Uma delegada que faz a diferença

Por Méltsia Mendonça

Única delegada mulher da Delegacia de Homicídios de Contagem, Larissa Marçal fala sobre os desafios da profissão, violência, tráfico de drogas e o amor pela Policia Civil

Larissa Bello Fernandes Marçal da Cunha, Delegada da Delegacia de homicídios de Contagem, nasceu no Rio de Janeiro, mas já se sente uma mineira da gema e defende a cidade de Contagem 24 horas por dia.

Após a faculdade de direito, Larissa fez pós-graduação em Processo Penal, Processo Civil e Civil, mas seu objetivo era o de fazer um concurso especifico para delegado. “Apesar de carioca, o primeiro concurso que fiz foi aqui em Minas onde passei de primeira”. Fala com orgulho.

Para assumir o cargo em 2013 como delegada, Larissa teve que fazer vários cursos e algumas Pós-graduações, as quais contam como prova de títulos e o concurso para delegada, que é dividido em várias fases. A primeira fase é a objetiva, a segunda é uma discursiva, a terceira é oral e depois ainda tem os exames médicos, que são as provas físicas, o psicotécnico e por último, a Acadepol – academia de polícia com investigação social. Inclusive, na época teve que fazer o curso acadêmico em apenas três meses, porque o Estado de Minas Gerais estava precisando muito de delegados, sendo que o normal são seis meses de academia. “Eu tinha aula de segunda a sábado de 07h30min às 22 horas. É um processo de quase dois anos até você poder assumir o cargo”, declara Larissa.

“O desejo de ser uma delegada começou quando eu e meu ex-marido frequentávamos estande de tiros. Sempre gostei muito da área de segurança pública. Interessava-me por reportagens, assistia filmes e acabei focando neste objetivo” Lembra.

Quando foi nomeada, prestou serviços no Norte de Minas, no Vale do Jequitinhonha. Dos 422 delegados que foram nomeados, foi a primeira a ser transferida e logo em seguida, convidada para assumir Belo Horizonte. Larissa gostava de trabalhar nos plantões, então assumiu o plantão da delegacia de Venda Nova, que era um dos mais pesados, com grande demanda de crimes violentos. Depois, ficou um tempo no juizado e agora foi convidada para fazer parte da equipe do departamento de homicídios, área que gosta de trabalhar. Pela primeira vez assumiu uma delegacia especializada.

Mulheres no combate ao crime

“Um fato interessante que ocorreu na época do meu concurso, é que foi o ano em que mais mulheres se formaram para delegadas. Acho que agora se perdeu um pouco o machismo dentro das delegacias, tanto é que tivemos recentemente uma chefe de polícia, a doutora Andreia. Também no departamento de investigação entraram muitas mulheres. Nós desempenhamos estes papeis tão bem quanto os homens. Eu não gostaria de assumir uma delegacia de mulheres ou de menores, acho até que por falta de aptidão. Gosto mesmo é de ir para as ruas”, enfatiza a delegada. Como podemos ver, se trata de uma delegada de pulso firme e que não demostra medo e nem preguiça naquilo que faz.

Hoje, o departamento de homicídios conta com um quadro de pessoal composto por quase 50% de mulheres. Inclusive a chefe de Departamento do Estado de Minas é uma mulher, a doutora Cristina Cicarelli. “Na verdade acho que o que comanda é a aptidão, indiferente de ser homem ou mulher. Porque como delegada de homicídios, tenho que sair de madrugada, andar pelos aglomerados, enfrentar algumas situações bem complicadas. Para enfrentarmos a violência, estamos seguindo um padrão de realizar operações semanalmente e em alguns casos até mais que isso, para cumprirmos os mandatos de prisão. Porque quando estamos atuando num aglomerado, temos que mostrar a eles que não podem atuar fora da lei, que estamos ali no local tomando conta”.

Em Contagem estas operações estão tendo uma grande repercussão. Exemplo disso é a diminuição do número de homicídios na cidade, principalmente em Nova Contagem, uma das áreas mais perigosas do Município. Uma dessas operações resultou na prisão do chefe de uma gangue bem conhecida, além do cerco de todos os envolvidos em uma operação bem sucedida.

Outro ponto forte da gestão de Larissa é a rapidez e eficiência com que as investigações são concluídas, porque na maioria dos casos, as investigações demandam muito tempo.

O tráfico como causa

De acordo com a delegada, entre 80 a 90% dos crimes cometidos em Contagem estão relacionados com o tráfico de drogas. “Quando fazemos uma investigação na vida de um traficante, temos que investigar em torno de toda a família, porque na maioria dos casos, um ou mais membros da família está envolvido e aí sempre fica um recebendo ordens do que está atrás das grades. O problema do trafico é que se trata de uma cadeia de pessoas, desde o chefão até os encarregados que ficam somente para avisar que a polícia está na área. Então a investigação continua, mesmo depois que o traficante é detido”, afirma

Larissa Marçal declara ainda que a maioria dos homicídios cometidos na cidade também é causada pelo tráfico de drogas. São rixas entre as gangues do tráfico de drogas pelo poder. “Uma gangue mata um membro da gangue rival e aí, para se vingar, a gangue rival mata um membro da outra gangue e vira um círculo vicioso. São muitas gangues do tráfico em um bairro só. Um fator que ainda dificulta mais é que Contagem faz fronteiras com muitos outros bairros problemáticos como Ribeirão das Neves, Betim, entre outros. Estou com um procedimento grande que é um processo de Esmeraldas, mas que já estamos resolvendo. Penso que o trabalho para acabar com o latrocínio ou qualquer tipo de agressão à sociedade pelos criminosos tem que ser feito pela polícia. É ela que tem que fazer a ação preventiva e a defensiva. O crime de homicídio é sempre o mais grave porque envolve vidas. O homicídio não é praticado por qualquer autor de delitos, então teria nestes casos que ficar exclusivamente por conta da polícia para resolver a situação”, ressalta a delegada.

A segurança pública de contagem tem sido beneficiada com o trabalho da equipe da delegacia de homicídios, que vem desempenhando um trabalho de auxilio à população sobre como evitar ser vítima de roubos e outros delitos. Trabalhando de segunda a sexta e ficando com seu telefone ligado 24 horas por dia, a delegada autoriza os investigadores de plantão a ligarem para ela a qualquer hora, caso precisem de ajuda. Inclusive não só da região de Contagem, mas se prontifica a ajudar outras equipes de cidades da região metropolitana.

“Volto a falar na aptidão, só mesmo com vontade, dedicação e amor ao que se faz para enfrentar o dia a dia de uma delegacia. Se você quer fazer a diferença, se quiser realmente ajudar a população, não tem outro jeito, tem que ficar ligado 24 horas mesmo. Porque mesmo quando chego em casa depois de um dia exaustivo, fico pensando no que está acontecendo, se quem está de plantão está dando conta do recado, se está tendo alguma novidade e por aí vai”, confessa Larissa.

A segurança de uma delegada de polícia do departamento de homicídios tem que ser reforçada. Para evitar surpresas desagradáveis, a doutora Larissa age com cautela como, por exemplo, não fornecendo seu endereço residencial, nunca usando o mesmo carro e trafegando por vários trajetos diferentes. Quando perguntada pelos filhos, Larissa disse que estão no Rio de Janeiro e que assim, tem uma grande preocupação a menos.

“Graças a Deus aqui em Contagem a Polícia Civil e a Militar está tendo uma integração muito boa. Temos as reuniões do Fica Vivo e um relacionamento muito bom. Para a população eu aconselho a nunca reagir a um assalto. Quando estiver na rua, seja qual cidade for, esteja sempre atento. Quando for parar num sinal de trânsito, olhar para os lados, de preferência com os vidros fechados. Não parar em lugares ermos para atender um celular ou ainda para ficar conversando dentro do carro. Antes de abrir o portão da garagem da sua casa, olhar para os lados e verificar a aproximação de elementos a pé ou ainda de carros se aproximando. Não fique conversando ao celular quando estiver na rua. Enfim, para evitar agressão de criminosos, o ideal é estar sempre atento a tudo e a todos. Procuro fazer de tudo, trabalho incansavelmente para que a sociedade e a família possam viver mais em paz”, encerra a delegada Larissa.

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