clérigo islâmico) se era possível saber de antemão para onde iria depois de morrer. Ele reagiu asperamente e me chamou de infiel e de Abu-Leheb (nome do tio do profeta Mohammed que se opôs a ele até o fim da vida. Mohammed recitou uma oração de maldição contra ele que o condenou ao inferno eterno).

Passei minha juventude tentando encontrar respostas sobre a vida após a morte. Em 1978 abandonei minha religião e meu país e imigrei para a Alemanha com o objetivo de estudar e buscar nova vida.

Na minha concepção todos os alemães eram cristãos; estava curioso para saber qual era a esperança que eles tinham com relação à eternidade. A partir dali iniciei uma pesquisa sobre o que o Cristianismo ensinava sobre isso.

 

RC – Você conseguiu alguma resposta?

Resûlê – De alguma forma eu lamento que os alemães que estavam ao meu redor não me explicaram nada sobre o Cristo ou sobre seus ensinamentos.

Fui a uma igreja evangélica cuja a filha do pastor fazia parte do meu grupo de folclore curdo. Isso porque de início não consegui estudar, apenas trabalhar em uma associação curda-alemã para a integração curda na Alemanha.

No primeiro contato com o pastor perguntei-lhe sobre o que deveria fazer para me tronar cristão. Infelizmente não conseguiu me ajudar. Fiquei decepcionado e um tanto confuso e indeciso. Eu não era nem muçulmano nem cristão, mas acreditava em um Deus criador.

Em seguida me deparei com a ideologia marxista, a qual me atraiu e influenciou muito. O comunismo se tornou minha religião, e meu coração cada vez mais vazio. Por causa de meus princípios religiosos, até meus 24 anos nunca havia tido contato físico com nenhuma mulher. Mas ao me tornar esquerdista passei a cometer conscientemente todos os tipos de pecados que condenava anteriormente: Drogas, bebidas e sexo. Foram três anos vivendo intensamente na libertinagem e de completa infelicidade.

Essa fase culminou com o maior erro que cometi na minha vida – a decisão de fazer um assalto à mão armada com um amigo. Depois do assalto ele me abandonou e fugiu com o dinheiro. A polícia foi chamada e fiquei. Naquele momento três pensamentos passaram pela minha cabeça: Ir atrás de meu companheiro e matá-lo, apontar o revolver na minha cabeça e apertar o gatilho e por fim, largar a arma e se entregar. Fui convencido por uma voz interna a me render. Aquela voz me fez enxergar meu ato vergonhoso e, ao perguntarem quem era o assaltante, me desarmei, me entreguei pacificamente e comecei a chorar em frente dos policiais e das dezenas de pessoas que haviam se aglomerado à minha volta. Acredito que aqueles policiais nunca haviam visto algo assim antes. Era 22 de fevereiro de 1986.

No caminho da prisão orei a Deus meio que resmungando sobre minhas buscas frustradas: “Deus, eu creio que tu existes, mas onde o Senhor está? Desde os sete anos de idade que te oro. Não te encontrei no Islã. Fui à igreja e não te encontrei no Cristianismo. No Marxismo também não estás. Oh! Dono dos céus e da terra, por favor mostre-me seu caminho!”

Uma semana depois me deparei com um Novo Testamento na língua turca na biblioteca da cadeia. O primeiro pensamento que me ocorreu foi “olha aí o livro dos idólatras e infiéis.” Em seguida uma voz dentro de mim me repreendeu: “Você não pediu para que lhe fosse revelado o Caminho? Este livro pode conter a resposta que você tanto procura.” Comei a lê-lo imediatamente. Quando cheguei no incidente da crucificação chorei, mas sem experimentar arrependimento. Na verdade não sabia que precisava me arrepender. Vi a atitude de Jesus em orar para que o Pai perdoasse seus malfeitores. “Que impressionante, que diferente!” pensei comigo.

As passagens de Romanos que falam que Deus não achou ninguém que fizesse o bem, e que o salário do pecado é a morte mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna por meio de Jesus Cristo, também foram chaves para que eu começasse a perceber que segurança de vida eterna poderia ser possível.

Ficava maravilhado com tudo que lia no Injil (termo usado para Evangelho em árabe), mas minha consciência moldada na forja do Islamismo me mantinha na prisão do medo. Medo de admitir e confessar que Jesus é Senhor, associando-o a Deus e perder de vez o paraíso eterno. Esse é considerado o único pecado imperdoável no Islã: “Allah jamais perdoará a quem Lhe atribuir parceiros; porém, fora disso, perdoa a quem Lhe apraz. Quem atribuir parceiros a Deus cometerá um pecado ignominioso.” (Alcorão 4:48) Para todo muçulmano Jesus não passa de um grande profeta nascido da virgem Maria, mas que não morreu na cruz. É grande blasfêmia chamá-lo de filho de Deus.

Ainda na prisão li o N.T. várias vezes até que um homem desconhecido visitou-nos e deixou-nos uma Bíblia completa. Imediatamente comecei a lê-la e logo percebi discrepâncias entre o Alcorão e a Torá. Por exemplo, vi que Abraão foi ao monte sacrificar Isaque não Ismael. Fiquei confuso. Se estamos falando do mesmo Deus, ele não pode se contradizer. Então qual é a verdade? Pensei comigo que tanto a Torá, Zebur (Salmos) e demais livros do A.T. como os Evangelhos e demais livros do N.T. foram escritos antes do Alcorão. Portanto, seus relatos deveriam ser os originais.

Continuei a ler por vários meses. Na tarde do dia 9 de novembro de 1987 me encontrava sozinho em minha cela lendo o Evangelho de João. Depois de ler o versículo 6 do capítulo 14 orei em lágrimas: “Jesus, se tu és o caminho, a verdade e a vida, por que resisto em crer totalmente em ti?” Naquele momento minha cela se encheu da presença de Deus. Dobrei meus joelhos e senti o Senhor me abraçar. Naquele dia me arrependi de meus pecados. Naquela cela eu nasci de novo.

Mas entenda uma coisa, eu acredito que o novo nascimento em Cristo tem que ser acompanhado de frutos que o evidenciem, senão é uma farsa.

 

RC – Quando esses frutos começaram a aparecer em sua vida?

Resûlê – Como curdo eu odiava os turcos. Nunca esqueço da minha infância quando os soldados turcos entravam em nossas vilas e nos ameaçavam e amedrontavam. Os via como inimigos por não nos sentirmos aceitos. Mas depois de ter experimentado o amor de Jesus passei a amá-los e orar pelo bem deles.

Em 1999 um grande terremoto golpeou a Turquia. Naqueles dias angariei fundos na Alemanha e levei para aliviar o sofrimento dos meus compatriotas. Fé e amor são seguidos de ações que os confirmam.

Jesus não apenas consertou minha vida, Ele me fez um novo homem.

 

RC – Como você saiu da prisão?

Resûlê – Experimentei um milagre. Segundo a lei alemã, os prisioneiros estrangeiros deveriam ser deportados para seus países. Obviamente que comecei a orar para que Deus intervisse e não permitisse minha deportação. No dia em que fiz essa oração ouvi o Senhor me dizer ´não temas filho meu, amanhã te libertarão´. Eu havia completado metade de minha condenação. Na manhã seguinte o carcereiro me chamou e eu lhe disse que já sabia onde estava indo porque o Senhor Jesus já me havia informado. E me libertaram.

Rapidamente encontrei um bom emprego. Orei por uma esposa que lhe fosse fiel e que quisesse servi-lo ao meu lado. Ele me presenteou com uma linda mulher que era metade alemã metade judia e que orava e amava o povo curdo mais que os próprios curdos.

Desde 1988 quando comecei a traduzir a Bíblia minha esposa não deixou de orar por mim e de me encorajar com um sorriso no rosto.

Estando em terra estrangeira e longe de seu povo como você conseguiu aprimorar seu idioma?

Me envolvi com algumas associações curdas onde tive contato com muita gente letrada. Li vários livros de muitos intelectuais curdos como Cîgerxwên, escritor curdo do norte da Síria e outros.

 

RC- Conte-nos como o trabalho árduo de tradução começou. Naquele tempo não havia quase nenhum material cristão traduzido para a língua curda, certo?

Resûlê – Correto. Depois que saí da cadeia um irmão alemão, piedoso homem de Deus, me recebeu em sua casa. Em sua biblioteca achei um livro entitulado “Verdadeiro Ouro”. O traduzi para o idioma Kurmanji (mas falado entre os curdos). Meu hospedeiro era bem idoso e eu o chamava de babá. Ele me abriu os olhos para a maior necessidade de meu povo: “Eles precisam da Bíblia. Comece a traduzi-la agora.” “Como assim babá”, respondi. “Eu não sou Martinho Lutero. Não sei grego nem hebraico nem obtenho doutorado. Sou um simples curdo que sabe seu idioma”. Mas meu babá me disse: “Meu filho, o Espírito Santo sabe todas as línguas e Ele está em você. Comece!”

Iniciei com passagens avulsas as quais dava para as pessoas ler e verificar se entendiam. Recebi uma resposta muito positiva de todos.

 

RC – Você enfrentou alguma resistência nesse processo?

Resûlê – Depois de ter tudo pronto para ser impresso fui umas três vezes à Sociedade Bíblica de Istambul. Alegavam que minha ignorância das línguas originais era um grande obstáculo. “Meu povo está faminto. Os curdos precisam urgente da Palavra Eterna.” Dizia a eles. Fiquei bem chateado por encontrar oposição por parte de meus próprios irmãos de fé. Então lhes perguntei qual seria a razão de nenhum mestre nas línguas originais que eles conheciam ter se prontificado a traduzir a Bíblia para meu povo até aquele momento. Ficaram sem resposta.

Não digo que não cometi erros, claro que sim. Até nas traduções alemãs há equívocos. Precisa sim de revisão, mas através dela recebi informação de que centenas de pessoas vieram a Cristo. Devido esses frutos acredito que foi vontade divina.

 

RC – Houve algum momento em que pensou em desistir?

Resûlê – Sim. Em 1996 visitei Diyarbakir e Elaziğ (minha cidade natal), região de maioria curda no sudeste da Turquia, onde estive com irmãos que sabiam Kurmanji. Naquele tempo estava à procura de curdos intelectuais na Turquia que pudessem ler meus manuscritos do Novo Testamento e me ajudar a melhorá-los. Pregamos a várias pessoas nesse interim e algumas se arrependeram e abraçaram a fé. Retornei para a Alemanha e publicamos o Evangelho de João. Meses depois voltei a Elaziğ e fiquei sabendo que dois dos conversos haviam regressado ao Islã. Desmoronei. Um desânimo enorme tomou conta de mim e decidi parar com a tradução.

Uma irmã canadense chamada Keren que morava em Diyarbakir me chamou para visitar um homem que queria me conhecer. Me opus veementemente. Disse-lhe que havia parado de traduzir a Bíblia e que Deus havia me abandonado. Ela insistiu tanto que acabei cedendo.

Ao chegar ao nosso destino o homem me abraçou e disse: “Irmão Resûlê, agora conheço a verdade.” “Que verdade, perguntei.” Ele respondeu: “Que Jesus é o Salvador do mundo.” Eu, que estava a ponto de jogar tudo para o alto, senti uma grande vergonha de mim mesmo. Graças a Deus naquele dia me arrependi por não acreditar no que Deus podia fazer. Nos ajoelhamos e choramos juntos. O ânimo voltou e continuei a traduzir, mas se interrupção desta vez.

Em 1998 o Novo Testamento foi impresso pela primeira vez. Enquanto terminava o Novo comecei o Velho e tudo foi completado em 2004, quando entregamos para uma casa publicadora na Alemanha. Mandamos publicar três vezes. Milhares foram distribuídas tanto na Alemanha como na Turquia. Atualmente eu e outros três irmãos revisamos a primeira versão versículo por versículo. Se Deus quiser em breve teremos uma versão mais acurada para abençoar quase 20 milhões de curdos que falam Kurmanji ao redor do mundo.

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